Já faz quase um ano desde que o voo MH370 da Malaysia Airlines desapareceu, e investigadores têm pela primeira vez uma grande pista para encontrar os destroços do acidente. Uma peça da asa da aeronave — o flaperon, para ser mais específico — foi encontrada na Ilha da Reunião, a leste de Madagascar, a cerca de 4.800 km do local onde os investigadores faziam buscas. Mas ainda estamos longe de muitas respostas que procuramos.

Até então, alguns sinais positivos mostram que a peça encontrada pode ser do avião. O flaperon é a parte móvel da asa: ele é usado na decolagem e no pouso, além de permitir que a aeronave continue voando mesmo em baixa velocidade, conforme explica O Globo.

E ele parece ser do modelo certo: uma aeronave Boeing 777. Nenhum outro 777 caiu no oceano antes, então é provável que o flaperon não seja de nenhum outro avião — em teoria, pelo menos.

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Investigadores estão tomando todas as cautelas para analisar a peça. Ela está no oceano há um bom tempo e, francamente, é tão improvável que ele tenha viajado tão longe que é preciso ter certeza.

Uma reportagem do Wall Street Journal diz que os investigadores estão sob intensa pressão para confirmar que o detrito é realmente do voo MH370, o que não é surpresa. Famílias em luto querem encerrar esta história, e oficiais da companhia aérea e especialistas em segurança querem ter certeza de que isso nunca se repita.

Mas a jornada para identificar a peça acabou de começar, e pode levar um bom tempo para confirmar se ela fez mesmo parte do avião desaparecido. Os investigadores não querem cometer um erro.

O flaperon pode ter viajado tão longe assim?

A Ilha da Reunião é bastante remota. O pequeno espaço de terra fica a cerca de 800 km ao sudeste de Madagascar — quase que do lado oposto do Oceano Índico onde os investigadores faziam as buscas. Então, assumindo que o flaperon faz mesmo parte do voo MH370, por que ele foi encontrado tão longe do local de buscas?

Para recapitular: no ano passado, depois de focar em uma seção do sul do Oceano Índico, responsáveis australianos e americanos terceirizaram a busca para a Fugro, uma companhia de exploração de óleo e gás da Holanda. A busca sofreu atrasos, dada a dificuldade técnica de buscar por uma agulha no palheiro.

A companhia comprou um sonar para mapear o fundo do oceano. Além disso, navios adicionais trouxeram um outro sonar chamado towfish, içado a 100 metros sobre o fundo do mar; e veículos submarinos autônomos (AUV), que pode viajar ainda mais fundo, também participaram das investigações.

As buscas, entretanto, têm sido alvo de duras críticas pela má administração e, por grande parte dela, não temos ouvido muitas novidades. A busca física não encontrou nada.

Conforme a quieta busca física falhava, entidades públicas fizeram uso de matemática e ciência para determinar outras possibilidades. A jornalista Christine Negroni, que cobre aviação, aponta em seu blog como o trabalho de um satélite britânico de uma empresa chamada Inmarsat ajudou nas buscas.

Mostramos anteriormente algumas das descobertas feitas pela Inmarsat, que observou a localização do último sinal do avião capturado pelos satélites. Segundo Negroni, a análise da empresa levou em conta o efeito Doppler: o movimento do avião pode ter mudado a frequência do sinal e, desta forma, o cálculo da localização da aeronave, conforme explica Chris Mclaughlin, vice-presidente sênior da Inmarsat. “Isso nunca foi feito antes; nossos engenheiros trouxeram essa contribuição única”.

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Enquanto os responsáveis pela busca física não revelavam grande parte das informações encontradas, a Inmarsat tornou público os detalhes dos próprios dados encontrados, estimulando uma busca em conjunto, considerando mais lugares onde as partes do avião podem ter caído.

Um interesse em particular foi a análise de matemáticos que usaram o Teorema de Bayes. O teorema analisa o grau que novas informações — como dados sobre clima e correntes oceânicas — podem mudar o resultado de modelos estatísticos. Ele já foi usado anteriormente para encontrar outros aviões perdidos.

A teoria da Inmarsat é que o avião foi rastreado muito mais a oeste do Oceano Índico do que os investigadores acreditavam, e essa informação sugere que esta era mesmo uma possibilidade.

