New York Times revelou neste final de semana que o hábito do Facebook de dar dados amplos de usuários para terceiros se estendia a “pelo menos 60 fabricantes de dispositivos”, que receberam acesso a APIs privadas do Facebook na última década. A gigante das redes sociais se defende, insistindo que os desenvolvedores só puderam usar os dados para fornecer a “experiência Facebook” antes de a dominância de mercado de Android e Apple tornar menos necessário que os fabricantes construíssem funcionalidades personalizadas. No entanto, uma nova informação pode ter tornado a situação toda mais difícil de se varrer para debaixo do tapete.

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Agora, o The New York Times noticiou que a lista de fabricantes incluía quatro empresas chinesas: Lenovo, Oppo, TCL e Huawei, esta última tendo sido sinalizada por autoridades de inteligência dos EUA como uma potencial ameaça de segurança nacional:

Os acordos deram ao Facebook uma base no mercado móvel começando em 2007, antes que apps independentes do Facebook funcionassem bem em smartphones, e permitiram que fabricantes de dispositivos oferecessem alguns recursos de Facebook, como agendas, botões de “curtir” e atualizações de status.

Funcionários do Facebook disseram que os acordos com as empresas chinesas lhes possibilitaram acesso parecido com o que foi oferecido ao BlackBerry, que podia buscar informações detalhadas tanto sobre usuários de dispositivos quanto sobre todos os seus amigos — incluindo histórico profissional e escolar, status de relacionamento e curtidas.

Funcionários do Facebook disseram que os dados compartilhados com a Huawei permaneceram no celular, não nos servidores da empresa.

O senador de Virgínia, Mark Warner, um democrata, disse ao jornal que investigadores do congresso haviam publicamente expressado preocupação com as “relações próximas entre o Partido Comunista Chinês e fabricantes de equipamentos como a Huawei” desde 2012, então o Facebook deveria ter consciência disso. Ele acrescentou: “Estou ansioso para saber mais sobre como o Facebook se assegurou de que as informações sobre seus usuários não foram enviadas para servidores chineses”.

O vice-presidente do Facebook, Francisco Varela, disse ao NYT que “todas as integrações do Facebook com Huawei, Lenovo, Oppo e TCL foram controladas desde o início — e o Facebook aprovou tudo que foi construído. Dado o interesse do Congresso, queríamos esclarecer que todas as informações dessas integrações com a Huawei foram armazenadas no dispositivo, não nos servidores da Huawei”.

A preocupação com a Huawei cresceu no Congresso, já que bancos estatais chineses financiaram a grande expansão internacional da empresa, com a venda de celulares e equipamentos de telecomunicação em todo o globo. Como apontou o Washington Post, embora a empresa negue que compartilha qualquer dado de usuário com o governo chinês, o Pentágono tomou a decisão bastante incomum de proibir a venda de dispositivos da Huawei e de outra fabricante chinesa, a ZTE, nas bases militares. Assim como aconteceu com a Huawei, autoridades de inteligência dos EUA suspeitam que a ZTE poderia estar espionando sorrateiramente seus clientes internacionais (apesar de que ainda não foram apresentadas provas específicas disso).

Vale apontar que a ZTE é a mesma empresa que enfrentou uma proibição de sete anos de comprar ou usar componentes feitos por empresas americanas depois de a companhia chinesa ter supostamente violado sanções ao Irã e à Coreia do Norte — isso até que o presidente chinês Xi Jinping sussurrar algumas palavras doces no ouvido de Donald Trump e ambos decidirem entrar em acordo sobre um tipo de plano para suspender a proibição com “garantias de segurança” não reveladas.

Segundo uma reportagem da Reuters, esse acordo pode já estar em movimento. Fontes disseram à agência de notícias que a ZTE assinou um acordo “preliminar” com o Departamento de Comércio que exigiria que a empresa renovasse completamente sua diretoria e equipe executiva dentro de um mês, pagasse uma multa de US$ 1 bilhão, além de US$ 400 milhões mantidos em custódia para “cobrir quaisquer violações futuras”, e assinasse um “acordo não-público” para permitir que autoridades dos EUA visitem suas instalações sem aprovação prévia do governo chinês. Entretanto, o acordo ainda não está finalizado, informou a Reuters.

Uma fonte revelou ao Washington Post que acredita-se que a ZTE não tenha tido acesso à API do Facebook.

Ainda assim, a Comissão Federal de Comunicação dos EUA (FCC) está ponderando proibir o uso de subsídios federais para comprar equipamentos de telecomunicação de ambas as empresas.

De acordo com o Wall Street Journal, embora seja fácil para a Huawei e para a ZTE construírem backdoors em seus equipamentos de rede, seria muito difícil para as empresas embutirem qualquer coisa mais complicada do que uma “trava” — como sistemas de vigilância — sem que operadoras de Wi-Fi e provedores de internet notassem. Entretanto, seria muito mais simples para as companhias espionarem as pessoas usando smartphones.

“Eles poderiam ter a capacidade de grampear ou gravar uma ligação?”, Kevin Riley, chefe de tecnologia da Ribbon Communications Inc., disse ao Wall Street Journal. “Absolutamente. Eles possuem software para isso.”

Na primeira reportagem do New York Times, o pesquisador de privacidade Serge Egelman, da Universidade da Califórnia em Berkeley, comentou: “Você pode pensar que o Facebook ou que a fabricante de dispositivos é confiável. Mas o problema é que, conforme mais e mais dados são coletados em seu dispositivo — e se eles puderem ser acessados por apps no dispositivo —, isso cria riscos de privacidade e segurança sérios.”

O Facebook disse que começou a “diminuir” as parcerias com fabricantes em abril (convenientemente na mesma época em que o escândalo da Cambridge estava chegando ao seu ápice). De acordo com o NYT, todas as parcerias com empresas chinesas estão atualmente ativas, mas “funcionários do Facebook disseram em uma entrevista que a empresa relaxaria o acordo com a Huawei até o fim da semana”.

[New York Times]

Imagem do topo: AP