O termo “síndrome de Asperger” nunca mais será lembrado da mesma forma, graças a uma nova pesquisa que mostra que Hans Asperger — o pediatra austríaco que foi homenageado com o nome da condição — era um ativo participante do programa de eugenia nazista. Ele chegou a recomendar que pacientes considerados “não aptos para a vida” fossem encaminhados para a famosa clínica de “eutanásia” de crianças.

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Uma pesquisa publicada nesta semana no periódico científico Molecular Autism mostra que Asperger não foi o homem que o público imaginava. O fato de ele ter trabalhado com os nazistas não é segredo, mas, depois da Segunda Guerra Mundial, ele afirmava não ter mantido amizades com os nazistas.

Ele chegou a afirmar que estava sendo caçado pela Gestapo por recusar entregar algumas crianças deficientes. Mas o novo trabalho realizado por Herwig Czech, um historiador de medicina na Universidade Médica de Viena, afirma que não há evidências para essas afirmações e que a concepção popular pelo personagem Asperger é falsa. A realidade brutal, segundo Czech, é que ele era um simpatizante do nazismo e um médico que “contribuiu ativamente” para o programa de eugenia.

Para chegar a essa conclusão, Czech vasculhou documentos de arquivos que ainda não tinham sido explorados, alguns deles que acreditava-se terem sido destruídos, incluindo os arquivos pessoais de Asperger e as avaliações clínicas que ele elaborou de seus pacientes. O historiador também procurou por publicações contemporâneas para descobrir onde surgiu a ideia de que Asperger era um oponente ao Nacional Socialismo.

Asperger, que morreu em 1980, trabalhou na Clínica Pediatra da Universidade de Viena durante a guerra. Evidências descobertas por Czech mostram que Asperger colaborou com os nazistas durante esse período ao relacionar direta e indiretamente crianças deficientes para a Am Spiegelgrund em Viena — uma clínica pediatra que, de 1940 a 1945, matou cerca de 800 crianças como parte do Programa de Eutanásia Infantil Nazista, ou Aktion T4 como também era conhecida.

De acordo com Czech, Asperger sabia exatamente o que estava acontecendo na clínica — essas crianças estavam sendo assassinadas como parte do programa de eugenia. Motivados pela ideologia racial fanática de Hitler, os nazistas buscavam criar uma sociedade geneticamente “pura”, praticando o que era chamado de “higiene racial”, que incluía a eliminação de vidas consideradas muito onerosas para o Estado, ou aquelas consideradas “não merecedoras de vida”. Na Am Spiegelgrund, matavam as crianças fazendo-as passar fome deliberadamente ou pela injeção letal de drogas. A clínica listava a causa das mortes como “pneumonia”.

Como Czech escreve em seu novo relatório, Asperger repetidamente alojou nazistas e era “recompensado por suas afirmações de lealdade com oportunidades de carreira”. Ele se juntou a várias organizações afiliadas ao partido nazista, embora nunca tenha se tornado um membro oficial.

Asperger “publicamente legitimou políticas de higiene racial, incluindo esterilizações forçadas e, em várias ocasiões, cooperou ativamente com o programa de ‘eutanásia’ infantil”, escreve Czech. Os documentos descobertos pelo historiador demonstram posições publicamente declaradas de Asperger em tais assuntos, nas quais ele pedia a “implementação responsável” da esterilização, por exemplo.

Em 1942, ele indicou um menino surdo-mudo de 15 anos para o Departamento de Cuidados Hereditários e Raciais do Departamento de Saúde, um ato que iniciou “um procedimento de esterilização com base no fato de que a condição parecia ser hereditária”.

