Testes inacabados e complicações decorrentes da pandemia de coronavírus forçaram a Agência Espacial Europeia (ESA) e o Roscosmos da Rússia a adiar o lançamento da ExoMars, uma missão colaborativa para pousar um veículo espacial no Planeta Vermelho e procurar sinais de vida.

Planejada para este ano, não estava claro se a ExoMars estaria pronta para lançamento no final do verão (nos EUA) como planejado, mas atrasos técnicos em curso  – e agora a pandemia de COVID-19 – já garantiram a resposta. Não haverá lançamento em 2020, pois a missão ESA-Roscosmos ExoMars foi adiada para 2022, de acordo com um comunicado de imprensa da ESA.

Devido à variabilidade das posições orbitais envolvendo a Terra e Marte, a oportunidade ideal de lançamento para naves espaciais com destino a Marte, conhecida como janela de transferência Hohmann, acontece apenas uma vez a cada 26 meses. Assim, o lançamento em 2022 deve ocorrer em algum momento entre agosto e outubro. O atraso de dois anos é ruim, mas poderia ser pior.

Antes do anúncio desta quinta-feira (12), os planejadores da missão estavam lutando fervorosamente para consertar os paraquedas problemáticos da espaçonave, entre outras questões pendentes. Como observado no comunicado de imprensa da ESA, tornou-se difícil coordenar os membros da equipe, devido à atual “situação epidemiológica” na Europa.

No comunicado de imprensa, Dmitry Rogozin, diretor geral da Roscosmos, disse o seguinte sobre a decisão de adiar a missão:

Tomamos uma decisão difícil, mas bem ponderada, de adiar o lançamento para 2022. Isso foi motivado principalmente pela necessidade de maximizar a robustez de todos os sistemas da ExoMars, bem como por circunstâncias de força maior relacionadas à exacerbação da situação epidemiológica na Europa que deixou nossos especialistas praticamente sem nenhuma possibilidade de prosseguir com viagens para indústrias parceiras. Estou confiante de que as medidas que nós e nossos colegas europeus estamos tomando para garantir o sucesso da missão serão justificadas e, sem dúvida, trarão resultados apenas positivos para a implementação da missão.

Ao que Jan Wörner, Diretor Geral da ESA, acrescentou:

Queremos ter 100% de certeza de uma missão bem-sucedida. Não podemos nos permitir nenhuma margem de erro. Mais atividades de verificação garantirão uma viagem segura e os melhores resultados científicos em Marte.

Em uma coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira (12), Wörner deu mais detalhes, dizendo que eles poderiam lançar, “mas isso significaria que não estamos fazendo todos os testes [e nós] não podemos fazer as coisas de qualquer jeito”, conforme publicado pelo New York Times.

Em um tuíte, Wörner disse que o adiamento não deve afetar outras missões, como a missão de retorno de amostras de Marte, na qual a ESA está colaborando com a NASA.

Tradução: Nossas equipes continuam mantendo o cronograma e o orçamento da missão Mars Sample Return. Esse esforço conjunto nos permitirá trazer amostras coletadas pelo veículo espacial da NASA em Marte de volta à Terra para estudo. Não há indicação de que a decisão da ExoMars hoje tenha impacto sobre a MSR.

É uma pena, porque, além de alguns testes e ajustes finais, a missão ExoMars parecia estar pronta para ser lançada.

Todo o hardware de voo necessário para o lançamento foi instalado na espaçonave, enquanto a plataforma de pouso do sistema, chamada Kazachok, também estava pronta, com seus instrumentos científicos testados, funcionando e contabilizados, de acordo com a ESA. O rover Rosalind Franklin também estava pronto para ser lançado no topo de um foguete russo de prótons, tendo concluído recentemente testes térmicos e de vácuo. Uma vez em Marte, este veículo espacial procurará sinais de vida, cavando a uma profundidade de dois metros.

Dito isto, algumas questões urgentes permaneciam sobre os dois paraquedas do sistema, o que reduziria a velocidade da sonda durante sua descida à superfície marciana. Os testes de implantação de paraquedas realizados no ano passado em maio e agosto falharam, colocando a missão em risco. Os testes realizados no final de 2019 apresentaram progresso, mas um par de testes finais de alta altitude para ambos os paraquedas ainda estava por acontecer.

Esses testes estavam programados para ocorrer no Oregon ainda este mês, que, se bem-sucedidos, teriam cumprido o prazo de abril para atender à expectativa de lançamento de 2020. Se há um lado positivo nesse adiamento, é que o componente do paraquedas não precisa mais ser resolvido de forma apressada.

A ESA também relata que o módulo de descida do sistema ainda estava passando por testes relacionados ao seu sistema de propulsão, e o New York Times diz que os engenheiros estão tentando corrigir problemas com seus componentes eletrônicos. Tanto o módulo de descida quanto o módulo de aterrissagem Kazachok ainda precisam concluir os testes ambientais para garantir que seus componentes sejam adequados para a viagem ao Planeta Vermelho, de acordo com a ESA.

A missão ExoMars poderia ou não estar pronta para a previsão de lançamento de 2020, mas agora nunca saberemos.

Há outros lançamentos programados para se pensar no próximo ano, como o rover Mars 2020 Perseverance da NASA, a Missão Hope Mars dos Emirados Árabes Unidos e a missão de retorno de amostras lunares Chang’e 5 da China. Essas missões – até onde sabemos – ainda vão acontecer. Mas, com o COVID-19, as coisas estão mudando a cada minuto, portanto, não devemos tomar nada como garantido.

Esse último adiamento é mais um contratempo frustrante para a ExoMars. Como você deve se lembrar, a missão ExoMars anterior de 2016 resultou na perda do módulo de aterrissagem Schiaparelli, que colidiu com a superfície marciana devido a uma aparente falha no computador.