Para a grande maioria dos seres vivos, sexo não é algo particularmente sexy. É fundamentalmente incômodo, perigoso e exaustivo (apenas pergunte aos insetos que têm partes dos seus corpos perfuradas ou arrancadas enquanto cruzam).

Por isso, não deva ser surpresa que pelo menos uma espécie de fungo optou por não fazer mais sexo, de acordo com uma nova pesquisa publicada na Genetics. Pelo que parece, a espécie tomou essa decisão pois se tornou perfeitamente compatível com outra coisa: os nossos pés.

Pesquisadores conduziram uma pesquisa global sobre a Trichophyton rubrum, a fonte mais comum de infecções por fungos na pele humana. É ela quem causa micose e pé de atleta. Os cientistas coletaram mais de cem amostras do fungo de pessoas em sete países, incluindo os EUA, Alemanha e o Vietnã, e analisaram sua estrutura genética.

Apenas uma das amostras não pertencia a um tipo de cruzamento singular visto entre espécies de fungos que colonizam a pele. Por mais que os pesquisadores tentassem, eles não conseguiram fazer estes fungos cruzar com uma população de T. rubrum que pertencesse ao outro tipo. Uma análise genética posterior descobriu que qualquer amostra era 99,97% geneticamente idêntica a outra.

Isso indica, escreveram os pesquisadores, que a “T. rubrum é altamente clonal e pode ser primariamente assexuada ou pelo menos se reproduz sexualmente infrequentemente”.

Assexualidade

Muitas espécies de fungos podem se reproduzir tanto sexualmente quanto assexualmente, mas os pesquisadores acreditam que a T. rubrum se tornou exclusivamente celibatária há pouco tempo. A “notória” semelhança da espécie entre diferentes populações de pessoas sugere que ela se tornou geneticamente estagnante assim que estabeleceu os seres humanos como a sua fonte exclusiva de nutrição. Em outras palavras, por que arrumar o que não está quebrado? Outros fungos que se reproduzem sexualmente tendem a fazer isso quando estão no solo.

Mas essa mudança provavelmente não ocorreu há tanto tempo assim, já que o genoma dessa espécie é tão grande quanto outros fungos e ainda mantêm os genes necessários para a reprodução sexual. Se este não fosse o caso, os pesquisadores dizem que a T. rubrum seria geneticamente menor e muito mais dependente de seu hospedeiro humano para se manter viva. Outra pesquisa, por sua vez, mostra que, de maneira muito rara, a T. rubrum produz esporos, um indicativo da cruza.

A assexualidade, no entanto, é acompanhada de algumas inconveniências. Sobretudo, é mais difícil para estas espécies se adaptarem a ambientes mutáveis. E mudanças cataclísmicas – como um poderoso novo medicamento antifúngico – pode ameaçar a sobrevivência da espécie. Ao mesmo tempo, porém, pestes assexuais possuem muitas maneiras de se esquivar de nossas armas químicas, como estamos descobrindo com ascensão das bactérias resistentes a antibióticos. E também existem evidências que a T. rubrum está se tornando cada vez mais resistentes aos antifúngicos mais comuns.

Então, enquanto a virgindade da T. rubrum pode um dia ser a sua ruína, isso não deve acontecer tão cedo, de acordo com o autor sênior do estudo Joseph Heitman, professor e presidente do departamento de genética molecular e microbiologia da escola de medicina da Universidade Duke, na Carolina do Norte.

“É comum pensar que caso um organismo se torne assexual, ele está condenado a ser extinto”, disse Heitman em um comunicado. “Apesar disso poder ser verdade, falamos de um período que pode durar por provavelmente centenas, milhares ou até milhões de anos”.

[Genetics]

Imagem de topo: Trichophyton rubrum sob as lentes do microscópio. (Créditos: Wenjun Li and Joseph Heitman—Duke University, e Valerie Lapham/North Carolina State University)