Assim como na história das origens do Facebook, o Twitter está repleto de traições e brigas de ego. O primeiro trecho do relato de Nick Bilton, do New York Times, sobre a criação do Twitter, mostra uma empresa que meio que se odeia – e também uma vaidade diabólica do co-fundador Jack Dorsey.

Bilton se concentra na luta interna e na gênese, é claro, porque todos nós adoramos sangue. O Twitter virou uma guerra de egos muito antes de sofrer com receitas. Foi no dia que Jack Dorsey foi contratado – então um cara com piercing no nariz, e não o garanhão engomadinho que você vê na imagem acima. Ele claramente ocupa o papel de vilão na história, o que faz a inevitável adaptação cinematográfica ficar divertida de se imaginar – pense em todas as traições de Zuckerberg, mas com uma estrutura óssea melhor.

Quando a Odeo, a startup de podcast que contratou Dorsey em 2005, começou a ter dificuldades, Dorsey chegou com uma ideia interessante de um novo projeto.

Dorsey pensou em algo que as pessoas pudessem usar para transmitir pequenos detalhes sobre a própria vida – como “indo ao parque”, “na cama” e assim por diante.

Isso lembra o Twitter, mas também lembra um monte de outras coisas que existem por aí. Colegas de trabalho, liderados por um engenheiro solitário e depressivo chamado Noah Glass que logo foi forçado a deixar a empresa, pegaram a ideia e aumentaram para algo mais substancial:

Glass assumiu o controle do projeto, escrevendo as diretrizes e uma lista sobre como o site deveria funcionar. Ele adicionou elementos integrais, incluindo marcações de tempo, para permitir que as pessoas soubessem quando uma atualização foi compartilhada. [Biz] Stone começou a explorar os designs. Dorsey e um outro programador, Florian Weber, fizeram os códigos. Willians criou um visual estilo blog que mostrava as mensagens anteriores das pessoas em fluxo.

Foi um esforço em grupo, sem dúvida, mas não continuou dessa forma: Jack Dorsey queria tomar o controle.

Seja lá por quais motivos, Dorsey se encontrou com [Ev] Williams e ameaçou sair de Glass não fosse mandado embora. E para Williams, a decisão foi simples. Dorsey se tornou o principal engenheiro do Twitter, e os problemas pessoais de Glass estavam afetando seu desempenho.

Quando um desanimado Glass foi falar com Dorsey, “Dorsey se mostrou estupefato e culpou Williams.” Isso não é nem uma traição sofisticada – é apenas mentira. Dorsey agora era o CEO, mas já trabalhava duro para consolidar a imagem que ele tinha do que era a essência do Twitter:

Dorsey frequentemente agia como se estivesse no controle, posicionando como se as suas ações fizessem parte de um plano maior, mas funcionários frequentemente o viam passeando frustrado. Ele também saia por volta das 18h para aulas de desenho, sessões de ioga e curso em uma escola de moda local (ele queria aprender a fazer uma saia e, por fim, jeans).

Ênfase adicionada. Ele também estava avacalhando os fundamentos de CEO – a empresa perdia dinheiro de formas estúpidas, de certa forma um prenúncio do status perdedor atual:

[Dorsey] forçava pessoas a usarem Twitter via mensagens de texto, o que produzia uma conta mensal de seis dígitos para a empresa. Dorsey também gerenciava os gastos em seu laptop e fazia cálculos errados.

Talvez o Twitter ainda tenha suas contas guardadas no laptop de alguém. Ele foi discretamente expulso por, basicamente, incompetência, o que deu-lhe tempo para revisar a história corporativa do Twitter e engrandecer a sua imagem – o que foi um esforço em grupo se transformou em uma Produção Jack Dorsey:

Em diversas entrevistas, Dorsey ignorou completamente o envolvimento de Glass na origem da empresa. Ele mudou sua biografia no Twitter para “inventor” e começou a excluir Williams e Stone também. Em um evento, Dorsey falou a Barbara Walters que ele havia fundado o Twitter, um ponto que ela levantou no dia seguinte no “The View” com Stone e Williams. Dorsey disse ao The Los Angeles Times que “o Twitter é o trabalho da minha vida em muitos sentidos.” Ele também não creditou a Glass o nome incomum da empresa.

Isso é um engano que Dorsey continua fazendo até hoje, e que vai garantir influência e interesse em tudo o que ele fizer daqui para frente. Mais conspirações garantiram a recuperação do poder do Twitter a Dorsey, a expulsão de Ev Williams e a humilhação suprema de Noah Glass.

Dorsey vai ganhar entre US$ 400 milhões e US$ 500 milhões quando o Twitter se tornar público. Glass deve ganhar mais ou menos o mesmo que a secretária de Dorsey.

Bilton não chega a falar como uma empresa com tantos personagens intrigantes pode falhar no seu plano de se tornar uma empresa que realmente faz dinheiro, o que, para quem está se preparando para se tornar público, é tão interessante quanto as histórias de traição. Talvez tudo se explique sozinho: se você passou anos da sua vida conspirando para passar a perna em seus amigos, talvez não tenha encontrado tempo para coisas triviais como lucro. Todos eles vão ganhar muito dinheiro ao vender as ações, de qualquer maneira. Todos menos aqueles que foram mais prejudicados.