Estou cansado de ser enganado. Cansado de empresas que exploram os meus sonhos de infância de andar em um hoverboard como no filme De Volta para o Futuro II. No início do ano, por exemplo, surgiu um vídeo promovido pelo próprio Doc Brown mostrando um hoverboard voando – só que era fake. Depois disso, eu estava pronto para abandonar completamente esse sonho. Mas esta semana, ele finalmente se tornou realidade.

Eu pisei em um pedaço de madeira compensada equipado com 35 kg de baterias e eletroímãs… e deslizei sem esforço pelo chão. Senhoras e senhores, o hoverboard é real.



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Não me interpretem mal: isto ainda é um golpe de marketing. A Arx Pax, empresa startup que criou o hoverboard, está mais interessada em vender tecnologias para proteger edifícios de terremotos e inundações, não em realizar nossa nostalgia coletiva de um filme que estreou há 25 anos.

Tudo isso estava bem longe na minha mente, no entanto, porque eu estava flutuando no ar em um hoverboard de verdade.

Real, mas com desvantagens

Sim, ele é absurdamente pesado. São cerca de 40 kg! Isso é tão pesado que os engenheiros me disseram que precisam de pelo menos duas pessoas para levantá-lo, senão quebrariam as normas de segurança da OSHA (agência americana criada para evitar acidentes de trabalho).

Sim, as baterias acabam depois de alguns minutos: no estágio atual, ele requer 40W por kg. E sim, ele só flutua em superfícies não ferrosas e altamente condutoras, como o cobre ou alumínio, pois se levanta do chão ao eletromagnetizar rapidamente as superfícies debaixo dele. Você não poderá usá-lo na calçada, nem em qualquer lugar fora dos locais de teste.

Mas quando eu pisei em cima do hoverboard e o senti aguentar sem esforço os meus 90 kg – sem mesmo tentar escapar dos meus pés, vale notar – eu fiquei muito contente.

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O hoverboard não foi fácil de controlar, no entanto, mesmo neste skatepark em miniatura revestido de cobre, construído atrás do pequeno escritório da Arx Pax em Los Gatos, Califórnia. Dois engenheiros estavam ao meu lado em todos os momentos para me impedir de cair, enquanto um terceiro ficava próximo com um botão para desligar o aparelho remotamente caso algo desse errado.

E logo descobri por que eles me fizeram assinar um documento antes de usar o hoverboard. Por basicamente funcionar quase sem atrito, sem resistência, ele age basicamente como um disco gigante de hóquei de mesa, deslizando sem esforço por toda a superfície. E como um disco de hóquei com uns 130 kg tem bastante inércia, quando você começa a se mover, não é fácil parar.

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Kyle me mostrando a sala de testes.

Eu tinha a opção de me impulsionar com o pé para qualquer direção, como em um skate (ou me empurrar com uma vara), só que o caminho mais seguro era simplesmente deixar que me empurrassem na superfície de cobre. Mas uma vez, acabei girando de forma incontrolável, e isso parecia que ia durar para sempre se eu não tivesse saltado rápido.

E meu Deus, como essa coisa faz barulho. Ele é ruidoso ao ponto de ser desagradável. “Quero que ele seja mais silencioso”, diz Shauna Moran, engenheira-líder da equipe. Mas essa fera incontrolável sob os meus pés já é o 18º protótipo em uma longa linha de máquinas que pairam no ar.

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O Whitebox segurando uma lata cheia de tinta.

Hendo Hoverboard e Whitebox

No momento em que você lê estas palavras, a Arx Pax terá cumprido sua meta de US$ 250.000 para desenvolver o Hendo Hoverboard, que será lançado primeiramente em kits “Whitebox” para desenvolvedor, para as pessoas que querem criar produtos com a tecnologia, seja um hoverboard ou outra coisa. Eles custam US$ 300 cada.

