Se você esteve pelo menos semiconsciente nos últimos dois anos, sabe que as redes sociais podem causar caos em uma democracia. O Facebook está, enfim, admitindo que faz parte do problema. O site também quer que você acredite em um futuro imaginário, um amanhã hipotético em que Mark Zuckerberg descobre como evitar que sua rede social possibilite ciberguerras e genocídio, mas eles não conseguem explicar como vão chegar lá.

O Facebook publicou o primeiro de uma série de posts de blog sobre redes sociais e democracia. Mais especificamente, a empresa está tentando destacar maneiras como plataformas de redes sociais, como o próprio Facebook, podem não ser só benéficas, mas também prejudiciais a instituições democráticas e basicamente qualquer sociedade livre. Você provavelmente já conhece os principais argumentos que compõem o ponto geral. Sites como o Facebook promovem viés de confirmação, encorajam câmaras de eco, espalham informações falsas e possibilitam que agentes de governo maliciosos interfiram na política de outras nações.

Todas essas coisas são ruins para a democracia. Ao apresentar essa série, a diretora de divulgação política e governamental globais do Facebook, Katie Harbath, admite, sem rodeios, que houve “interferência estrangeira que o Facebook deveria ter sido mais rápido para identificar, passando pelo crescimento das ‘fake news‘ e das câmaras de eco” nas eleições norte-americanas de 2016. Esse sentimento contradiz levemente o que Zuckerberg vem dizendo há um ano. Em resposta à alegação de Donald Trump de que o Facebook era “anti-Trump”, Zuckerberg admitiu em setembro passado que não deveria ter sido tão desdenhoso em relação às alegações de notícias falsas. Ainda assim, o fundador do Facebook manteve a posição de que o papel do Facebook na eleição foi mais positivo do que negativo.

Essa série de blog, aparentemente ligada ao primeiro aniversário da eleição de Donald Trump, é só levemente mais cética. Os primeiros dois posts na série vêm do gerente de produtos do Facebook, Samidh Chakrabarti, e do professor Cass Sunstein, de Harvard, ambos com visões bem otimistas quanto ao futuro das redes sociais e da democracia. Não está claro quando o Facebook vai publicar os próximos dois posts, mas eles serão escritos por Toomas Hendrik Ilves, ex-presidente da Estônia, e Ariadne Vrome, professora da Universidade de Sydney, na Austrália.

Chakrabarti, em sua defesa, é rápido em identificar os problemas graves que o Facebook e outros sites estão causando a democracias em todo o mundo. Entretanto, a parte mais importante de seu post é sobre como o Facebook também é bom para a política, às vezes. Dá uma olhada:

Durante a última eleição dos EUA, criamos o Voting Plan, uma ferramenta para prever o resultado da sua urna local e discuti-lo com amigos. Milhões de pessoas fizeram isso. Em média, isso aumentou o conhecimento das pessoas em relação às suas urnas em mais de 6%. Isso equivale a aumentar o conhecimento médio das urnas de toda a comunidade norte-americana no Facebook em alguns níveis de classificação.

O que “aumentar o conhecidomento médio das urnas de toda a comunidade norte-americana no Facebook em alguns níveis de classificação” sequer significa? Talvez nunca saibamos. E certamente soa melhor do que relatos de que o Facebook está alimentando o genocídio em Myanman ao permitir que um líder déspota espalhe discurso de ódio. Aliás, ninguém mencionou a situação no Myanmar na série do Facebook sobre redes sociais e democracia. Trump e a Rússia parecem ser o foco.

Sustein, segundo a publicar na série, é um pouco mais crítico em relação ao Facebook. O professor da Escola de Direito de Harvard já começa mirando a perigosa promessa do Feed de Notícias de “te dar uma experiência mais personalizada”. Sustein afirma: “Do ponto de vista da democracia, isso é um pesadelo”. Se as pessoas só veem posts com que concordam, elas se tornam perigosamente impregnadas por esse ponto de vista. Isso leva a um aumento na polarização e no extremismo. É só olhar para a reencarnação da supremacia branca mainstream para ver o quão assustadoras essas tendências são.

O problema é que muitas pessoas já sabem disso. Algumas, incluindo o ex-presidente do Facebook Sean Parker, têm gritado aos quatro ventos sobre o perigo que o Facebook, em seu estado atual, apresenta à sociedade. Então, é preciso se perguntar o que exatamente a rede social espera conquistar ao permitir que acadêmicos famosos e seus próprios funcionários falem sobre Facebook e democracia. Parece uma maneira de resolver o problema sem de fato resolvê-lo. Sustein, que está promovendo um novo livro sobre redes sociais e democracia, aliás, meio que acena, no fim de seu post, para uma ideia de fazer algo sem fazer nada. Lê-se:

Assim como com automóveis, com as redes sociais: estamos muito melhor com elas do que (estaríamos) sem elas, mas julgamentos agregados são um obstáculo à melhoria. Portanto, John Dewey fica com a última palavra: “Eu não minimizaria o avanço na substituição de métodos de discussão e conferência pelo método da regra arbitrária. Mas o melhor é, muito frequentemente, o inimigo do ainda melhor”.

A citação de Dewey é ridícula, certo? É como dizer: “Ei, pelo menos estamos conversando!” Entretanto, essa comparação do automóvel é ainda mais rica do que o que o professor de Harvard traz. Automóveis certamente mudaram o curso da história, permitindo um nível de progresso tecnológico que a humanidade nunca tinha testemunhado. Eles também provocaram incontáveis guerras por causa de petróleo e levaram a uma mudança climática que ameaça devastar o planeta inteiro. Portanto, os carros, como as redes sociais, são legais. E eles também estão arruinando o mundo.

Imagem do topo: Getty