Mark Di Stefano, repórter do Financial Times, supostamente espiou reuniões do Zoom dos jornais britânicos concorrentes The Independent e The Evening Standard para conseguir furos a respeito de cortes de pessoal e de licenças temporárias devido à pandemia do coronavírus. Para piorar, ele fez um péssimo trabalho ao tentar encobrir seus rastros.

O Di Stefano, segundo uma reportagem do Independent, fez login em uma reunião do Zoom realizada pelo jornal na semana passada usando seu endereço de e-mail do Financial Times, fazendo com que seu nome aparecesse para todos na chamada, embora sua própria câmera de vídeo estivesse desativada.

Di Stefano saiu após “16 segundos”, de acordo com o Independent, mas alguns minutos depois, outro login registrado estava conectado ao número de telefone de Di Stefano. Esse usuário permaneceu na ligação até o final da reunião, de acordo com jornalistas que participavam da chamada no Zoom.

Como as reportagens sabem que provavelmente foi Di Stefano? Não é como se ele tivesse tornado secreto o conhecimento do conteúdo da chamada. Após a reunião, ele tuitou sobre as mudanças nos dois jornais no dia 23 de abril, incluindo o fato de que a receita publicitária dos veículos caiu entre 30% e 50%. O repórter do FT também tuitou que o site do Independent tinha acabado de passar pelo mês de maior tráfego da história.


Tradução: NOTÍCIAS: Evgeny Lebedev do Independent acaba de dizer à equipe de funcionários que serão o próximo jornal do Reino Unido a tomar medidas de emergência:

* 20% de redução salarial para *todos os funcionários* que ganham mais de £ 37,5k
* Alguns foram colocados no esquema de licença temporária do governo
* Receita de anúncios caiu 30-50%

O chefe executivo do Independent, Zach Leonard, disse na chamada no Zoom que tem havido uma “reação extrema” nos mercados de anúncios digitais: “Estamos vendo centenas de milhares de libras indo embora.”

Os funcionários disseram que eles tiveram o maior mês de tráfego de todos os tempos.

Os tuítes de Di Stefano estavam sendo publicados antes mesmo de algumas pessoas das redações saberem o que estava acontecendo em seus próprios locais de trabalho, de acordo com o Independent.

O Independent e o Evening Standard ficam localizados no mesmo edifício no oeste de Londres e são propriedade do bilionário russo Evgeny Lebedev, que está supostamente aproveitando o esquema de licença temporária do governo britânico para a indústria privada. Os trabalhadores de ambos os jornais terão um corte de 20% no salário se ganharem mais de £ 37.500 por ano.

Embora Di Stefano seja um repórter de mídia que obviamente precisa ter acesso a informações privilegiadas para fazer o seu trabalho, não parece ser muito ético ouvir uma chamada no Zoom para a qual você não foi convidado, mesmo que não houvesse senha para entrar.

No início do século 20, a invasão de propriedade era muitas vezes glamourizada como parte do trabalho de um repórter setorista, especialmente no cinema. Mas as coisas ficaram mais obscuras hoje em dia, quando as portas do jornal são digitais.

“Respeitamos a liberdade de expressão e entendemos os desafios da obtenção de notícias, mas o Independent considera a presença de um jornalista de terceiros em uma reunião da equipe totalmente inapropriada e uma intromissão injustificada na privacidade de nossos funcionários”, disse o editor do Independent, Christian Broughton, em declaração ao Guardian na segunda-feira. “Nosso porta-voz tinha uma declaração completa preparada para a imprensa. Qualquer repórter interessado só precisava ligar e perguntar.”

E embora seja verdade dizer que o Independent provavelmente teria comentado informações como sua participação no programa de licença do Reino Unido, ele quase certamente não teria divulgado informações como o fato de que a receita publicitária caiu entre 30% e 50%.

Esse é precisamente o tipo de informação privilegiada que os repórteres da mídia estão procurando, especialmente durante a pandemia de COVID-19, quando praticamente todas as indústrias estão sofrendo. Todos nós sabemos que tem sido difícil. Mas saber que a receita foi reduzida pela metade, dá uma ideia do tamanho da dificuldade.

O Evening Standard também emitiu uma declaração ao Guardian dizendo que a suposta intrusão no Zoom foi “inaceitável” e exigindo um pedido de desculpas do Financial Times.

Di Stefano foi alvo de piadas de usuários do Twitter nos últimos dois dias, com muitas referências aos Simpsons – lembrando o episódio em que o Sr. Burns colocou um bigode para se disfarçar.

Di Stefano, que entrou para o Financial Times em janeiro depois de trabalhar no BuzzFeed, aparentemente foi afastado do trabalho por causa de suas peripécias no Zoom. Ele não respondeu imediatamente a um e-mail e a uma mensagem direta no Twitter enviada no início desta terça-feira (28).

Di Stefano, que costuma usar bastante o Twitter e tem mais de 100.000 seguidores, não tuíta nada desde sábado (25).