Uma reportagem do jornal britânico The Guardian constatou uma maneira que permite a governos e políticos gerar interações falsas no Facebook, aumentando assim a falsa sensação de engajamento de postagens e de que determinados conteúdos de cunho político estão em alta na rede social. Pior: o Facebook sabe que essa brecha pode enganar os algoritmos da companhia para que eles recomendem esse tipo de post para mais usuários na plataforma.

O The Guardian investigou documentos internos do Facebook, além de ter ouvido Sophie Zhang, ex-cientista de dados da empresa. Segundo Zhang, a rede social, mesmo sabendo do caso, só toma atitudes significativas em campanhas e postagens que podem influenciar a política em países ricos, como os Estados Unidos, Polônia e Coreia do Sul. Locais mais pobres, como países do Oriente Médio e da América Latina, seriam completamente ignorados pelo Facebook.

Hoje, o Facebook proíbe que seus usuários tenham mais de um perfil, mas uma única pessoa pode criar quantas páginas de fã ela quiser. Geralmente, as fan pages são usadas para representar empresas, instituições de caridade, organizações sem fins lucrativos ou, como o próprio nome diz, a página pública de um artista ou personalidade.

No entanto, as mesmas páginas podem ser disfarçadas de perfis para que pareçam contas individuais. Foi aí que Zhang identificou a brecha: governos e políticos estão usando essa lacuna, que aparentemente não é intencional do Facebook, para enganar os usuários com um engajamento falso, uma vez que as curtidas, comentários e compartilhamentos são feitos pelas próprias páginas. Quanto maior for o engajamento em um post, mais ele passa a ser recomendado e aparecer para os demais usuários.

Zhang cita como exemplo Honduras, onde administradores que cuidam da página do presidente do país, Juan Orlando Hernández, criaram centenas de páginas para curtir os próprios posts e parecer que o político tinha apoio popular durante as eleições de 2017. Da mesma forma, o partido do presidente Ilham Aliyev, no Azerbaijão, usou páginas falsas para perseguir políticos da oposição e criticar notícias de veículos independentes.

Avisos de Zhang teriam sido ignorados

A ex-cientista de dados do Facebook trabalhava na equipe de integridade que justamente identificava esse tipo de atividade falsa. Mesmo tendo alertado seus superiores acerca dessas páginas, a resposta foi inconsistente — e isso quando tinha resposta, já que alguns relatórios levaram quase um ano para terem um parecer, e outros sequer chegaram a ser analisados. Zhang foi demitida em 2020 sob a justificativa de ter um mau desempenho na equipe. Ela recusou um acordo de US$ 64 mil (R$ 365 mil) para encerrar o caso.

Além disso, Zheng citou uma conversa que teve com Guy Rosen, vice-presidente de integridade da empresa, em 2019. Naquele ano, o executivo declarou que o Facebook possui “centenas de milhares de tipos de abuso”, e que, por esse motivo, a companhia começa a investigá-los em “principais países, áreas de prioridade máxima”. Para se ter uma ideia, uma solicitação relacionada à Coreia do Sul, Índia ou Polônia levava 45 dias ou menos para ser resolvida; um outro caso, este envolvendo Filipinas e Estados Unidos em conjunto, foi solucionado em apenas sete dias. Em contrapartida, a reação em países como Iraque, Afeganistão, Argentina ou México levou entre 94 e 426 dias.

Assine a newsletter do Gizmodo

Em entrevista ao The Guardian, a porta-voz do Facebook, Liz Bourgeois, negou as acusações. “Discordamos profundamente da caracterização da senhora Zhang em relação às nossas prioridades e esforços para acabar com abusos em nossa plataforma. Nós procuramos agressivamente os abusos em todo o mundo e temos equipes especializadas focadas neste trabalho”, disse. Bourgeois ainda afirmou que a rede social derrubou “mais de 100 redes de comportamento inautêntico coordenado”.

A brecha de criação de páginas, segundo o The Guardian, continua ativa.

[The Guardian, The Verge]