O Facebook anunciou na quarta-feira (19) uma repressão a uma série de comunidades extremistas em suas redes sociais, incluindo a cada vez mais popular QAnon.

A companhia disse em um comunicado que sua nova “expansão de políticas” se aplica a atividades em suas plataformas “ligadas a grupos anarquistas offline que apoiam atos violentos em meio a protestos, organizações milicianas sediadas nos EUA e QAnon”. Até agora, diz a empresa, a mudança de política resultou na proibição de milhares de páginas do Instagram e grupos do Facebook.

Páginas e grupos do Facebook e páginas do Instagram nos quais os membros “discutem violência” serão removidos, de acordo com a nova e aparentemente ampla política. Além disso, as páginas associadas a esses grupos serão proibidas de veicular anúncios, vender mercadorias e usar ferramentas de arrecadação de fundos nas plataformas — coisas que, de forma alarmante, eram aparentemente permitidas até o início da semana.

A empresa diz que em breve classificará o conteúdo desses grupos em uma posição inferior no Feed de Notícias para limitar seu alcance e reduzir sua visibilidade em pesquisas no Facebook e Instagram.

“Como resultado de algumas das ações que já realizamos, removemos mais de 790 grupos, 100 páginas e 1.500 anúncios vinculados ao QAnon do Facebook, bloqueamos mais de 300 hashtags no Facebook e Instagram e, adicionalmente, impusemos restrições a mais de 1.950 Grupos e 440 páginas no Facebook e mais de 10.000 contas no Instagram ”, disse o Facebook, embora não tenha entrado em detalhes sobre quais são essas restrições.

O texto acrescentou: “Para organizações de milícia e aqueles que encorajam tumultos, incluindo alguns que podem se identificar como Antifa, removemos inicialmente mais de 980 grupos, 520 páginas e 160 anúncios do Facebook. Também restringimos mais de 1.400 hashtags relacionadas a esses grupos e organizações no Instagram. ”

Para ser claro: as pessoas que foram descobertas por terem instigado a violência em protestos nos EUA são em grande parte de milícias de extrema-direita, não pessoas que se identificam como antifascistas, mas o Facebook preferiu banir ambos os lados.

O QAnon, para quem têm a felicidade de não saber o que é, é um amontoado de teorias da conspiração de extrema direita em torno da ideia de que o “estado profundo” está perseguindo o presidente Donald Trump e seus apoiadores — um enredo fantástico que alega as elites liberais, de Hollywood e vários agentes do governo estão envolvidos em pedofilia, rituais satânicos, canibalismo e outras atividades estranhas. O movimento decorre de “previsões” obscuras postadas no 4Chan, 8chan e 8kun por uma figura ou figuras misteriosas — chamadas apenas de “Q” — que afirmam ter acesso a informações governamentais de alto nível.

Tudo isso seria fácil de ignorar se ficasse apenas nas ideias, em um campo em que tal retórica é normal, ao invés de um fluxo cerebral que desde então infectou seguidores que estariam envolvidos em um sequestro e um assassinato. Além disso, o grupo conta com mais de uma dúzia de candidatos a cargos políticos nos EUA entre suas fileiras.

O Facebook e o Instagram se tornaram criadouros para a QAnon nos últimos dois anos, com cerca de 4,5 milhões de pessoas ingressando em grupos relacionados ao assunto nas redes sociais antes de a repressão ter começado no início deste mês. O Facebook também supostamente baniu mais de 100 grupos associados ao movimento “boogaloo” de extrema-direita em abril e outras centenas em junho — “boogaloo” é um jargão interno para uma segunda Guerra Civil nos EUA, algo que seus membros são a favor de instigar.

Então, essa repressão do Facebook vai funcionar? Até mesmo a empresa admite que não — pelo menos não por completo. Um porta-voz disse à NBC News que sabe que esses grupos vão tentar fugir da fiscalização. “Não achamos que estamos apertando um botão e isso deixará de ser um problema na semana que vem”, disse. Iniciativas semelhantes contra a desinformação relacionada à saúde, aliás, têm falhado, de acordo com um estudo recente.

Essas tentativas de moderação — lentas e insuficientes — passaram de ineficazes a essencialmente condenadas menos de quatro horas depois do anúncio do Facebook.

O presidente dos EUA, Donald Trump, deu crédito à QAnon em uma coletiva de imprensa na Casa Branca, dizendo que não “sabe muito sobre o movimento”, mas sabe que eles “amam nosso país” e “supostamente gostam de mim”.