Antigamente, coisa de um ano atrás, quando postávamos alguma coisa criticando a Nokia, mais da metade das pessoas nos comentários nos xingava de alguma maneira. Fanboys da marca, acostumados a produtos inovadores, duráveis e sem defeitos, preferiam não acreditar que a fabricante finlandesa não estava mais no topo, começava a perder o bonde. Mas hoje, quando apontamos a lambança que é lançar o N900 com um ano de atraso, a um preço absurdo, no Brasil, sobram críticos. O que aconteceu com os fãs incondicionais da empresa finlandesa? Antes que nos acusem de parciais por essa e aquela marca, vamos dar a palavra a Ricky Cadden, também conhecido como "Symbian Guru", que desistiu do seu site. É comovente:

Depois da experiência com o Nokia N97, não há razão alguma para confiar que eles não vão ferrar com o N8 – e eu, pelo menos, não gastarei cerca de 500 dólares de meu próprio bolso nele. Claro, o N8 parece lindo no papel e em seus primeiros reviews – mas, pelo que eu me lembre bem, foi a mesma coisa com o N97.



A Symbian Foundation é outro grande fator na minha decisão de chutar o balde de vez e mudar para o Android. Como o Android, a Symbian Foundation se orgulha por ser uma plataforma aberta e livre – gritando, e às vezes ofensivamente exagerando, sobre como seu código é aberto para todos – apesar de ninguém realmente ligar para isso, pelo menos entre o pessoal que eu conheço. Mas a plataforma continua longe do Android em questões básicas – ser capaz de consertar vários detalhes do sistema que os usuários já relataram, ter um sistema nativo de mensagens agrupadas de SMS/MMS, um programa de mensagem instantânea integrado e um mercado de aplicativos digno, entre outros.

Para Nokia: vocês estão perdendo. Muito. Diabos, acordem. Fazer a mesma coisa repetidas vezes esperando resultados diferentes é a definição ideal de insanidade. Eu fui um grande fã da Nokia desde meu segundo celular, e eu não posso mais aguentar isso. Vocês não estão sendo competitivos como já foram no passado, e todo mundo vê isso, menos vocês. Vocês costumavam criar os melhores smartphones do mundo, as melhores câmeras, os melhores GPS do mundo – vocês perderam muito disso, e por nenhuma razão justificável. Vocês lançaram sua visão sobre a Ovi há dois anos – eu estava lá. Hoje, ela continua sendo um caos completo. Eu tenho que me logar toda santa vez que entro no site – independentemente de quantas vezes eu já tenha clicado na caixa “remember me”. Eu gastei 5 meses (e umas 3 horas durante o Nokia World 2009) tentando achar alguém que pudesse me ajudar com o Ovi Contacts na versão web – ninguém sabia quem podia resolver o problema. Vocês gastaram milhões de dólares comprando seus pedaços da Ovi – Ovi Files, Ovi Share, e uma série de outras pequenas empresas –, vocês têm orgulho do que “criaram” com elas? A maioria de seus próprios empregados (que eu conversei com) sequer usam a plataforma, então por que eu deveria usar?

Para o Symbian: se vocês parassem de berrar por aí sobre sua liberdade, vocês veriam que estão perdendo também. Os consumidores estão deixando vocês para trás e os desenvolvedores querem ficar longe. Sinceramente, eu acho que o Symbian está em melhor situação do que a Nokia nesse momento. Eu vou dar uma dica para vocês: o primeiro passo é se consolidar. Seus três maiores parceiros que fabricam celulares (Nokia, Samsung e Sony Ercisson) já têm suas próprias lojas de aplicativos – isso significa três vezes mais tempo de trabalho para seus desenvolvedores para prepararem seus apps para os consumidores. Em segundo lugar, vocês precisam encontrar outra empresa para fazer seus modelos mais importantes – a Nokia tem frequentemente e consistentemente feito tudo errado para vocês. A Nokia perdeu alguns trabalhadores para a HTC – tentem descobrir se eles não querem fabricar um modelo carro-chefe para vocês. O melhor sistema operacional do mundo pode ainda assim ser manco por conta de um hardware ruim.

Não é só o Symbian Guru que fecha. Como disse o Rodrigo Toledo (o próprio que escrevia muito mais sobre a marca), uns bons 50 blogs que se dedicavam ao sistema operacional dos aparelhos da Nokia encerraram suas atividades. Mudaram de time, foram para o Android ou Apple. São pessoas atrás da melhor experiência com celulares, que não vem mais da Finlândia.

A Nokia perde blogueiros e perde fãs. Durante o lançamento brasileiro do N900, essa semana, depois de uma apresentação nada empolgante, na parte reservada a perguntas me pareceu que ninguém quis levantar polêmicas. Foi um momento meio embaraçoso, trataram a Nokia como café-com-leite. Eu pensei em várias. "Como vocês lançam um celular com um sistema que já vai ser aposentado?" "Quando vão dar jeito na Ovi Store?" "Não é feio lançar um negócio no Brasil em português de Portugal apenas?" "Por que demorou tanto?" "Tudo que você nos mostrou já existe em outros celulares. O que há de novo?" "O Milestone é mais barato e um sucesso mundial. O que leva vocês a acreditarem que alguém vai preferir este ao seu aparelho na hora da compra?"

No fim, fiquei em silêncio. Blogueiros próximos, que ficaram esperando a minha pergunta (sempre pergunto, normalmente é uma coisa incômoda), reconheceram que seria meio como chutar cachorro morto. Reconheci que, por minha parte e de outros, há uma imensa boa vontade com a marca, essa é a verdade. Todos nós tivemos ou temos aparelhos bons (E71, N95, o próprio N900), reconhecemos todas as inovações, gostamos da postura da empresa com a imprensa, a atenção com o Brasil (meio em baixa recentemente, é verdade). Por que bater nela?

Há alguns meses, o Gizmodo fez uma série chamada "We miss you, Sony". Muita gente entendeu como uma briga pessoal com a marca japonesa. Bobagem. O real motivador era outro: a Sony sempre foi inovadora e sinônimo de qualidade, em música, TVs, videogames, o que fosse. E começou a virar só mais uma grande empresa de eletroeletrônicos. Investigamos os motivos, sucessos e fracassos. Queríamos a grande Sony de volta.

Hoje, como o Symbian Guru, nós sentimos falta de você, Nokia. E mostraremos isso nas próximas semanas.