Há 42 mil anos, não tínhamos as tecnologias que temos hoje para destruir o nosso planeta. Ainda assim, um estudo sugere que a Terra pode ter enfrentado uma série de crises ambientais causadas por uma inversão dos polos magnéticos.

A partir da datação por carbono de fósseis de árvores primitivas, os cientistas descobriram que pode haver uma correlação entre as mudanças no clima e extinções de mamíferos, além de mudanças no comportamento humano. A causa provável disso foi o evento conhecido como “Laschamp”, quando houve uma inversão dos polos magnéticos da Terra e que durou menos de mil anos. O artigo, assinado por 33 pesquisadores de diferentes países, foi publicado na edição desta sexta-feira (19) da revista Science.

O campo magnético da Terra funciona como uma espécie de escudo para proteger o nosso planeta de um bombardeio de partículas carregadas provenientes do Sol. O problema é que, quando a reversão dos polos acontece, a força magnética é enfraquecida e, por isso, os autores do novo estudo acreditam que o fenômeno pode estar relacionado a eventos de extinção.

Os pesquisadores analisaram seções transversais do tronco de quatro árvores kauri (Agathis australis) de um pântano em Ng­āwhā Springs, na região norte da Nova Zelândia. Em um dos troncos preservados, datados de cerca de 41 mil anos atrás, observou-se sinais de carbono-14, uma forma radioativa do carbono, de 1.700 anos.

Esse foi um dos principais indicativos da relação encontrada pelos pesquisadores. Afinal, um aumento de raios cósmicos, devido ao campo magnético enfraquecido, produziria mais carbono-14 na atmosfera, que seria incorporado nos tecidos das árvores.

Por meio de análises de computador, a equipe também descobriu que a maior quantidade de partículas carregadas entrando na atmosfera poderia aumentar a produção de óxidos de nitrogênio e hidrogênio atmosféricos, que são moléculas que consomem o ozônio. Isso desencadearia mais um problema para o nosso planeta, similar ao que enfrentamos atualmente — uma menor capacidade da camada de ozônio de bloquear a radiação ultravioleta. As alterações atmosféricas fariam com que a Terra absorvesse diferentes quantidades de luz solar em algumas regiões, resultando em mudanças climáticas.

Um fato curioso observado pelos cientistas é que os efeitos mais intensos parecem ter ocorrido há cerca de 42.300 a 41.600 anos, ou seja, alguns séculos antes do fenômeno de reversão dos polos. De acordo com o artigo, durante o evento, o campo magnético tinha cerca de 28% da força atual. Porém, durante o período de transição, essa força havia reduzido para 6% da atual. Os pesquisadores batizaram isso de “Evento Geomagnético Transicional de Adams”, em homenagem a Douglas Adams, autor da obra de ficção científica “O Guia do Mochileiro das Galáxias”.

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Para entender os impactos das mudanças nos seres vivos da época, a equipe comparou as datas do evento magnético com registros anteriores de núcleos de gelo que poderiam revelar informações sobre a atividade solar. O que eles descobriram foi que a atividade solar era mínima nesse período. Assim, a combinação de um campo magnético fraco e uma menor influência do Sol pode ter resultado em drásticas mudanças ambientais. Na prática, isso pode ter gerado uma maior competição entre a megafauna e as populações humanas, incluindo os neandertais.

Outra possível evidência de uma redução na camada de ozônio é a abundância de pinturas com o pigmento ocre vermelho feitas por humanos em cavernas, diz o artigo. Acredita-se que o ocre vermelho era utilizado como protetor solar e a grande quantidade de pinturas sugere que os humanos podem ter recorrido a cavernas para se proteger do sol intenso.

Os pesquisadores ressaltam que esse é o primeiro estudo a analisar as consequências de mudanças em campos magnéticos de forma tão ampla. Eles esperam que o aprimoramento de técnicas de datação e as árvores kauri da Nova Zelândia possam contribuir com pesquisas futuras, inclusive de eventos magnéticos mais recentes, como o Mono Lake Excursion, que ocorreu há cerca de 34 mil anos.

[ScienceNews]