Enquanto alguns brasileiros viram nevar em lugares que nunca nevaram, o pessoal do Hemisfério Norte está sofrendo com um calor inédito. Cientistas disseram na última sexta-feira que julho foi o mês mais quente já registrado nos últimos 142 anos, quando começamos a medir a temperatura do planeta.

Quem ousaria pensar em mudanças climáticas agora, não é mesmo?

A NOAA (Administração oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA) disse que a temperatura combinada das terras e oceanos em julho foi de 16,73ºC — 0,93ºC  mais quente do que a média do século 20. Você pode achar que 16,73ºC não é muito, mas vale lembrar que essa média inclui a temperatura do Ártico e da Antártica.

Alguns lugares bateram recordes assustadores: a Ásia teve seu julho mais quente; a Europa o segundo mais quente, enquanto as Américas, Oceania e África estiveram nos seus top 10.

Se isso está com cara de deja vu é porque estamos batendo recordes de meses e anos mais quentes com uma certa consistência há alguns anos.

O último recorde de julho mais quente havia sido batido há apenas cinco anos. Em 2019 e em 2020 encostamos no recorde mensal de 2016.

Em 2020 quase batemos o recorde de ano mais quente registrado, mas acabamos empatando com 2016 — mesmo com toda a história de queda de emissões de carbono durante a pandemia.

A NOAA disse na sexta que, olhando para julho, é muito provável que 2021 termine entre os 10 anos mais quentes já registrados — ranking cujo ano mais antigo é 2005.

Ainda teremos que viver mais alguns meses infernais para saber se 2021 baterá o recorde de 2016, mas ao que tudo indica estamos no caminho para isso. Agosto continua com temperaturas recorde na Europa; vimos atletas sofrendo com insolação nas Olimpíadas de Tóquio; e não diminuímos as emissões dos últimos anos (na verdade, também batemos recordes nessa área). No começo do ano, os níveis de dióxido de carbono atingiram um recorde de 419 ppm, o mais alto já registrado, enquanto em abril os cientistas registraram um índice de cair o queixo: 421,21 ppm.

Se a Terra tivesse um marqueteiro, eu diria que ele está fazendo um ótimo trabalho de alertar as pessoas na mesma semana em que saiu o relatório do IPCC. O documento associa, com bastante precisão, a relação entre as atividades humanas e as mudanças climáticas, mostrando como os fenômenos que estamos vendo agora são resultados diretos do dióxido de carbono que jogamos no planeta.

Julho também foi repleto de catástrofes climáticas, como incêndios florestais em várias partes do mundo (incluindo a Sibéria), inundações, deslizamentos de terra, além dos calores extremos.

E estamos só no começo, como mostra o relatório do IPCC. É impossível impedir que o aquecimento de passar de 1,5ºC dos níveis pré-industriais até 2040. Isso significa que estamos em um ponto crucial para tentar impedir as coisas de ficarem muito, muito piores. O documento diz que ainda há tempo de tentar descobrir como impedir o mundo de passar dos 2ºC de aquecimento (algo que precisamos muito fazer).

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Esse pode ser o mês mais quente que já registramos até agora, mas é bom se acostumar. Como o IPCC disse, mesmo que a gente consiga se unir e impedir o pior de acontecer, o planeta irá esquentar ao menos 1,5ºC nos próximos 20 anos — o que traria catástrofes e mudanças para o planeta. No ritmo que estamos, esse talvez ainda seja um dos verões mais “tranquilos” do Hemisfério Norte.

Será preciso um esforço histórico para impedir que a Terra se torne inabitável.

Aproveite e leia nossa reportagem do Bitniks sobre demarcação de terras indígenas — assunto diretamente relacionado ao combate às mudanças climáticas