Nesta edição do Oscar, 36 filmes foram indicados em suas várias categorias. E, enquanto escrevo isso, apenas dois deles não vazaram na Internet com qualidade de DVD – a maioria ainda está em exibição nos cinemas. Independentemente de você achar a pirataria um crime ou um sonho libertário, a maneira como as coisas funcionam hoje está bem clara.

Há quem não ache que esses vazamentos sejam grande coisa – afinal, cópias de filmes que são enviadas aos jurados do Oscar têm vazado há mais de uma década. E embora isso seja verdade, a extensão dos esforços da pirataria em 2014, combinada com outros vazamentos ocorridos durante o ano tornam o momento atual um divisor de águas para a pirataria.

O TorrentFreak classificou como “sem precedentes” o nível de vazamentos ano passado. A MPPA provavelmente o chamaria de “um desastre.” Grandes filmes ainda em cartaz, como o último Hobbit, já foram baixados mais de um milhão de vezes e quase todos os demais indicados ao Oscar estão disponíveis e são populares em sites de pirataria.

Obviamente, é um problema que a MPAA tenta corrigir, mas sem sucesso. Para reprimir os exibidores, a MPAA coloca marcas d’água nos filmes, uma atitude que funciona tão bem quanto outros mecanismos antipirataria (é como tentar partir ao meio o Mar Vermelho usando uma toalha de rosto). Um ou outro vazamento pôde ser atribuído ao responsável, mas os piratas estão contra-atacando: o vazamento d’O Hobbit foi tecnologicamente higienizado pelo grupo responsável por compartilhá-lo na Internet.

Em uma escala mais ampla, mirar nos sites que disseminam conteúdo pirata também não está funcionando. Você deve ter notado que a festa dos vazamentos esse ano começou meses depois que o The Pirate Bay foi despejado da web. Grandes processos judiciais não funcionam. Cartas assustadoras aos piratas, muito menos. Na realidade, só tem uma coisa eficaz e que reduz de fato a pirataria: mudar o sistema quebrado e antiquado que os cinemas usam para distribuir conteúdo.

Se você precisa de mais evidência de que o sistema atual é uma causa perdida, o indicado ao Oscar Leviathan funciona como um ótimo exemplo. Depois que o filme vazou junto com os demais, a equipe por trás de Leviathan decidiu solicitar doações. Afinal, estudos demonstram que os piratas não ligam em pagar por filmes – na verdade, eles gastam mais do que o cidadão médio que só consome conteúdo legalizado.

Serviços de streaming por assinatura (basicamente, Netflix) parecem a solução mais óbvia. Consistentemente, quando serviços como Netflix e Spotify, ou seja, legais, simples e acessíveis financeiramente são introduzidos em novos mercados, a pirataria cai dramaticamente. Os filmes pirateados na Noruega caíram pela metade depois que o Netflix chegou. Seria preciso um punhado de cartas e processos judiciais para se alcançar o mesmo efeito.

Isso não significa, é claro, que o Netflix seja o Santo Graal da TV e tudo estaria melhor só com ela. Serviços de streaming como o Netflix e o Spotify trazem de carona seus próprios problemas: a compensação, para citar um, e a introdução de um tipo totalmente diferente de pirataria, para ficarmos com outro.

Qualquer modelo que optarmos, porém, o que fica claro é que mudanças são necessárias. O velho ciclo cinema, DVD e streaming (e a liberação geográfica escalonada) claramente não ajuda a ninguém, coisa que até o produtor de Leviathan, Alexander Rodnyansky concorda. Não assistimos mais a filmes como antigamente – nós os vemos o quanto antes, da forma mais fácil possível. A menos que os estúdios queiram transformar os sites de torrent em seu principal canal de distribuição (e, hey, por que não?), eles precisarão retrabalhar toda essa questão. De preferência, antes do início da nova temporada de Game of Thrones.