Google I/O passou e com ele uma enxurrada de novidades nos produtos da empresa. No primeiro dia, um rápido keynote falava sobre a nova atualização do Honeycomb, a versão 3.1 do sistema para tablets, enquanto o segundo dia foi reservado basicamente ao Chrome OS, sistema operacional que pretende eliminar o armazenamento local, quer colocar todo mundo na nuvem, utilizando apenas navegador e apps em notebooks leves e com muita autonomia. Mas, bem, essa não é a função de um tablet? Desenvolver duas plataformas que se cruzam em questões ideológicas faz sentido?

 

Tablets vs. Netbooks



Um bom tempo passou desde o lançamento do iPad e nós já tiramos algumas boas conclusões sobre seu posicionamento no mercado: não, ele não veio brigar pesadamente com notebooks e desktops e viverá em harmonia com os dois por bons anos, cada um com sua função. Mas há sim um mercado que está perdendo espaço para os tablets, principalmente nos EUA: o de netbooks. Várias estatísticas apontam isso, e executivos da Asus e Microsoft admitem que netbooks estão sendo canibalizados pelo iPad.

Em um cenário diferente do brasileiro, o netbook é essencialmente a “quarta máquina” — alguém com um desktop, um notebook e um smartphone comprava um computador diminuto por questões de mobilidade e praticidade. Ela é basicamente um computador voltado para consumo de internet, e não para produção pesada de conteúdo. E neste aspecto, os tablets fazem o mesmo trabalho de forma mais elegante — tocar em telas é mais legal — com maior duração de bateria e leveza na mochila.

Eis que o Google decide investir exatamente nos dois nichos: nada de desktops e notebooks poderosos, o Chrome OS é um sistema voltado para netbooks leves — ainda mais sem HD — com grande autonomia de bateria e apenas um grande navegador como o sistema em geral — Steven Levy, da Wired, diz que é fácil experimentar o Chrome OS: abra seu navegador e ignore o resto do sistema, programas, sistemas de arquivo e pastas. O pensamento googliano para o Google OS é o mesmo do aplicado aos smartphones ou serviços como Gmail e Google Music: cada vez menos posse e acesso à nuvem. Mas…

http://www.youtube.com/watch?v=hPUGNCIozp0

O Honeycomb, em tese, surge com a mesma proposta, apenas se apoiando em uma plataforma diferente. Ele convida os consumidores a esquecerem os processadores Atom, lentos, com touchpads insuportáveis para ficar com a tela sensível ao toque e um terço do peso. Que tal? Apesar de ser uma questão de escolha, parece claro que os tablets ganharão cada vez mais mercado nos próximos anos, roubando principalmente o espaço dos… netbooks. E agora?

 

Reflexos do Google I/O

Os dois dias do Google I/O, conferência anual do Google com seus desenvolvedores, dá uma ideia de como a empresa vê seus dois novos sistemas: o Honeycomb foi citado rapidamente no primeiro dia, mais voltado para Android, mas principalmente focado em smartphones. O aviso foi rápido: há algumas coisinhas novas por aqui. No dia seguinte, da primeira à última palestra, o Google fez questão de falar do Chrome OS e de suas dezenas de novidades e parceiros. Acompanhando o I/O, não há dúvidas: o Google sabe que o Chrome OS, anunciado com pompa em 2009, precisa de mais atenção — e que o Honeycomb, com dezenas de parceiros de hardware, parece mais encaminhado.

Mas há realmente espaço para o Chrome OS nos próximos anos? A ideia de um sistema que depende totalmente de conexão com a internet parece perigoso até nos EUA, com Wi-Fi e 3G por todos os lugares (esforce-se para não pensar na realidade de mercado brasileira por enquanto). Além do mais, se a ideia é mostrar que um usuário consegue fazer tudo apenas em um navegador, por que não trabalhar no processo de colocar o Chrome em tablets com Honeycomb, de forma completa? Esta pergunta ecoa por nossas cabeças.