O Whitebox é impressionante o suficiente por si só: um cubo de 5 kg que pode suspender 18 kg em pleno ar por 15 minutos em uma só carga. (Por incrível que pareça, ele salta se você derrubá-lo de uma altura de 2 cm a 3 cm.)

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O que tem dentro dele? A Arx Pax não diz, mas eis o nosso melhor palpite: ímãs giratórios. Greg Henderson, fundador da empresa, tem uma patente referente a isso.

Mas você não quer o modelo de US$ 300. Você quer o Manta Ray, um dispositivo em forma de disco de hóquei gigante que você pode dirigir e guiar. É assim que eles esperam realizar a ideia do hoverboard.

Ao modificar a “arquitetura do campo magnético” em tempo real, ele pode se elevar do chão e seguir para qualquer direção através de um controle remoto. Você o dirige da mesma forma que pilotaria um pequeno quadcóptero – só que aqui há muito mais inércia. A Arx Pax oferece uma versão de US$ 900 da Whitebox que faz a mesma coisa, só que controlado pelo seu smartphone.

E depois que a Arx Pax descobrir como fazer propulsão, a empresa afirma que o próximo passo é um efeito de “raio trator” para deixá-lo subir em superfícies. Isso parece loucura, eu admito, mas lembre que eu nunca esperava realmente pisar em um hoverboard funcional… só que eu fiz exatamente isso.

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Shauna demonstra o protótipo Manta Ray subindo uma rampa

Futuro flutuante

Para onde tudo isso vai nos levar? Boa pergunta, porque a resposta não é muito clara. Por enquanto, a empresa pretende vender alguns hoverboards funcionais de US$ 10.000 e vários Whiteboxes de US$ 300 e US$ 900 daqui a um ano, em 21 de outubro de 2015 (sim, é o dia em que Marty McFly volta para o futuro).

O fundador Greg Henderson, que começou a empresa com a esposa, comenta sobre diversos tipos de aplicações surpreendentes em potencial. Imagine se você tivesse um enxame de impressoras autônomas e sem atrito, que poderiam imprimir algo em qualquer tamanho que você quisesse. Imagine se eles limpassem navios no mar, sem necessidade de levá-los para docas secas. Imagine se uma nave espacial não tivesse que tocar em outra para atracar. (Enquanto eu conversava com Henderson, alguns dos engenheiros da empresa ouviam essas ideias pela primeira vez, para você ter uma ideia de como eles ainda estão no início.)

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Protótipos anteriores.

Mas Henderson, ex-Ranger do Exército, líder do pelotão, e arquiteto por profissão, diz que a gênese da ideia veio há 20 anos com o terremoto de Loma Prieta – que deixou 63 mortos e 3.757 feridos na Califórnia em 1989.

Veio a ele uma ideia de que as pessoas e os edifícios poderiam ser salvos se houvesse uma maneira de fazê-los flutuar. “A falha geológica de Hayward tem uma chance de 50% de causar um grande evento nos próximos 50 anos”, diz Henderson, apontando para um mapa da área da Baía de San Francisco na parede.

Ele me diz que o objetivo principal da Arx Pax é algo muito maior do que montar um hoverboard: ele quer criar prédios inteiros que podem se levantar do chão para sobreviver a inundações, e que poderiam ser girados para maximizar a energia solar, ou até mesmo reconfigurados em diferentes estruturas.

Mas esses prédios não vão se levantar com eletroímãs: nesta patente de Henderson, ele sugere um alicerce de três partes, com um recipiente de contenção, um tampão intermediário, e uma plataforma de construção. Ele espera criar um protótipo a tempo para o próximo desastre natural, para provar que esta é a melhor maneira de construir edifícios.

Ao deixar as instalações da Arx Pax, ainda me restam dúvidas se o hoverboard é uma experiência única, um golpe de marketing, ou se esta tecnologia tem realmente um potencial enorme. Só sei de uma coisa: ela é mesmo real.