Interestelar é o épico sobre fim do mundo com um plano de fundo espacial de Christoper Nolan. O filme é bonito, ambicioso e incrível do começo ao fim. Mas é impossível explicar para outra pessoa a sua experiência pessoal ao ver uma obra-prima. Então você precisa assistir a Interestelar para ter a sua própria experiência. Faça isso, por favor. O mais rápido possível.

O filme faz com que você perceba que a humanidade não sequer começou a compreender o tamanho do universo (e o que está além dele). O filme é um épico no sentido de que seu alcance abrange uma grande passagem de tempo, várias gerações. Além disso, ele transmite uma carga emocional profunda que (eu imagino) a viagem através do espaço e por diferentes universos poderia gerar numa pessoa.

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Esse texto é uma resenha e eu tentei evitar os spoilers na medida do possível. Eu fui assistir a Interestelar sem saber de muita coisa. Tinha visto os trailers que, em dois minutos, conseguiram me deixar extremamente ansiosa para ver o filme. Mas imagine ficar nesse mesmo estado de ansiedade por quase três horas? É isso que Interestelar faz com o espectador. Eu sabia só o básico do enredo: o mundo está acabando, Matthew McConaughey tem que ir para o espaço para salvar a humanidade e haverá alguma coisa sobre buracos de minhoca.

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Só que eu tinha certeza de que queria ver aquele filme o mais rápido possível. E eu gostaria que as pessoas tivessem a oportunidade de chegar para assistir Interestelar sem expectativas e sabendo pouco sobre enredo. Honestamente, o melhor seria parar de ler o texto por aqui e ir ver o filme. Você não precisa ler nada sobre o filme antes de vê-lo. Pode ter certeza de que quase todos os textos serão críticas argumentando sobre a física mostrada no filme e com pessoas arrancando os cabelos por conta de todos os detalhes ou erros presentes em todas as obras de ficção científica.

Bom, eu não estou aqui para fazer isso, embora as raízes de Interestelar estejam em teorias científicas. O físico Kip Thorne foi um dos produtores executivos e também foi atuou como consultor do filme. A ciência não serve só para dar um toque cool na história, ela é o cerne do roteiro. Mas mesmo que você não entenda nada da ciência que serve de base para Interestelar, trata-se de um filme excelente e você vai ficar impressionado.

A trama é densa e tem múltiplas camadas (olá, Inception), mas aqui vai o básico: estamos em algum ponto do futuro, em algum lugar no coração dos Estados Unidos e o mundo está chegando ao seu fim. Não sabemos quando isso vai acontecer, mas não vai demorar. Não sabemos quão perto a Terra está da destruição, mas ela é iminente. Já não é possível salvar o planeta, então as pessoas remanescentes precisam encontrar um novo planeta para que a raça humana possa continuar a existir.

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As operações da NASA se tornaram secretas. “Você não pode financiar a exploração espacial quando as pessoas mal têm o que comer”, diz o Dr. Brand (Michael Caine) quando personagem de McConaughey, Coop, encontra a sede da agência espacial no subsolo.

Você descobre logo que Coop era um piloto talentoso quando os Estados Unidos ainda tinham um aparato militar. Mas a NASA precisa dele e de suas habilidades espetaculares de voo para viajar para os três planetas que possivelmente podem hospedar a humanidade quando a Terra entrar em colapso. Ele precisa confrontar a escolha entre deixar sua família e sua casa para trás no intuito de encontrar um novo lugar para a humanidade ou correr o risco de perder sua família para seja lá o que for que vai acontecer com a Terra. Cooper faz a escolha óbvia e parte para as profundezas do espaço, junto com a doutora Amelia Brand (Anne Hathaway), Doyle (Wes Bentley), Romilly (David Gyasi) e TARS e CASE, dois robôs que vão te fazer lembrar do HAL. A cena da decolagem partindo da base secreta da NASA é de tirar o fôlego. Mas embora você tenha alguma ideia de para onde a tripulação está indo e daquilo que eles precisam encontrar, você simplesmente não pode prever o que vem a seguir.

A partir do momento em que a Missão Lázaro (nomeada por causa da história bíblica do homem morto que Jesus trouxe de volta à vida) deixa a estação na Terra, você está junto com eles no passeio. Quer dizer, você sente a emoção da missão e a quieta e solitária beleza do espaço. Mas há poucos momentos de quietude nesse filme em que tudo acontece muito rápido. É estressante de assistir. Sério, eu fiquei muito, muito ansiosa por cerca de três horas.

