Pode ser que você tenha lido ou ouvido o termo “excreção viral” durante a pandemia do novo coronavírus. Agora temos imagens que representam isso e uma explicação detalhada do significado.

A imagem acima foi capturada por Elizabeth Fischer, chefe dos Laboratórios Rocky Mountain, um laboratório de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde em Hamilton, Montana, nos EUA.

Fischer fez imagens de todos os tipos de vírus nos últimos 25 anos, mas essa imagem capturada com um microscópio eletrônico de varredura (MEV), mostra um vírus que todos nós conhecemos muito bem: SARS-CoV-2, o patógeno responsável pelo COVID-19.

Escrevendo em seu blog do Instituto Nacional de Saúde, o médico-genético Francis Collins explica a imagem:

As dobras e saliências marrom-alaranjadas fazem parte da superfície de uma única célula que foi infectada pelo SARS-CoV-2. Esta célula em particular vem de uma linha de células epiteliais renais de primatas comumente estudada. As pequenas esferas azuis emergentes da superfície da célula são partículas do SARS-CoV-2.

Essa imagem é literalmente um retrato da excreção viral, um processo no qual partículas virais são liberadas de uma célula que está morrendo. A imagem nos dá uma janela de como o SARS-CoV-2 parece ser devastadoramente eficaz na cooptação da máquina celular de um hospedeiro: apenas uma célula infectada é capaz de liberar milhares de novas partículas de vírus que podem, por sua vez, ser transmitidas para outros.

Capturar uma imagem como essa não é um processo simples. Fischer teve que ter muito cuidado para capturar a foto no momento exato e captar as partículas do vírus que saíam da célula infectada. E sim, é exatamente isso que os vírus fazem: sequestram células, convertendo-as em fábricas que produzem mais vírus. Muito desagradável.

E de fato, o SARS-CoV-2 parece ser muito eficiente em se replicar e se espalhar não apenas para novas células, mas também para novos hospedeiros.

O COVID-19 tem um número básico de reprodução (R0) estimado entre 2,2 e 3,9. Esse valor descreve o número médio de pessoas que um infectado irá infectar, e dá aos epidemiologistas uma ideia aproximada da capacidade de um vírus de se propagar através de uma população.

Dito isso, o R0 descreve um cenário idealizado, no qual a imunidade, medidas de distanciamento físico e outros fatores, como vacinas, não estão presentes.

Em comparação, a gripe (influenza) tem uma classificação R0 entre 0,9 e 2,1, enquanto o sarampo tem uma R0 espantosa entre 12 e 18.

Essa imagem microscópica e outras como ela são importantes porque podem nos dizer coisas novas sobre o coronavírus, incluindo a forma como ele se infiltra e se move dentro das células e emerge para infectar outras células próximas.

Imagens como essa também são importantes porque transformam uma ameaça invisível em algo tangível, nos fornecendo uma fotografia do nosso inimigo comum.

Agora a gente pode, literalmente, ver o SARS-CoV-2.

Descrição da imagem do topo: Imagem de microscópio eletrônico da excreção viral. Na esquerda, a versão original em preto e branco. Na direita, uma versão colorida. As partículas do vírus são mostradas em azul.