A linguagem usada por Asperger para diagnosticar seus pacientes era “notavelmente severa”, mesmo quando comparada à linguagem usada por seus colegas do Am Spiegelgrund. Tomemos o caso de Elisabeth Schreiber, de cinco anos de idade, por exemplo, cujo diagnóstico de Asperger dizia:

Imbecilidade, provavelmente em base pós-encefalítica. Salivação, efeitos “encefalíticos”, negativismo, considerável déficit de linguagem (está lentamente começando a falar), com uma compreensão relativamente melhor. Na família, a criança é, sem dúvida, um fardo dificilmente suportável, especialmente sob suas condições de vida e, devido à sua agressividade, põe em perigo os irmãos mais novos. Portanto, é compreensível que a mãe opte pela institucionalização. Spiegelgrund seria a melhor possibilidade.

Elisabeth foi mandada para Spiegelgrund em março de 1942. De acordo com Czech, “uma das enfermeiras escreveu que ela era amigável e carinhosa, mas que falava uma única palavra: ‘Mama’. Ela morreu de pneumonia – assim como muitas outras crianças em Spiegelgrund – em setembro de 1942, pouco depois de completar seis anos”.

As descrições de Asperger de seus pacientes contradizem diretamente a noção de que ele “tentou proteger as crianças sob seus cuidados, decorando seus diagnósticos”, escreve Czech. Durante uma entrevista de 1974, e em uma aparente tentativa de esconder o que fez, Asperger disse:

É totalmente desumano — e, como vimos, há consequências terríveis — quando as pessoas aceitam o conceito de uma vida sem valor. […] Como eu nunca estava disposto a aceitar esse conceito — em outras palavras, notificar o Departamento de Saúde [Público] sobre os deficientes mentais — era uma situação muito perigosa para mim.

Com base nas evidências disponíveis, Czech afirma que é impossível saber se Asperger se absteve de relatar se algumas crianças preenchiam os critérios para a eutanásia. “No entanto, está documentado que ele pessoalmente referiu um número de crianças à instalação de ‘eutanásia’ de Spiegelgrund”, escreve no estudo.

Em 1938, Asperger cunhou o termo “psicopatia autista” para descrever um grupo de crianças com características psicológicas distintas, incluindo problemas com a comunicação social, padrões de comportamento repetitivos e restritivos e dificuldades de aprendizado. Em 1944, ele publicou um estudo sobre o tópico como parte de uma tese de pós-doutorado.

Sua ideia ganhou atenção mundial quando, em 1981, a Dra. Lorna Wing cunhou o termo “Síndrome de Asperger” para descrever formalmente a condição. Em 2012, a Associação Americana de Psiquiatria removeu oficialmente a Síndrome de Asperger do DMS-V, a chamada bíblia da psiquiatria. A partir desse momento, os psiquiatras passaram a classificá-la como uma forma de autismo.

Outro dado revelante sobre o tema: um novo livro de Edith Sheffer, intitulado “Asperger’s Children: The Origins of Autism in Nazi Vienna” (“Crianças de Asperger: As Origens do Autismo na Viena Nazista”, em tradução livre), possui relatos que corroboram as descobertas de Czech. Em um editorial na Molecular Autism, os autores escrevem:

Sheffer argumenta que Asperger talvez tenha sido simpático com o objetivo nazista de eliminar quaisquer crianças que poderiam não se encaixar no coletivismo fascista e na criação de um povo ariano homogêneo. Em 1938, o reitor da Escola de Medicina removeu mais da metade do quadro da faculdade, predominantemente os doutores judeus. Em contraste, aos 28 anos, Hans Asperger desfrutou de uma promoção prematura para ser diretor da clínica de educação curativa.

Sheffer descreve como, sob o regime de Hitler, a profissão de psiquiatra, que antes era baseada na compaixão e na empatia, se tornou parte dos olhos e ouvidos do Terceiro Reich. Sob a direção das Agentes de Saúde Pública, os profissionais foram às casas para indexar e classificar todas as crianças como geneticamente ajustadas ou impróprias, atribuindo diagnósticos que determinariam quem viveria e quem seria morto.

[Molecular Autism]

Retrato de Hans Asperger de seu arquivo pessoal. Imagem: Herwig Czech/Molecular Autism