Pesquisadores na Holanda conseguiram testar com sucesso um implante cerebral que permite que um paciente com estado avançado de ELA (esclerose lateral amiotrófica) soletre mensagens com um ritmo de 2 letras por minuto. Para quem não conhece, a ELA é uma doença neurológica na qual a função de neurônios motores começa a parar de funcionar lentamente e que não tem cura.

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Como o desafio do balde de gelo ajudou na pesquisa para combater a esclerose

O novo sistema foi testado em Hanneke De Brujine, um mulher de 58 anos com estágio avançado de ELA. Impossibilitada de mover qualquer parte do corpo, com exceção dos olhos, de Brujine usou uma interface sem fio que liga o cérebro ao computador para identificar letras. No processo, ela deve imaginar que está usando sua mão direita. A paciente, então, agora pode utilizar o sistema em casa para se comunicar com a família e cuidadores.

Antes do implante cerebral, De Brujine usou um sistema de acompanhamento ocular para tentar se comunicar. No entanto, ele precisava ser recalibrado a toda hora que os níveis de luz do local mudavam. O novo sistema é mais confiável e autônomo, e pode ser usado em casa sem a necessidade de outros processos. A um ritmo de duas letras por minuto, digitar algo é extremamente devagar. Porém, é importante que este sistema mostre que os pacientes conseguem usar esse aparato por conta própria e sem muita ajuda de suporte técnico. No futuro, o sistema pode ser adaptado para pacientes que sofreram AVCs (Acidente Vascular Cerebral) ou que sejam tetraplégicos.

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“Isto é um avançado passo no processo de atingir a comunicação autônoma entre pacientes paralisados, cuja enfermidade é causada pelo ELA, hemorragia cerebral ou trauma”, observou Nick Ramsey, que é professor de neurociência cognitiva na University Medical Center Utrecht, em um comunicado. “No caso, ele permite que a paciente opere um computador de fala sem a necessidade de usar os músculos dela.”

O físico Stephen Hawking também sofre com a ELA, porém tem uma forma de comunicação mais eficiente. No entanto, a vantagem deste sistema holandês é que usa apenas o esforço da mente, enquanto o de Hawking depende do movimento de suas bochechas.

Quatro tiras de sensores foram implantadas no córtex motor de De Brujine (a parte do cérebro que controla os movimentos voluntários). Sempre que ela pensa em juntar o dedão direito e o dedo anelar, o chip detecta um pequeno pico elétrico de energia. Um computador recebe estes sinais e interpreta como um “clique cerebral”.

Para digitar letras em específico, De Brujine usa uma tela de tablet que conta com quatro linhas de letras. Como um cursor se mexe da esquerda para a direita por um alfabeto (além de “botões” com funções como deletar uma letra ou palavra, e selecionar palavras baseado em letras que ela já soletrou), ela executa um clique cerebral quando a letra desejada é selecionada. O processo é repetido até uma palavra completa ser soletrada e falada por um sistema do computador.

Usando o sistema, pacientes como De Brujine podem expressar seus desejos ou comunicar problemas, como coceira, saliva em excesso ou problemas com o ventilador. No futuro, os pesquisadores gostariam de testar o sistema em mais dois pacientes antes de começarem um teste em larga escala.

[New England Journal of Medicine]

Foto do topo por Brain Center Rudolf Magnus, University Medical Center Utrecht