Adoraríamos poder dizer que, depois de um ano de protestos por parte de seu próprio quadro de funcionários contra o trabalho com os militares, supostos planos para construir um mecanismo de busca censurado para a China e de lidar mal com alegações de assédio sexual contra executivos, o Google está fazendo um exame de consciência e autorreflexão sobre o verdadeiro significado do seu slogan extraoficial “Don’t be evil” (“Não seja mau”). Mas, obviamente, não é o caso. Pelo contrário. De acordo com o jornal britânico The Times, eles estariam, na verdade, redobrando os esforços para caçar e demitir vazadores de informação.

A notícia de um esforço renovado para eliminar os funcionários que ousam falar com a mídia vem por meio de Jack Poulson, um ex-pesquisador científico do Google que disse que deixou a empresa por causa de suas preocupações com o Projeto Dragonfly, o motor de busca censurado que o Google estaria construindo para entrar no mercado chinês com a bênção dos censores estatais do país asiático. Poulson disse ao Times que parar os vazamentos é agora a “prioridade número um” para a administração do Google, com a equipe formando uma página interna na web para relatar contatos não autorizados com a mídia, e um engenheiro de alto escalão gritando “vão se foder, vazadores”, durante uma reunião com todos os funcionários. O jornal escreveu:

Os funcionários na sede da empresa perto de San Jose, na Califórnia, são incentivados a monitorar seus colegas e listar em uma página da web dentro do Google chamada “Stopleaks” qualquer informação confidencial que eles vejam externamente. Qualquer pessoa que for pega revelando informações à imprensa é demitida.

As tensões entre os trabalhadores por causa de vazamentos de informação para a imprensa deram também origem a discussões despropositadas, revelou Poulson. Durante uma sessão de perguntas e respostas em uma reunião com toda a empresa, um engenheiro de alto escalão pegou o microfone para gritar “vão se foder, vazadores” aos seus colegas… Poulson disse que as preocupações dos funcionários com o Dragonfly têm sido amplamente ignoradas pela administração, que está focada na prevenção de vazamentos. “A narrativa é que vazar informações é ruim e que a prioridade número um é evitar qualquer vazamento”, disse Poulson, que trabalhou para o Google por dois anos e meio, tanto na sede da empresa quanto em seu escritório em Toronto.

Notavelmente, Poulson escreveu em uma carta aos membros do Comitê de Comércio, Ciência e Transportes do Senado que ele só soube do Dragonfly por meio de reportagens da imprensa, que tiveram origem no Intercept, apesar dos esforços dos funcionários para que a alta administração divulgue mais informações sobre aquilo em que estavam trabalhando. Da mesma forma, o trabalho do Google com o Pentágono para construir ferramentas de IA para analisar imagens de drones se tornou público por meio de funcionários anônimos que falaram com o Gizmodo. O tratamento da companhia a pelo menos três casos de gerentes de alto escalão acusados de má conduta sexual, que incluiu pagamentos em dinheiro não obrigatórios a dois executivos que saíram e a permanência de um terceiro “em um cargo altamente compensado na empresa”, ficou conhecido em parte por causa de funcionários atuais e antigos que falaram com o New York Times, muitos anonimamente.

Batalhas em torno da suposta cultura de sigilo do Google não são novas. Em 2016, documentos judiciais de um processo de um engenheiro do Google que disse ter sido falsamente acusado de vazar informações para a mídia alegavam que os acordos de confidencialidade dos funcionários os restringiam de tornar pública, “sem limitação, qualquer informação de qualquer forma que se relacione com o Google ou o negócio do Google que não seja de conhecimento geral”. Notícias sobre um “programa de espionagem” interno (Stopleaks) também surgiram naquele ano. Porém, com três das maiores dores de cabeça da gigante da tecnologia deste ano sendo, pelo menos parcialmente, resultado de informantes revelando coisas, a administração parece estar enfrentando o problema de forma mais beligerante.

Também gigante da tecnologia, o Facebook, que tem sido atormentado recentemente com inúmeros escândalos que vão desde falhas de privacidade até alegações de cumplicidade com genocídio, também estaria supostamente reprimindo vazamentos. Em novembro, o Wall Street Journal noticiou que o CEO Mark Zuckerberg havia declarado a empresa estava “em guerra” para proteger sua imagem e culpou a mídia pelo “mau moral”, o que no mínimo é uma compreensão errada do problema. Logo depois, Zuckerberg basicamente começou a afirmar que alguns dos escândalos recentes da empresa eram notícias falsas. Uma reportagem no BuzzFeed News alegou que alguns funcionários do Facebook estavam paranoicos o suficiente ao ponto de usar “telefones descartáveis” para discutir questões no trabalho, com um vazador dizendo ao site:

“São pessoas normalmente sãs e racionais que estão na órbita de Mark lançando uma retórica antimídia, dizendo que a imprensa está se unindo contra o Facebook”, disse um ex-funcionário de alto escalão ao BuzzFeed News. “É a mentalidade do bunker. Essas pessoas estão sob cerco há 600 dias. Elas estão ficando cansadas, irritadas — a única estratégia de sobrevivência é desistir ou mergulhar de cabeça.”

Em um incidente separado, um executivo da Amazon repreendeu publicamente “o gênio vazando informações” sobre a busca nacional da empresa por um local para sua segunda sede, dizendo que quem vazou informações sobre um local no norte da Virgínia (confirmado mais tarde) deveria “parar de tratar como um guardanapo usado o acordo de não divulgação que assinou”.

Entramos em contato com o Google para comentários e vamos atualizar este post se tivermos uma resposta.