Kevin Spacey, astro de House of Cards, série do Netflix indicada ao Emmy, aponta tudo o que está errado com a mentalidade dos executivos de TV hoje.

No Festival Internacional de Televisão de Edimburgo, Spacey tinha muita munição para demonstrar, em definitivo, que a abordagem anti-tecnologia acabará com a derrocada da velha guarda a menos que seja permitido aos telespectadores determinar as formas de consumir a produção audiovisual.

“Se você está vendo um filme na sua TV, ele deixa de ser um filme porque você não está em um cinema?” questionou Spacey. “Se você vê uma série da TV no seu iPad ela deixa de ser uma série para a TV? O dispositivo e a duração são irrelevantes.”

Rótulos são inúteis, disse o ator aos executivos, “exceto, talvez, para agentes e gerentes e advogados que usam esses rótulos para fechar acordos comerciais.”

Para a galera que consome esse conteúdo, porém, “não existe diferença entre ver Avatar no iPad ou vídeos do YouTube na TV e assistir a Game of Thrones no computador. Tudo é conteúdo. Tudo é história.”

Os executivos e seus estúdios devem aprender a se adaptar, acomodar e apreciar a maravilhosa oportunidade que lhes é dada.

“Você tem essa incrível confluência de mídias surgindo por conta própria na mesma medida em que a tecnologia para aquela mídia muda drasticamente,” disse Spacey. “Os estúdios e redes que ignoram a mudança — tanto na crescente sofisticação da forma de contar histórias, quanto nas constantes alterações do avanço tecnológico — ficarão para trás.”

A transcrição do vídeo segue abaixo, traduzida em português; confira aqui a transcrição completa do discurso. [Viral Viral Videos]

O alívio para todos vocês é que eu não sou alguém com um trabalho importante na radiodifusão usando este discurso para arranjar um trabalho ainda mais importante na radiodifusão (…)

“House of Cards”, no aspecto criativo, na verdade segue o modelo mais usado aqui na Grã-Bretanha. A indústria da televisão aqui nunca realmente adotou a temporada de pilotos, vista pelas emissoras nos EUA como um esforço que vale a pena. Sim, é claro que nós fomos para todas as grandes emissoras com “House of Cards” e todas estavam muito interessadas na ideia… mas todas elas queriam que fizéssemos antes um piloto.

Não foi por arrogância que David Fincher, Beau Willimon e eu não estávamos interessados ​​em fazer um teste para a ideia, era que queríamos começar a contar uma história que levaria um longo tempo para contar. Estávamos criando uma história sofisticada, cheia de camadas, com personagens complexos que iriam se revelar ao longo do tempo, e com relacionamentos que precisariam de espaço para se formar.

A obrigação de um piloto – no que se trata de escrevê-lo – é que você precisa gastar cerca de 45 minutos estabelecendo todos os personagens, criando “ganchos” arbitrários e, geralmente, provando que o que você está disposto a fazer vai funcionar. O Netflix foi o único que disse: “Nós acreditamos em você. Analisamos os nossos dados e eles nos dizem que o nosso público iria assistir a esta série. Nós não precisamos que vocês façam um piloto.” (…)

Em comparação, no ano passado, 113 pilotos foram feitos. 35 deles foram escolhidos para ir ao ar. 13 deles foram renovados, mas não sobraram muitos deles. Este ano, 146 pilotos foram gravados. 56 viraram uma série e nós não sabemos o resultado deles ainda. Mas o custo desses pilotos foi de algo entre 300-400 milhões de dólares a cada ano. Isso faz o nosso acordo de “House of Cards” para duas temporadas parecer realmente rentável.

É evidente que o sucesso do modelo do Netflix, liberando toda a temporada de “House of Cards” de uma só vez, provou uma coisa: o público quer o controle. Eles querem liberdade. Se eles quiserem assistir tudo de uma vez – como eles estão fazendo com “House of Cards” – então devemos deixá-los fazer isso. Muitas pessoas já me pararam na rua para dizer: “Obrigado, você sugou três dias da minha vida.” E através desta nova forma de distribuição, nós demonstramos que aprendemos a lição que a indústria da música não aprendeu: dê às pessoas o que elas querem, quando querem, na forma que elas querem, a um preço razoável – e elas muito provavelmente vão pagar pelo conteúdo, ao invés de roubar. Bem, alguns ainda vão roubá-lo, mas acredito que [este novo modelo] pode tirar espaço da pirataria.

(…)

Eu prevejo que, na próxima década ou duas, qualquer diferenciação entre estes formatos – essas plataformas – cairá. 13 horas, assistidas como um todo cinematográfico, realmente são diferentes de um filme? Definimos filme como algo de duas horas ou menos? Certamente isso vai mais fundo. Se você está assistindo a um filme na televisão, ele já não é mais um filme, porque você não o está assistindo no cinema? Se você assiste a um programa de TV em seu iPad, não é mais um programa de TV?

O dispositivo e a duração são irrelevantes. Os rótulos são inúteis – exceto, talvez, para agentes e gestores e advogados que usam esses rótulos para conduzir negócios. Para as crianças que crescem agora, não há nenhuma diferença entre assistir Avatar em um iPad, ou assistir YouTube em uma TV, e assistir Game of Thrones no computador. Tudo é conteúdo. São apenas histórias.

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E o público se pronunciou: eles querem histórias. Eles estão doidos por elas. Eles estão torcendo por nós para dar-lhes a coisa certa. E eles vão falar sobre isso, assistir tudo de uma vez, levar com eles no ônibus e ao cabeleireiro, forçá-lo a seus amigos, tuitar, blogar, postar no Facebook, fazer páginas de fãs, GIFs bobos e sabe Deus mais o quê – se engajar com ele com uma paixão e uma intimidade que um filme de sucesso só poderia sonhar. Tudo o que temos a fazer é dar a eles. O fruto está bem ali, mais brilhante e mais suculento do que jamais esteve antes. Por isso, seria ainda mais vergonhoso para todos nós se não estendermos a mão para aproveitar.

(…)

Quero deixar vocês com as palavras de um homem tão bom quanto qualquer outro para enfrentar o vínculo entre comércio e arte, Sr. Orson Wells, que uma vez disse: “Eu odeio televisão. Eu odeio tanto quanto amendoins. Mas eu simplesmente não consigo parar de comer amendoins.”