Algumas das questões mais simples da vida às vezes são varridas para debaixo do tapete por um bom tempo – afinal, os fenômenos mais comuns muitas vezes exigem um monte de dados para serem entendidos. Por exemplo, o formato de um ovo. Você provavelmente pensou que os ovos têm esse formato achatado para que eles não saiam rolando do ninho ou algo assim. Mas uma grande análise mostra o verdadeiro motivo pelo qual ovos possuem seus formatos característicos e eles são bem surpreendentes.

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Um novo estudo de um time internacional de pesquisadores analisou uma coleção de praticamente 50 mil ovos, representando 1400 espécies de aves. A análise parece refutar as ideias mais comuns sobre o motivo do formato do ovos, que geralmente colocam o número de ovos colocados em uma ninhada, ou a localização do ninho, como os principais fatores.

“Aves voadoras fortes tendem a pôr ovos que são mais assimétricos e mais elípticos” disse a autora Mary Stoddard de Princeton, ao Gizmodo. “Ao encontrar essa forte correlação, podemos dizer que, na escala global, o formato do ovo seria melhor previsto pela habilidade de voar do que, digamos, o tipo de ninho ou localização”.

Se isso não parece uma grande coisa para você, o estudo surpreendeu todos os pesquisadores que eu conversei, e recebeu um lugar de destaque na revista Science. Chegar nessa conclusão demandou muito trabalho.

Stoddard e seu time começaram ao criar duas métricas para o formato do evo, incluindo a elipticidade (se o ovo tinha um formato mais parecido com um círculo ou mais oval) e assimetria (se o ovo era simétrico, ou tinha um lado mais pontiagudo). Eles escreveram todo a coletânea de análise de dados (que se chama Eggxtractor) para analisar a imensa coleção de ovos do Museum of Vertebrate Zoology na Universidade da Califórnia em Berkeley.

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Isso os levou a criar a hipótese de que a anatomia interna das aves que as permitem voar bem também influencia o formato dos ovos.

A habilidade de voar, como o time de Stoddard classificou, é calculada por uma métrica chamada índice de mão-asa, que é a medida para classificar o quão pontiaguda é a asa. Isso significa que algumas aves que planam, como corujas, podem conseguir voar bastante, mas que possuem têm ovos redondos, são classificadas com uma habilidade de vôo geral menor.

Mas Stoddard foi bem cuidadosa ao apontar as limitações desse estudo:, sendo a principal delas que a correlação onipresente não implica causalidade. Claro, as descobertas são realmente interessantes, e pesquisadores agora possuem um hipótese bem fundamentada sobre o formato dos ovos para levar essa pesquisa adiante. Mas “isso é uma correlação”, disse ela. “No futuro, precisaremos trabalhar para entender como os mecanismos subjacentes podem realmente afetar na formação do ovo, como uma forma de mudança no tipo de corpo da ave”.

Embora esse estudo tenha definido algumas hipóteses em escala global, outros pesquisadores foram cautelosos ao apontar que talvez existam padrões na evolução do formato dos ovos que funcionem em uma escala mais granular. “Ao levar essa questão para todos as aves de uma vez só, você acaba generalizando uma resposta que não é necessariamente verdadeira para todos os casos individuais”, disse Richard Prum, professor de ornitologia na Universidade de Yale. Mas ele me diz para não levar essa afirmação como uma crítica – ele também disse que o estudo era “muito superior às publicações anteriores que abordavam o formato dos ovos das aves”, que antes era considerada como uma “ciência chata”, relegada aos “periódicos mais obscuros”.

Prum e outros cientistas de outros campos foram animados com a direção que esse novo estudo pode levar a pesquisa no futuro. “Esse pessoal abriu toda uma nova área de pesquisa”, disse Prum. Ele gostaria de ver o time trabalhar nas cores do ovo no próximo estudo. E Martin Sander, um paleontologista da Universidade de Bonn, na Alemanha, disse ao Gizmodo que esse trabalho poderia nos ajudar a entender o formato dos ovos de dinossauros também. Os dinossauros são ancestrais das aves, afinal, e estavam evoluindo coisas como a maneira de andar, reproduzir ou voar. “Precisamos encontrar mais fósseis de ovos. É isso que está faltando [nesse estudo]”.

A parte mais animadora desse novo trabalho talvez seja a quantidade de novas ideias interessantes que surgiram a partir de uma análise em coleção de museu, além de sabermos que ainda precisamos aprender muito sobre ovos. Stoddard também está animada com a ideia de analisar ovos de dinossauros. Ela disse: “gostaríamos de entender melhor como o formato dos ovos mudaram durante a transação dos dinossauros para aves”.

[Science]

Imagens: Mary Stoddard