Porque a ausência de teclado em tablets, é fator que não deve ser problema nos próximos tempos no mundo dos tablets, especialmente em se tratando da abertura que fabricantes têm para fazer equipamentos diferentes rodando Android. Uma máquina como o Asus Transformer, por exemplo, que vem com um teclado destacável para o uso no Honeycomb, mostra um caminho possível – o dock do Atrix, com ligações para monitor, teclado e mouse, lembra que nem é preciso tanto processamento assim se você quer a vida no browser. E o desenho que não deixa de lembrar um desktop no Android 3.0 é apenas mais um facilitador para a adpatação do usuário “móvel”, que dependerá apenas da nuvem — e ainda terá, pelo menos, 16GB para guardar suas coisas. Juntando todas as peças, é justo perguntar por que não há uma versão do Android focada em notebooks, roubando elementos de mobilidade e os misturando com o computador comum, como a Apple fará com o Mac OS X Lion.

 

Chromebooks vs. Netbooks vs. Tablets

Assim, chegamos em uma dúvida filosófica (e econômica também): qual é a real vantagem dos Chromebooks? As máquinas anunciadas no Google I/O, da Samsung e da Acer, surgiram com preço acima do esperado — de U$349 a U$499. Valores parelhos com vários tablets com Honeycomb que devem ser anunciados em breve — o Asus Transformer entre eles.

http://www.youtube.com/watch?v=TVqe8ieqz10&feature=player_embedded

Como a configuração não é muito diferente de um netbook comum — que nos EUA pode ser comprado por U$199 — qual a real diferença de ter um Chromebook ou um netbook com Chrome instalado (e espaço interno de armazenamento)? Um dos grandes trunfos do Chrome OS, a velocidade de boot (8 segundos) pode ser empolgante no papel, mas para quem passa o dia inteiro com a máquina ligada, o levantar e abaixar a tampa fazem a mesma função em menos tempo. Em um tablet que não se desliga, o “tempo de boot” é irrelevante.

E, assim, voltamos aos tablets e ao Honeycomb: assim como o favo de mel, o Chrome OS não se propõe a fazer tarefas pesadas que notebooks fazem. E voltamos para a pergunta que não quer se calar: e se o Google criasse um Chrome para Honeycomb que funcionasse como um desktop, dando um ar mais “produtivo” ao sistema e deixando o consumo de conteúdo como um segundo chamariz? O navegador do Honeycomb atual, inclusive, já é bem interessante – mas o Chrome, com aplicativos e seus aceleradores por hardware é sensacional. Dado o cenário atual de apps para tablets do Google (há menos coisas específicas para Honeycomb que para Chrome), a solução poderia ser um grande diferencial do sistema em relação ao iPad — mantendo a fama de mais “durão” e funcional do que os produtos da maçã. Mas o Google pode não conseguir fazer isso se ficar pensando em dois sistemas ao mesmo tempo.

 

À procura do foco

A investida do Google no que muitos acreditam ser o futuro da comunicação e da computação — máquinas leves, móveis, poucos gigas de arquivos, nuvem e mobilidade em excesso — não é algo ruim e mostra que a empresa sabe bem para que lado o mundo está indo. Mas, no caso do Chrome OS e do Honeycomb, dois sistemas crus que terão de cavar espaço ao mesmo tempo, acreditamos que há um pequeno problema de foco.

Amadurecer dois sistemas móveis não é tarefa fácil, e dividir os esforços pode tornar a situação mais complexa ainda. O Google pode ter grandes equipes nos dois sistemas, mas a dependência de desenvolvedores de fora pode atrapalhar o crescimento das plataformas. Mesmo com focos diferentes, mas que se entrelaçam em vários momentos, um desenvolvedor terá de escolher para qual plataforma se dedicará.

Para nós, o Chrome OS pode ser um sistema interessante, mas apenas daqui uma década — quando nos acostumarmos a termos internet em toda esquina, esquecermos todos os nossos softwares que utilizamos no cotidiano e confiarmos na segurança da nuvem. O Honeycomb é um sistema mais real, pronto para os próximos anos em que os tablets explodirão. Mas como vimos bem no Xoom, ele precisa de muito cuidado e tratamento para enfrentar o rival. E não de um irmão mais novo, prodígio mas chorão, que roube a atenção de seus pais. [foto inicial por Jon Snyder/Wired.com]