Na semana passada, o Departamento de Recursos Naturais de Wisconsin, nos Estados Unidos, autorizou a fabricante taiwanesa Foxconn a captar 7 milhões de galões (ou mais de 26 milhões de litros) de água por dia do Lago Michigan, apesar de protestos de grupos conservacionistas.

Foxconn teria usado trabalho ilegal de estudantes na fabricação dos iPhone X
Funcionário da Foxconn roubou US$ 1,5 milhão em iPhones até ser descoberto

Essa água captada do rio será usada para produzir telas LCD em uma fábrica em que a companhia está estabelecendo em Mount Pleasant, Wisconsin. A unidade teve um investimento de US$ 10 bilhões e o terreno tem mais de 2.000 metros quadrados.

Quase 2,7 milhões de galões de água (cerca de 10 milhões de litros) — cerca de 39% da captação diária da fábrica — vai ser perdida no processo para fazer evaporação. O restante será retratado e jogado novamente na bacia do lago.

O departamento disse em um comunicado que o pedido “representará apenas 0,07%a mais de superfície da água do Lago Michigan”. Para ambientalistas da região, o problema não é tanto o uso, mas o precedente que será estabelecido para outras utilidades da água do rio.

“Se permitirmos que isso aconteça, vai acontecer por toda a bacia, com outros estados e então depois ocorrerão problemas de abastecimento”, disse Jennifer Giegerich, diretora de assuntos governamentais da Wisconsin League of Conservation Voters, ao alertar sobre o processo durante uma audiência pública sobre o desvio, conforme informa o Wisconsin Gazette.

O Lago Michigan faz parte dos Grandes Lagos, que contém um quinto da água doce do mundo. Historicamente, a água tem sido usada para fins públicos — para abastecer cidades e forneccer água potável.

O recurso é protegido pelo Great Lakes Compact, um acordo feito em 2008 com o objetivo de preservar a bacia dos Grandes Lagos. O acordo diz: “em geral, não são permitidos novos desvios de água da bacia, mas exceções limitadas podem ser autoridades pela comunidade próxima à bacia quando padrões rigorosos forem seguidos.” Para fazer tal exceção, seria necessário pedir permissão de todos os oito governadores de estados ao redor dos Grandes Lagos.

No caso da fábrica da Foxconn, essa permissão não foi obtida graças a algumas sutilezas das regras. A fábrica da Foxconn vai ficar em Mount Pleasant, uma pequena vila fora da bacia dos Grandes Lagos.

As comunidades da região precisam cumprir certos requerimentos para ter acesso à agua do lago, então a solicitação para desvio da água para a fábrica foi feita por Racine, uma cidade nas imediações da bacia.

O pedido da cidade de Racine foi permitido, pois a água é útil para uma pequena porcentagem de residentes de Mount Pleasant. Isso permitiu que o departamento dissesse que o desvio fosse qualificado como “propósitos públicos de fornecimento de água” e que não seria necessário passar pelo processo rigoroso aplicado em outros casos. O departamento reconheceu que o desvio iria parcialmente incluir a fábrica da Foxconn.

Kerry Schumann, diretor executivo da Wisconsin League of Conservation Voters, descreveu o plano de desvio como uma “tentativa velada de degradas o Great Lakes Compact, um dos grandes feitos conservacionistas em uma geração.”

O CIC (Compact Implementation Coalition), uma organização dedicada a assegurar que o Great Lakes Compact está sendo seguido, expressou desânimo com a decisão do departamento de Wisconsin. “O CIC considera uma pena que o DNR esteja ignorando não só o espírito, a intenção e a linguagem clara do acordo, mas também a voz de milhares de cidadãos que vivem em Wisconsin”, informou o grupo em comunicado.

Grupos conservacionistas estão planejando desafiar a decisão e de responsabilizar o governo e a Foxconn. Antes dessa questão da água, o Departamento de Recursos Naturais concedeu uma permissão para a Foxconn de emitir poluentes no ar.

A fábrica ainda não começou a ser feita, embora a companhia já tenha o terreno onde ela ficará. Scott Walker, o governador republicano responsável por trazer a fábrica ao conceder US$ 3 bilhões em incentivos fiscais, vai concorrer à reeleição neste ano. Não votar nele seria a opção mais prudente para quem está interessado em proteger o meio ambiente.

[MotherboardWisconsin Journal SentinelWisconsin GazetteChicago Tribune]

Imagem do topo por Getty Images