A Peste Negra, uma praga responsável por matar cerca de um terço da população da Europa durante o século XIV, se espalhou para milhões de humanos por meio de ratos que carregavam pulgas infectadas, certo? Essa é a narrativa que ouvimos de historiadores. Mas um novo estudo questiona esse pensamento convencional, mostrando que os humanos, e não os roedores, é que foram os espalhadores principais da temida doença.

A horrível Peste Negra, causada pelas bactérias Yersinia pestis e frequentemente chamada de “a praga“, foi espalhada por pulgas humanas e piolhos, e não por parasitas parecidos encontrados em ratos, de acordo com uma pesquisa publicada na segunda-feira (15), na Proceedings of the National Academy of Sciences.

Em outras palavras, os humanos foram os principais responsáveis por espalhar a doença para outros humanos. Parece que os ratos eram inocentes, pelo menos de acordo com modelos matemáticos produzidos por pesquisadores da Universidade de Oslo e da Universidade de Ferrara.

De 1347 a 1353, a Peste Negra matou entre 75 milhões a 200 milhões de pessoas na Europa e na Ásia. A doença repetidamente colocava sua cabeça para fora em ondas contínuas que duraram dos séculos XIV ao XIX, afetando populações em Europa, Oriente Médio e Norte da África. A doença ainda existe nos dias de hoje, se espalhando entre humanos a partir de pulgas infectadas em ratos, ou por meio da inalação de gotículas infecciosas no ar.

As coisas ficaram complicadas no século XVI, com a Peste Negra devastando partes da Europa (Imagem: O Triunfo da Morte, por Pieter Bruegel the Elder, c. 1562/Wikimedia)

Apesar do fato de que a Peste Negra aniquilou uma porção considerável da população humana, pouco se sabe das maneiras como a doença se espalhou. “Embora seja comumente suposto que os ratos e suas pulgas tenham espalhado a praga durante a Peste Negra, existe pouco suporte histórico e arqueológico para essa afirmação”, escrevem os autores no novo estudo. Dito isso, cientistas têm estudado surtos recentes da doença na África (aqui, aqui e aqui), mostrando que as pulgas e piolhos humanos são os responsáveis por espalhar a Yersinia pestis entre humanos. Sim, a doença inicialmente faz um salto dos roedores para os humanos, mas, a partir dali, os parasitas humanos tomam controle.

Descoberta usando matemática

Essa revelação relativamente recente fez com que os pesquisadores Katherine Dean, Boris Schmid e seus colegas imaginassem se algo parecido havia acontecido durante a Peste Negra. Primeiro, a Peste Negra teve um alcance maior e foi muito mais mortal do que sua epidemia antecessora, a Praga de Justiniano (do século XI ao XIII). Além disso, os ratos na verdade não eram tão comuns na Europa durante o século XIV (uma alegação reforçada por provas arqueológicas). E, então, existem as provas recentes de surtos na África, mostrando que a Yersinia pestis pode se espalhar entre humanos por meio de parasitas humanos.

Para saber se os parasitas humanos eram, de fato, responsáveis pela Peste Negra, os pesquisadores se voltaram para a matemática. “A modelagem matemática pode fornecer informações sólidas sobre os mecanismos da transmissão de pragas em epidemias antigas”, escrevem os autores.

Usando dados coletados de nove surtos diferentes de praga na Europa do século XIV ao XIX, os pesquisadores modelaram diversos cenários para visualizar como a doença pode ter se espalhado. Três modelos de transmissão diferentes foram testados: pelo ar (pneumônico), por pulgas infectadas em ratos e por meio de pulgas e piolhos infectados em humanos e nas roupas. Em vários dos nove modelos, os pesquisadores descobriram consistências e similaridades muito maiores com o modelo de propagação humana, uma observação que reforça a “hipótese do ectoparasita humano” da Peste Negra.

“Desenvolvemos um modelo compartimental que captura a dinâmica da transmissão ectoparasita humana”, concluem os autores em seu estudo. “Mostramos que, em sete das nove localidades, o modelo do ectoparasita humano foi o modelo preferido para explicar o padrão de mortalidade por praga durante um surto, em vez de modelos de transmissão pneumônica e por pragas em ratos e suas pulgas.”

Mas o estudo não está livre de limitações. Ele é baseado quase completamente em modelagem matemática, portanto, está mostrando uma simulação do que pode ter acontecido, e não a coisa de verdade.

Além disso, os modelos não levaram em conta condições locais que podem influenciar uma epidemia, como guerra, fome, imunidade e intervenções de sistemas públicos de saúde. E, como os próprios autores admitem, “não modelamos rotas de transmissão misturadas, e isso dificulta a avaliação completa da contribuição da praga pneumônica, que normalmente acontece durante surtos bubônicos (quando espalhadas por parasitas infectados)”.

Ben Bolker, matemático e estatístico da Universidade McMaster e que não esteve envolvido no estudo, disse não estar contente com alguns dos procedimentos estatísticos usados pelos pesquisadores.

“Acho que a maneira como eles analisaram os dados significa que eles provavelmente estão exagerando a solidez das provas das diferenças entre os modelos”, Bolker contou ao Gizmodo.

Portanto, embora o novo resultado seja interessante, ele não é completo o bastante. Na melhor das hipóteses, ele é um bom ponto de partida para mais pesquisas que poderiam confirmar o que os modelos matemáticos sugerem. Epidemias são influenciadas por vários fatores, e cada região, com sua própria população distinta, será um pouco diferente.

[Proceedings of the National Academy of Sciences]

Imagem do topo: Wikimedia