Samantha Rae Anna Jespersen nunca esperava que lhe fosse solicitado o contrato social do seu ânus. Mas esse é o tipo de pergunta estúpida que ela receberia ao longo dos anos no pesadelo em busca de um ser humano nas engrenagens e motores do Suporte do Facebook.

Conforme relatado pelo Buzzfeed News, Samantha Rae Anna Jespersen foi assombrada durante oito anos por uma página não oficial marcada como “Ânus de Samantha Rae Anna Jespersen” com um pin de localização perto de sua escola. A página foi criada quando ela tinha 15 anos, por uma pessoa desconhecida (como uma página não oficial ela foi “gerada pelo interesse do usuário”), mas até esta semana, ela ainda aparecia no topo dos resultados de pesquisa no Google. Samantha reportou a página ao Facebook várias vezes ao longo dos anos, mas a empresa alegava que isso não violava os termos da rede social. Após a investigação do Buzzfeed, a página foi removida.

Exemplos de respostas de e-mail do Facebook para Jesperson que foram fornecidas ao Gizmodo. Imagem: Samantha Rae Anna Jesperson

Felizmente, a imagem da página está em branco, mas não há como saber quem fez isso porque o Facebook gerou a página automaticamente em 2012 quando alguém “fez check-in” no local. O Facebook respondeu às tentativas de Jesperson de “reivindicar” a página exigindo um número de telefone associado à empresa, ou então um comprovante de endereço, licença comercial, declaração de imposto e/ou certificado ou contrato social.

A partir de 2015, o Facebook sustentou que a postagem não violava as diretrizes de comunidade. É um posicionamento estranho, considerando que a página viola a maior parte dos motivos que o Facebook lista em seu menu para denunciar uma página: não é um local público de verdade; é prejudicial; contém um ataque pessoal; é spam; e contém conteúdo sexualmente explícito.

Em suas constantes colocações, palavra por palavra, o Facebook apenas a tranquilizou repetidamente: “queremos ajudá-la a evitar coisas que você não deseja ver no Facebook” e sugeriu que ela deixasse de seguir a página. O Facebook respondeu ao pedido de comentário do Gizmodo na tarde de quarta-feira, pedindo um link para a página. Logo em seguida, a página foi removida. O Facebook disse que nos atualizará com mais detalhes sobre o caso.

Samantha desistiu; anos se passaram até que ela pensou em pesquisar seu nome novamente nesta semana e descobriu que a página ainda assombra o topo de seus resultados de busca. Depois de mais uma denúncia sem esperanças, ela recorreu à comunidade de aconselhamento jurídico do Reddit, e a publicação se tornou viral. Por telefone, Jespersen concordou em contar ao Gizmodo o que acontece quando você tenta se comunicar com uma burocracia corporativa que se recusa a reconhecer que o seu ânus não é a localização de um empreendimento.

Gizmodo: O que a levou a recorrer ao Reddit?

Jespersen: Eu estava deitada na cama e pesquisei meu nome, como fazia há anos, para ver se ela ainda aparecia, e ainda é o primeiro resultado. Tentei denunciá-la novamente na outra noite e recebi uma resposta do Facebook dizendo que a página não violava nenhuma diretriz. Então eu pensei, desisto, vou perguntar ao Reddit porque não consigo me livrar disso sozinha!

Olha, tentei procurar no Facebook e não consegui encontrá-la…

Ok, então terei que lhe dar meu nome completo e você poderá encontrá-la. [Soletra o nome dela.]

Ah, okay. Estou vendo. Meu Deus.

Sim. É meio doido.

Se você for à página, ela diz que foi gerada automaticamente pelo interesse do usuário, o que é loucura. Quantas pessoas estão interessadas no ânus de uma menina de 15 anos?

Venho denunciando isso há anos – eu estava checando meu e-mail, e a primeira prova que tenho é um relato de 2015. Eu reportei isso por todos os motivos para tentar removê-la, mesmo por coisas que não violava. Eu só esperava que alguém se perguntasse por que a página estava sendo denunciada tantas vezes e, pensasse, “deixe-me ver”. Mas isso não aconteceu. Recebi apenas três rejeições para todos as solicitações que fiz para excluí-la.

O Reddit foi útil?

Eu realmente não esperava que alguém fosse dizer alguma coisa, ou talvez algumas pessoas dissessem: ‘não há nada que você possa fazer, a internet é assim mesmo, supere’. Mas agora isso recebeu muito mais atenção do que eu pensava, e há muitos bons conselhos. Não quero fazer nada antes de pensar sobre, porque tudo aconteceu ao mesmo tempo. Além disso, eu venho denunciando isso há anos, então sinto que o Facebook deveria ter feito algo na época e talvez eles devessem monitorar o site um pouco melhor.

Quero dizer, agora já não dou tanta importância, porque as pessoas me enviaram um link, perguntando se eu era a mesma garota da página. Dei uma olhada na página dela, e é assédio puro. É pior que o meu. Seu rosto está editado com Photoshop e há várias publicações falando besteiras sobre ela – também é de 2012.

Uma pessoa me enviou um link para a página e perguntou se meu nome era Samantha.

Isso deixou você preocupada em postar em primeiro lugar? Que pessoas pudessem tentar rastrear você até o local da página?

Eu não moro mais nesse local, especificamente, então não tenho medo disso.

Você tinha 15 anos quando isso foi publicado. Como isso afetou sua vida adulta?

Eu não sei. Tenho certeza que sim, já que é a primeira coisa que aparece no Google quando você pesquisa meu nome, e as empresas realmente pesquisam as pessoas hoje em dia. Tenho certeza de que isso teve um impacto. Não faz nenhum sentido esconder mais, uma vez que já aparece no Google há oito anos. Se alguém viu, não disse nada, possivelmente porque não querem me estressar com isso.

Como você descobriu isso pela primeira vez?

Eu nunca vi um post sobre meu ânus antes [risos], nunca vi nada que levasse a isso! Eu pensei que alguém tivesse feito isso para mexer comigo, mas depois vi que foi gerado pelo Facebook. Assim que vi a página, eu denunciei [em 2015] e contei a um dos meus amigos o que aconteceu.

Seus amigos e familiares sabem disso?

Eu contei ao meu namorado quando começamos a namorar. Eu fiquei tipo, ‘isso é tão vergonhoso, mas isso existe, e eu não quero que você encontre’. E então eu disse às minhas irmãs, e quando vi a reação delas, achei que poderia tentar ajudar as pessoas.

Ficou tão fora de controle e também não é minha culpa. Portanto, não posso ficar com tanta vergonha disso e espero que isso possa mudar. Eu tenho escutado podcasts sobre pessoas que divulgam pornografia de vingança, e…é tão ruim fazer as pessoas passarem por esse tipo de coisa. Portanto, se o Facebook puder prestar atenção a algo tão pequeno sem colocar as pessoas em risco, então espero que tenha ajudado.

***

Depois que Jespersen postou no r/legaladvice, uma pessoa que alegava ser um representante do suporte do Facebook apareceu em sua caixa de entrada pedindo o link para a página, embora não oferecesse credenciais. Em vez disso, ela publicou uma nota ao Facebook em seu blog pessoal.

“Facebook, passei oito anos torcendo para que nenhum empregador encontrasse esta página que tentei desesperadamente excluir”, escreveu ela. “Cansei de pedir e agora estou exigindo. Preste mais atenção à sua plataforma. Não gere automaticamente a localização das genitais de CRIANÇAS. Mark, pare de assar sua carne por cinco minutos e trate as pessoas que o mantêm rico com mais cuidado”.