Em outras palavras, de acordo com muitos e muitos nerds não-oficiais, o flaperon descoberto pode ser, sim, do voo MH370.

Como eles vão saber se a peça é do voo MH370?

Depois de toda a busca, a noção de que parte de um avião perdido foi encontrado em uma ilha parece uma sorte incalculável. A próxima parte do mistério parece incrivelmente simples por comparação, já que os investigadores precisam responder uma única e simples questão: ele faz mesmo parte de um Boeing 777? Ela é simples porque nunca antes na história um avião Boeing 777 se perdeu no oceano.

Já existem sinais promissores. O flaperon do 777, que, de novo, é uma parte móvel da traseira da asa, tem um formato particular e único quando comparado a todos os flaperons de outros Boeings, então uma simples comparação das dimensões mostrará que ele é parte de um 777. Mas tenha em mente que este pedaço viajou o oceano por mais de um ano e meio, então uma olhada rápida não será o suficiente.

Alguns outros detalhes de fotos que fazem o especialista em segurança aérea David Soucie acreditar que a peça faz parte de um Boeing 777, conforme ele disse à CNN:

Existe ainda um selo no topo da parte que “é consistente com o que eu veria na parte interna de um flaperon do 777”, ele diz, e os crustáceos presos na peça são consistentes com a “atividade parasita” que ocorreria por estar debaixo d’água por tanto tempo.

Entretanto, a parte parece estar coberta de tinta branca, que é contrária a outras observações de Soucie do 777, cujas demais partes estariam revestidas em cromato de zinco e não tinta. Soucie afirma, entretanto, que essa parte pode ter sido revestida por algo no oceano.

Olhando mais de perto, investigadores procurarão por números de série inscritos nas partes do flaperon, da mesma forma que números de série são impressos em dispositivos e aparelhos eletrônicos. Estes números confirmariam não apenas de qual tipo de avião o flaperon pertence, mas também para qual aeronave ele foi feito especificamente. Porém, encontrar estes números pode se provar um trabalho difícil, já que a oxidação de 500 dias no mar pode tê-los apagado.

A Wired mostrou que outro especialista em segurança aérea, Xavier Tytelman, afirma ter feito uma combinação perfeita baseado no formato da peça, além também de dizer que encontrou o que ele acha ser parte do número de série: “BB670”. Será?

Se o formato e o número de série do flaperon forem inconclusivos, existem outras formas de determinar se a peça fez parte do voo MH370. Inclusive, a forma em que ela se decompôs durante os 500 dias no oceano podem ser uma grande pista, especialmente para determinar quando a peça se separou do avião, algo que metalúrgicos poderão ver com um microscópio eletrônico, de acordo com o Wall Street Journal:

“A imersão no mar e a temperatura da água definitivamente têm algum impacto” nas condições do detrito, de acordo com Robert MacIntosh, ex-oficial internacional da National Transportation Safety Board (NTSB), organização responsável por investigar acidentes de transporte nos EUA. A oxidação ou a corrosão também podem ocorrer dependendo do tipo de alumínio, ele diz, apesar de que metalúrgicos saberiam lidar com estes tipos de condições.”

Talvez leve semanas, mas conforme sumariza o Flight Club, uma vez determinada se a parte fez mesmo parte do 777, “todas as indicações serão que a peça é parte dos detritos do avião perdido”.

E o que acontece depois?

O governo da Malásia despachou uma equipe à Ilha da Reunião para examinar o flaperon e outros detritos encontrados na área. A peça foi enviada a um centro de tecnologia aeronáutica em Toulouse, na França, que investiga quedas de aviões. A peça chegou à França no sábado (1).

Mas para adicionar à confusão, uma reviravolta: uma mala foi encontrada próxima do local onde o flaperon foi encontrado. É uma peça pequena comparada ao gigante pedaço do avião, mas não deixa de oferecer aos investigadores e aos familiares dos desaparecidos uma chance de finalmente descobrir o que realmente aconteceu com o avião.

Vamos torcer para que essa pequena pista comece a trazer grandes respostas que irão revelar a história por completo, peça por peça.

Foto de capa: AP Photo/Lucas Marie