O projeto Dragonfly é um produto de busca que o Google está desenvolvendo para o mercado chinês. Ele viria com opção de censura e a possibilidade de se atrelar as buscas aos números de telefone dos usuários que as fizeram. E, como outras empreitadas recentes da empresa, a ideia tem sido fortemente questionada por seus funcionários. Nesta terça-feira (27), os empregados da gigante das buscas divulgaram uma carta pública no Medium, pedindo para que a companhia cancele o projeto.

Diferentemente do que vinha acontecendo até aqui, com as demandas dos funcionários sendo feitas internamente e vazando posteriormente para a imprensa, desta vez eles não só as tornaram públicas como assumiram o risco de assinar o documento. E cinco dos signatários são funcionários em cargos de alto escalão ou de liderança. Outros funcionários ainda devem assinar o documento e ter seus nomes adicionados à lista.

Nos últimos meses, funcionários do Google têm lutado para ter maior voz dentro da empresa, que cada vez mais tem se desgarrado de seu lema extraoficial “não seja malvado”. E eles têm conseguido algumas vitórias, exceto pelo projeto Dragonfly, que segue ativo.

O prosseguimento do desenvolvimento e da aplicação do Dragonfly, aos olhos dos funcionários, tornaria o Google “cúmplice na opressão e nos abusos de direitos humanos” e criaria precedente para que a empresa construa ferramentas semelhantemente draconianas para outras potências estrangeiras.

“Muitos de nós aceitaram empregos no Google tendo em mente os valores da companhia, incluindo sua postura anterior sobre a censura e a vigilância chinesas, e a compreensão de que o Google era uma empresa disposta a colocar seus valores acima de seus lucros”, diz a carta. “Depois de um ano de decepções, incluindo o Project Maven, o Dragonfly e o apoio do Google a abusadores, não acreditamos mais que este seja o caso. É por isso que estamos nos posicionando.”

O desconforto com as revelações, noticiadas em primeira mão pelo Gizmodo, de que a empresa estaria trabalhando lado a lado com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos em um programa de inteligência artificial para a análise de imagens de drones, conhecido como Project Maven, trouxe reação interna na companhia e o cancelamento da colaboração do Google com o projeto. Uma reportagem do New York Times sobre acordos de rescisão lucrativos que a empresa fez com funcionários de alto escalão acusados de má conduta sexual resultou em paralisações em massa coordenadas em diversos escritórios do Google pelo mundo. Embora nem todas as exigências tenham sido atendidas, essa demonstração de solidariedade trouxe um fim à prática de longa data da empresa de arbitragem forçada em casos de abuso/assédio sexual.

A exceção nessa sequência de vitórias dos funcionários — todas elas sem precedentes na indústria de tecnologia — é o projeto Dragonfly, serviço de busca que supostamente viria com censura e rastreamento de buscas dos usuários, tudo a pedido do governo chinês. Isso fez com que a Anistia Internacional alertasse para um risco de que o programa permitisse uma maior vigilância por parte das autoridades.

Neste ano, 1.400 funcionários do Google assinaram uma carta pedindo (educadamente, na época) que o projeto fosse encerrado. Outro funcionário, que pediu demissão por causa da conformidade do programa com os desejos do governo chinês, pediu que o Senado dos Estados Unidos examinasse o Dragofly.

Entramos em contato com o Google para que comentasse sobre o caso e atualizaremos a publicação se tivermos alguma resposta.

Abaixo, confira a carta pública dos funcionários do Google:

CARTA DOS FUNCIONÁRIOS DO GOOGLE:

Somos funcionários do Google e nos unimos à Anistia Internacional para pedir ao Google que cancele o projeto Dragonfly, esforço do Google para criar um mecanismo de busca censurado para o mercado chinês que permita vigilância estatal.

A liderança do Google não respondeu a funcionários que levantaram dúvidas durante meses. Organizações internacionais de direitos humanos e repórteres investigativos também soaram o alarme, enfatizando sérios problemas de direitos humanos e repetidamente pedindo ao Google para cancelar o projeto. Até agora, não houve respostas satisfatórias da liderança.

A decisão da nossa empresa vem em um momento em que o governo chinês está abertamente expandindo seus poderes de vigilância e mecanismos de controle da população. Muitos desses dependem de tecnologias avançadas e combinam atividade online, registros pessoais e monitoramento em massa para rastrear e classificar cidadãos. Reportagens já mostram quem arca com os custos, incluindo os uigures, os defensores de direitos das mulheres e estudantes. Dar ao governo chinês acesso imediato aos dados de usuários, conforme exigido pela legislação chinesa, tornaria o Google cúmplice na opressão e nos abusos de direitos humanos.

O Dragonfly também permitiria a censura e a desinformação dirigida pelo governo e desestabilizaria a verdade básica sobre a qual a deliberação popular e a dissidência se baseiam. Dada a supressão, por parte do governo chinês, de vozes dissidentes, tais controles provavelmente seriam usados para silenciar pessoas marginalizadas e favorecer informações que promovam interesses do governo.

Recusamo-nos a construir tecnologias que ajudem os poderosos a oprimir os vulneráveis, onde quer que estejam. O governo chinês certamente não está sozinho em sua disposição para sufocar a liberdade de expressão e usar a vigilância para reprimir a dissidência. O Dragonfly na China estabeleceria um precedente perigoso, que tornaria mais difícil para o Google negar a outros países concessões semelhantes.

Muitos de nós aceitaram emprego no Google tendo em mente os valores da companhia, incluindo sua postura anterior sobre a censura e a vigilância chinesas, e a compreensão de que o Google era uma empresa disposta a colocar seus valores acima de seus lucros. Depois de um ano de decepções, incluindo o Project Maven, o Dragonfly e o apoio do Google a abusadores, não acreditamos mais que este seja o caso. É por isso que estamos nos posicionando.

Juntamo-nos à Anistia Internacional para pedir que o Dragonfly seja cancelado. Também exigimos que a liderança se comprometa com a transparência, a comunicação clara e com uma responsabilidade verdadeira. Merecemos saber o que estamos construindo e merecemos ter voz nessas decisões significativas.

Assinaram*

David H. Alexander, engenheiro de software sênior

Amr Gaber, engenheiro de software

Colin McMillen, engenheiro de software

Steven Monacelli, gerente de programa

Matthew Siegler, engenheiro de software sênior

Joëlle Skaf, engenheira de software

Zora Tung, engenheira de software

Meredith Whittaker, chefe do Google Open Research

Jean Zheng, gerente de tecnologia sênior