Só deu ele no noticiário científico de ontem: o Capitão Kirk, interpretado por William Shatner,  da série “Jornada nas estrelas”, viajou ao espaço — de verdade. Aos 90 anos, o ator se tornou o homem mais velho a estar no espaço. A viagem aconteceu à bordo de uma espaçonave da Blue Origin, empresa do bilionário Jeff Bezos.

O voo durou cerca de 11 minutos, mas já foi suficiente para ser descrito por Shatner como ‘diferente de tudo que já viu’. Estamos falando aqui, afinal, da visão do planeta Terra lá do alto e da curiosa sensação de microgravidade. Não é um passeio qualquer.

Com as viagens ao espaço se tornando cada vez mais comuns — e com as empresas se jogando de cabeça na tarefa de levar civis em tours fora da Terra — uma questão ganha destaque: o impacto físico que um voo espacial pode causar. 

A Nasa e outras agências espaciais já estão estudando tudo isso. O caso mais clássico é o de Scott Kelly, astronauta que esteve a bordo da Estação Espacial Internacional entre os anos 2015 e 2016. Scott foi acompanhado durante sua estadia espacial — para que cientistas detectassem possíveis mudanças genéticas e físicas. Enquanto isso, seu irmão gêmeo, Mark Kelly, foi monitorado durante o mesmo período, só que na Terra.

Os resultados mostraram que diversas alterações podem ocorrer com o corpo no espaço. Por exemplo, como o corpo não precisa de muito esforço para se manter em pé, os ossos e músculos podem enfraquecer. Outro ponto destacado no estudo é a visão prejudicada. Os viajantes podem ter a visão embaçada ou reduzida devido à pressão causada nos globos oculares e nervos ópticos.

Um fato extremamente curioso é que, por conta da gravidade aqui na Terra, o sangue e líquido do nosso organismo ficam, a maior parte das vezes, nas extremidades como mãos, braços, pés e pernas. Já na microgravidade, eles se espalham por todo o corpo, o que pode deixar a face inchada.

Mas, não estamos falando de um ano no espaço. No caso de Shatner, os maiores riscos para a saúde são os estresses físicos e mentais experimentados durante o lançamento, a reentrada na atmosfera terrestre e o pouso. 

Ainda assim, quem viaja ao espaço experimenta uma aceleração intensa — ou a chamada força gravitacional (g). Em outras palavras, esse termo complicado de explicar é uma pressão que age sobre o corpo e pode dar a sensação de que três pessoas, do mesmo tamanho que você, estão sentadas em seu peito, lhe empurrando para baixo. É um sentimento ligeiramente parecido ao que passamos ao andar de avião. 

E, aí sim, você pode sentir todos aqueles sintomas de estar no espaço: visão turva, falta de oxigênio no cérebro, pressão no ouvido, enjoo e uma série de sintomas. 

Mas o Capitão Kirk levou uma vantagem em relação aos outros tripulantes — e não estamos nos referindo à experiência que ele acumulou gravando a série.

É o que argumenta este artigo publicado por cientistas da Universidade de Nortumbria, no Reino Unido, no site The Conversation — um espaço usado por pesquisadores para divulgarem seus estudos à população.

Algumas simulações de voos sub-orbitais em uma centrífuga, com pessoas entre 20 e 78 anos, indicaram que os idosos toleram melhor as altas forças g experimentadas durante a reentrada na atmosfera. Ou seja: o retorno, para os mais velhos, pode ser mais tranquilo.

Mas nem tudo são flores. Como pontua o texto, “uma pessoa de 90 anos com alterações de saúde relacionadas à idade pode chegar ao espaço com seus músculos e ossos já prejudicados”. Sendo assim, um cenário de micro-gravidade pode apresentar riscos adicionais para seu corpo.

O texto reforça, ainda que é cedo para especular se isso, por si só, torna os idosos passageiros menos viáveis para futuras viagens espaciais. Afinal, poucas pessoas com idade avançada foram ao espaço até hoje — e, portanto, os cientistas ainda não tem dados o suficiente para dizer como seus corpos vão lidar com o passeios fora da Terra.

Tem outra: Shatner, por exemplo, passou alguns meros minutos fora do planeta. Essa experiência breve, claro, não é suficiente para deixar marcas tão profundas em sua constituição física.

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Além de servir para quebrar um recorde, a ida de Shatner ao espaço (e de idosos dispostos a passar ainda mais tempo longe de seu planeta natal) certamente trará contribuições valiosas para a compreensão dos efeitos do voo espacial na saúde de, cada tipos vez mais diversos de pessoas.