Em meio à atual pandemia de coronavírus, há muitos relatos de escassez de produtos, como máscaras, álcool em gel e até mesmo papel higiênico. No entanto, os médicos dos Estados Unidos também estão tendo que lidar com uma falta grave, que pode resultar em sérias consequências principalmente para as vítimas da doença.

Quando uma pessoa é infectada pelo COVID-19, uma das principais áreas afetadas é o sistema respiratório, sendo que um dos sintomas graves da doença é a falta de ar. Uma forma de amenizar isso é por meio de ventiladores mecânicos que fornecem ar aos pulmões por meio de um tubo e são cruciais para garantir a sobrevivência de muitos pacientes. O problema é que os hospitais norte-americanos não estão conseguindo encontrar o equipamento à venda em nenhum lugar.



Com o crescimento acelerado na demanda por esses aparelhos, fabricantes dos EUA e da Europa afirmam que não estão conseguindo dar conta. O New York Times entrevistou Andreas Wieland, da suíça Hamilton Medical, uma das maiores fabricantes de ventiladores do mundo, para entender a escala do problema. Segundo ele, a empresa tem trabalhado exaustivamente para suprir essa demanda, enviando os equipamentos assim que são montados, tendo empregado e alocado um número maior de trabalhadores nas fábricas.

Ainda assim, os esforços não parecem ser o suficiente. “A Itália queria encomendar 4.000, mas não tem como. Nós enviamos cerca de 400”, disse ele ao NYT. Para se ter uma ideia, cada um desses equipamento pode chegar a custar US$ 50.000

De acordo com o jornal norte-americano, os EUA conta com uma média de 160 mil respiradores, sendo que o governo federal mantém mais 12.700 para responder a casos de emergência nacional. Com os números decolando a uma velocidade preocupante, é provável que essa quantidade não seja suficiente.

Alguns dos problemas relacionados a essa escassez é que cerca de metade dos equipamentos utilizados nos EUA são importados e, diante da crise de saúde atual em todo o mundo, os países estão priorizando abastecer seus próprios hospitais. O aparelho também não é simples de ser produzido, uma vez que é feito de centenas de componentes fabricados por empresas ao redor do mundo. Ou seja, acelerar esse processo não é algo fácil e que depende de um único país.

Marcus Schabacker, chefe executivo da organização ECRI, que avalia tecnologias voltadas à medicina, disse ao New York Times que o mundo está vivendo um efeito dominó. “Estamos com um problema global na cadeia de suprimentos, querendo ou não, então todos que fabricam ventiladores aqui ou em outro lugar estão em busca de peças, geralmente provenientes dos mesmos fornecedores”.

Earl Refsland, chefe executivo da fabricante de respiradores Allied Healthcare Products também falou com o jornal norte-americano e ressaltou a importância de zelar pela qualidade do produto diante das pressões por um maior número de entregas. “Esses ventiladores mantêm as pessoas vivas. Não vamos fazer rodas de caminhonetes. Isso leva tempo”. Segundo ele, a empresa atualmente fabrica cerca de 1 mil ventiladores mecânicos por ano e levaria, pelo menos, oito meses para aumentar a produção de forma acentuada.

Outra questão é que, enquanto os países estão incentivando que as pessoas trabalhem de casa, trazer mais gente para as fábricas obriga as empresas a oferecer equipamentos e condições de proteção a esses trabalhadores e investir mais em serviços de limpeza.

Enquanto isso, os hospitais se veem obrigados a tomarem decisões difíceis por conta própria sobre quais pacientes precisam mais dos aparelhos. Uma das soluções a serem consideradas por alguns hospitais foi tentar construir seus próprios ventiladores em parceria com departamentos de engenharia de universidades. A questão é que isso nunca foi feito antes.

Por fim, os médicos recebem anos de treinamento antes de serem considerados capazes de operar ventiladores mecânicos em situações de vida ou morte. Portanto, mesmo que as fabricantes milagrosamente descubram uma maneira de entregar toda a quantidade de aparelhos solicitada pelos hospitais, eles ainda podem ter dificuldades em encontrar profissionais qualificados para manejá-los.

[New York Times]