A maioria das pessoas hoje em dia está ciente de que luzes estroboscópicas têm o potencial de causar convulsões epilépticas fotossensíveis. Um troll supostamente causou uma convulsão em um jornalista com um tweet. Um episódio de Pokémon mandou quase 700 crianças japonesas para o hospital. Mas imagens fixas também podem podem causar convulsões, e os cientistas estão começando a descobrir agora como isso funciona.

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Ainda existe muito que não sabemos sobre desencadeadores de convulsões, já que não existe uma forma confiável de testá-los em humanos ou animais. Um time de pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Utrecht queria saber o que estava acontecendo no cérebro que pudesse ajudá-los a entender melhor por que algumas imagens fixas causam convulsões e outras não.

“Um tipo específico de onda cerebral… chamada oscilação gama, é particularmente afetada por certos padrões visuais”, Dora Hermes, principal autora de uma correspondência publicada nesta segunda-feira na Current Biology, disse ao Gizmodo. Um padrão de barras pretas e brancas pode induzir essas oscilações gama no córtex visual do cérebro, a parte do cérebro que processa imagens — e em um cérebro epiléptico, os pesquisadores levantaram a hipótese de que essa oscilação esteja ligada a convulsões.

Oscilações gama são um padrão cerebral muito discutido, caracterizado por neurônios ativando ritmicamente cerca de 50 vezes por segundo. Os pesquisadores revisitaram diversas pesquisas anteriores e descobriram associações entre imagens que causam convulsões e aquelas que produziam oscilações gama de banda estreita em indivíduos saudáveis. Basicamente, se a imagem fizesse os neurônios do córtex baterem em uníssono com as frequências de oscilação gama, era mais provável que causasse convulsões em indivíduos epilépticos. As imagens que faziam os neurônios serem ativados fora do ritmo tinham menos chance de causar convulsões.

“Nós levantamos a hipótese de que o circuito que produz essas oscilações pode também provocar convulsões com epilepsia fotossensível”, Hermes disse.

O neurologista Khalid Hamandi, da Universidade de Cardiff, me apontou que a correspondência de Hermes e seus coautores não apresenta nenhum dado novo, apesar de resumir muito bem informações que já tínhamos. A ligação entre oscilações gama e ataques epilépticos foi observada em um estudo de 2003 (mas não com imagens fixas), por exemplo.

Mas outro professor, György Buzsáki, da Universidade de Nova York, disse ao Gizmodo em um email que ele achou o timing da pesquisa bem importante. “Apenas um ano atrás, eu não teria nem olhado para essa pesquisa. No entanto, esse ano a história é diferente.” Você talvez tenha ouvido um recente episódio do Radiolab sobre um novo estudo demonstrando que a luz piscando nessa frequência gama em ratos que sofrem de Alzheimer reduz o nível de um tipo de placa descoberta em seus cérebros doentes. Isso sugere que um futuro tratamento para Alzheimer pode envolver induzir esses padrões nos pacientes, potencialmente causando convulsões.

“Acho que várias companhias vão tentar vender seus dispositivos nos próximos anos, e muitas pessoas vão tentar piscar as luzes com esperança de desacelerar o progresso de doenças degenerativas”, Buzsáki escreveu. “Sem entender primeiro os mecanismos, pode ser uma atividade perigosa. Esse relatório aponta pelo menos um dos perigos, especialmente dado que uma grande porção dos pacientes com Alzheimer já é propensa a atividades epilépticas.”

Esse trabalho menciona apenas barras pretas e brancas, mas agora os pesquisadores querem testar se outras imagens fixas podem induzir essas oscilações gama também — os pesquisadores ainda não sabem. Por enquanto, existe muita experimentação à frente. “Eu gostaria de enfatizar que isso é uma releitura da literatura”, disse Hermes. “Estamos trabalhando em testar isso ao medir diversas populações de pacientes. Essa pesquisa é mais uma hipótese.”

Para um diagrama mostrando os padrões que possivelmente induzem as convulsões e seu mecanismo, clique aqui.

[Current Biology]

Imagem do topo: Neil Conway/Flickr