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A história vai muito além do que eu poderia imaginar. E você não sabe como aquilo vai acabar, o que é uma coisa muito boa. Não é sempre que você assiste a um filme e não tem ideia do que vai acontecer nos próximos minutos. E acontece menos ainda de você ir assistir a um filme e não conseguir prever o que vai acontecer no final assim que você chega à metade da história. E é ainda menos frequente que um filme consiga fazer você pensar em coisas completamente fora do comum e refletir sobre mundos, universos e planetas que estão muito longe de nós.

E o filme faz com que sua mente se expanda para ideias muito mais amplas. Você sabe o que é assustador? O espaço é assustador. O fato de que o nosso planeta um dia poderá murchar e morrer é assustador. O fato de que nós não sabemos o que vai acontecer depois disso é assustador. A possibilidade que nós tenhamos que procurar outro lugar se quisermos que a humanidade continue é assustador. A possibilidade de que existam mundos tão distantes de nós que precisamos que o tempo e o espaço se estirem para que possamos chegar até eles. Esses são pensamentos sobre os quais Interestelar faz com que você reflita. Quando eu saí do cinema, comecei a escrever algumas notas dentro do trem, e eu simplesmente não conseguia para de repetir “ah meu Deus ah meu Deus”.

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A história de Interestelar é ampla e profunda, abrangendo espaço, tempo e galáxias. Mas se fosse só sobre o enredo, seria simples se desconectar e ver o filme somente como mais uma história. Só que apesar de Interestelar ser uma grande história sobre salvar a humanidade, ela também é extremamente emocional. E ela consegue calar fundo no seu coração, porque o filme é sobre um pai que só está tentando voltar para sua família.

Matthew McConaughey encarna esse homem. Às vezes há um pouco de exagero, mas nada que não dê para relevar. Não é como se ele metamorfoseasse em outro personagem — ele ainda é um homem de bom coração, profundamente inteligente e meio grisalho com um sotaque do Texas, que é um herói. Eu estava cética, pensando que talvez McCounaughey simplesmente repetisse o Rust Cohle de True Detective e todo aquele lance de “time is a flat Circle”, e isso pudesse acabar atrapalhando o novo personagem, mas as coisas acabam funcionando.

Anne Hathaway também está excelente. A personagem dela é uma cientista do fundo do coração e é profundamente sincera, de modo que há uma simbiose entre esses dois lados. O resto do elenco é uma maravilha à parte. Você pode ir dar uma olhada no IMDB, mas seria melhor que você simplesmente acreditasse em mim e fosse para o cinema preparado para algumas surpresas.

Eu admito que chorei. Chorei um monte. Provavelmente eu chorei umas oito vezes, principalmente por conta dos relacionamentos. O relacionamento de Cooper com sua filha e com sua família é tão real. Ele é um protetor e um provedor e é por isso que ele se obriga a ir até a órbita de Saturno: por amor. Coop não quer deixar sua família, mas ele acha que partir para o espaço é um dever, que o peso do mundo está sobre as costas dele. Não ache que eu estou sendo exagerada, mas esse fardo é quase palpável quando você está vendo o filme. As pessoas são muito reais. Os relacionamentos são profundos. E o tempo é a essência desse épico de três horas.

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Mas eu também fiquei muito impressionada com a questão da passagem de tempo e da solidão. Nos confins do universo o tempo passa de maneira diferente. Uma hora num outro planeta são sete anos na terra. As pessoas existem nessas diferentes dimensões e suas vidas continuam em ritmos diferentes, o que cria uma tensão, uma perda e uma desconexão entre elas. Mas esse efeito também consegue criar uma urgência. Eles têm que completar a missão antes que tenha se passado tanto tempo na Terra que seus entes queridos acabem morrendo. Sério, esse filme é muito, muito profundo e se você não sentir isso, o seu coração provavelmente é feito de pedra.

O filme é nada menos que excelente. Há alguns buracos no roteiro que sem dúvida serão analisados, discutidos e dissecados até a morte. Mas isso não me incomodou. Interestelar é maravilhoso. Ele leva você a novos mundos, ele te enche de admiração pelos personagens e pela ciência e te cativa totalmente com a enormidade do espaço e a profundidade, a amplitude da emoção de explorar o espaço. Você precisa assistir. Você realmente precisa assistir o mais rápido possível.

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