Antes de nos tornarmos os únicos humanos que sobraram no planeta, o Homo sapiens acasalava com neandertais e os denisovanos, que são intimamente relacionados com a gente. Novas pesquisas estão agora revelando que o ancestral comum dos neandertais e denisovanos cruzou com seu próprio antecessor, uma população de hominídeos “super-arcaicos”.

Este novo modelo sugere uma história reescrita da evolução humana e, se for o caso, demonstra que as espécies humanas primitivas intercederam muito mais em nossa formação do que os cientistas pensavam inicialmente.



“Estou empolgado por poder ver isso tão longe no passado”, disse Alan Rogers, o principal autor do estudo, ao Gizmodo. “Quando comecei a trabalhar nessas coisas…pensei que estaria trabalhando na origem dos seres humanos modernos. Foi uma surpresa para mim que a parte interessante da história foi o que aconteceu no meio do Pleistoceno [entre 2,5 milhões de anos e 11.700 anos atrás]”.

Pesquisas anteriores sugeriam que há cerca de 750 mil anos, os seres humanos se separaram de um ancestral dos neandertais e denisovanos que povoavam a Eurásia. Mas há também evidências de que outro ancestral arcaico já habitava a Eurásia. Talvez os “neadersonavanos” (uma mistura de neandertais e denisovanos) também tenham sido criados com esses hominídeos super-arcaicos.

Os pesquisadores desenvolveram um modelo baseado em uma amostra do genoma europeu moderno do Simons Genome Diversity Project, bem como nos genomas neandertais disponíveis. Eles assumiram que os humanos europeus antigos não se reproduziam com os denisovanos, porque não há muitas evidências para apoiar isso. Eles seguiram como as mutações em ambos os grupos seriam levadas adiante ou saltariam através das espécies. De acordo com a análise estatística, o modelo que melhor se ajustou aos dados foi aquele em que os neandertais cruzaram com os humanos, os denisovanos misturaram-se com o ancestral super-arcaico e, agora, a nova hipótese de que as informações genéticas fluíam entre a população super-arcaica e a população ancestral de neandersovanos, de acordo com o artigo publicado na Science Advances.

Essa população super-arcaica pode ter sido descendente do Homo erectus, descendente do Homo antecessor ou de outro hominídeo por completo.

O modelo vem com várias outras implicações — não apenas atrasaria a data em que os neandertais e denisovanos se separaram, mas também prevê que os ancestrais da humanidade se expandiram para fora da África apenas três vezes: um dos primeiros ancestrais 1,9 milhão de anos atrás, “neandersovanos” há 700 mil anos, e os seres humanos modernos 50 mil anos atrás.

Esta nova pesquisa surgiu de um trabalho de 2017 liderado por Rogers que argumentou que os neandertais e denisovanos se separaram há muito tempo, após um gargalo em sua população. Uma dupla de pesquisadores, Fabrizio Mafessoni, do Instituto Max Planck de Genética Evolucionária, e Kay Prūfer, do Instituto Max Planck de Ciência e História humana, respondeu que faltavam dados ao modelo que o levavam a produzir resultados irreais — mas Rogers observou que incluir os dados também levou a resultados irreais. A equipe de Rogers levou a crítica a sério para produzir um novo modelo, que levou a este artigo e à nova hipótese.

Mafessoni, que não estava envolvido na produção deste novo estudo, disse ao Gizmodo que embora esperasse revisar o novo artigo com mais profundidade e recriar seus resultados, ele acha que “eles estão fazendo um ótimo trabalho no desenvolvimento de algo um pouco diferente”, e que a mistura do hominídeo Neadersovano/super arcaico fazia sentido. No entanto, ele também apontou que a análise não exclui necessariamente outros modelos mais complexos que explicam as interações entre os grupos.

Se o modelo for verdadeiro, o artigo traz duas implicações importantes: a primeira, que já sabíamos, é que os humanos modernos mantêm o DNA de nossos parentes super antigos. Mas o mais surpreendente é que nossos ancestrais hominídeos cruzaram muito mais do que você imagina.

Obviamente, este tipo de trabalho dependente de um modelo exige separar pistas do DNA degradado, bem como mutações que as populações humanas carregaram em nosso DNA ao longo da história. Mas é fascinante pensar que carregamos em nós as histórias de espécies humanas extintas que influenciaram quem somos hoje.