“É importante que o Facebook seja um lugar em que pessoas com visões diferentes possam compartilhar suas ideias”, escreveu Mark Zuckerberg após o violento comício “Unite the Right” (“Una a Direita”), em Charlottesville. “Mas quando alguém tenta silenciar os outros ou atacá-los baseado em quem eles são ou no que acreditam, isso machuca a todos nós e é inaceitável”. Esse sentimento, entretanto, aparentemente não impediu a gigante da tecnologia de usar um anúncio anti-muçulmano como teste para seus novos formatos de vídeo nas últimas semanas da eleição americana do ano passado.

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De acordo com uma reportagem da Bloomberg, o Facebook ofereceu sua expertise ao grupo de defesa da direita Secure America Now para ajudar a aumentar o alcance de sua campanha “antirrefugiados” em estados indecisos. Um desses esforços supostamente incluiu testar seu então novo formato de vídeo vertical. Trabalhando com a Harris Media, uma firma de relações públicas digitais, o Facebook supostamente projetou um estudo de caso para diferentes formatos usando um vídeo anti-islâmico chamado “Estamos Seguros?”.

O anúncio justapõe o rosto de uma garota branca com imagens rígidas em preto e branco de muçulmanos que conduziram ataques terroristas nos Estados Unidos. Embora a descrição do vídeo no Youtube promova a importância de se reforçar a enfraquecida “segurança nacional”, dois dos quatro terroristas mostrados são nascidos nos Estados Unidos. De acordo com seu próprio site, a Secure America Now foi formada para protestar contra a mesquita do Marco Zero, em Nova York.

O Facebook lançou o anúncio em 12 versões diferentes, de acordo com a Bloomberg, e então conduziu uma pesquisa com usuários que haviam visto o conteúdo para descobrir qual da dúzia de formatos era mais favorecido.

Mencionando relatórios internos de agências de publicidade e cinco fontes envolvidas com a campanha, a reportagem da Bloomberg diz que o teste foi parte de uma competição maior entre o Facebook e o Google por milhões de dólares em propaganda da Secure America Now, que rodava “uma mistura de mensagens anti-Hillary Clinton e anti-islã”, visando os eleitores de estados indecisos durante os dias finais da eleição do ano passado. Dentro das duas plataformas, os anúncios foram supostamente vistos milhões de vezes.

O Facebook disse que não quer influenciar eleitores, mas isso contradiz diretamente seus próprios esforços de marketing. Uma página da própria rede social detalhando a campanha de anúncios do senador Patrick Toomey no site, por exemplo, chama-se “O melhor conteúdo para influenciar eleitores”. Entramos em contato com Facebook, Harris Media e Secure America Now e vamos atualizar a publicação se e quando tivermos resposta.

O Facebook tem focado em convencer o público de que está trabalhando duro para evitar interferência eleitoral do exterior, depois que foi descoberto que milhares de anúncios comprados por russos apareceram na plataforma. Mas a companhia aparentemente não tem problema algum em ajudar empresas nacionais a espalhar mensagens equivocadas e intolerantes no site para influenciar eleitores. Especialmente se isso ajudar a rede social a descobrir qual o formato de vídeo do momento.

[Bloomberg]

Imagem do topo: Getty