Veja que boa ideia: uma máquina de café que torra, mói e passa de uma vez só – de grãos crus à uma xícara de café quentinho pronto para ser consumido. Sim, que ideia sensacional!

Veja que ideia ruim: angariar centenas de milhares de dólares via crowdfunding mentindo sobre o estágio de desenvolvimento da tal máquina, tornando de repente todo o sistema proprietário e dando uma de desentendido quando as pessoas que lhe deram dinheiro o procuram em busca de mais informações.

A história da ainda pendente, constantemente adiada e enfurecedora máquina de café dos sonhos é um conto que serve de advertência para basicamente todos os envolvidos. E, ainda assim, um claro sinal de que o crowdfunding tem um sério problema de credibilidade.

A startup de cafés Bonaverde organizou três campanhas de crowdfunding para sua visão de máquina de café tudo-em-um (afinal, por que tomar dinheiro de um grupo de idealistas quando dá para pegar de três?). Levantou US$ 681.461 no Kickstarter, US$ 124.529 no Indiegogo e quase US$ 1,5 milhão no Seedmatch, um site de crowdfunding europeu.

Agora, centenas de apoiadores do Kickstarter estão ensandecidas com a empresa, alegando que a campanha foi um scam da pior espécie ou, na melhor das hipóteses, uma propaganda enganosa. Tem gente já se organizando em um processo coletivo e outras medidas jurídicas para reaver o dinheiro. A Bonaverde se recusa a oferecer reembolsos completos até que a empresa comece a operar no azul. Os apoiadores se juntaram em uma espécie de fórum crowdsourced bancado por eles próprios para discutirem as suas alternativas.

Como as coisas chegaram a esse estado?

A bagunça do café

A confusão começou antes do fim da campanha da Bonaverde no Kickstarter, em 8 de dezembro de 2013. O prazo de entrega esperado era outubro de 2014, mas logo ficou claro que o plano original precisaria ser refeito. Os apoiadores criticaram o projeto por enganá-los sobre o estágio em que o protótipo se encontrava quando a campanha foi lançada. Era apenas o prelúdio de um problema muito maior.

A original no Kickstarter prometia uma máquina que permitiria às pessoas personalizarem a forma com que torrariam os grãos. A equipe da Bonaverde nunca disse que a máquina seria compatível com qualquer grão de café, mas não havia menção a um plano de limitar o tipo de grão que funcionaria com a máquina. Eles chegaram a demonstrar um protótipo da máquina em que você colocava os grãos crus de sua escolha, apertava um botão e eles torravam.

Então em julho, a empresa atualizou seus apoiadores dizendo que, hey, na verdade, para usar a máquina seria preciso comprar os grãos da Bonaverde através de uma loja que fora desenvolvida com fazendeiros. A máquina de café usaria etiquetas RFID para processar o café pré-torrado. Grãos proprietários! Basicamente, você ficaria preso à vida útil da máquina. Muitos apoiadores que investiram US$ 300 esperando uma máquina que poderiam usar com qualquer grão ficaram pasmos.

A Bonaverde apresentou esse recurso-surpresa de tal jeito que era como se estivessem ajudando as pessoas a não detonarem seus próprios cafés: “No passado, com frequência vimos pessoas usando erroneamente a máquina de maneiras aventureiras, colocando os grãos no tanque de água e vice-versa, enchendo de água a câmera de torra etc. Um dos objetivos é tornar a máquina o mais fácil de operar possível,” escreveu a empresa. Mas muitos apoiadores acreditavam que ela deliberadamente os enganou e tinha planos de apresentar esse recurso desde o começo.

Havia motivos para suspeitar desse subterfúgio. O fundador da Bonaverde, Hans Stier, esteve anteriormente envolvido com outra startup chamada Kaffee Toro, um serviço de entrega de grãos de café por assinatura. Ele prometia que os assinantes receberiam uma máquina de torrar-moer-passar café gratuitamente, de modo que eles teriam uma forma de passar o café a partir dos grãos comprados, como se fosse um tipo de bônus por assinar o serviço.

A Kaffee Toro foi à ruína e, a princípio, parecia que Stier tinha isolado a ideia da máquina para começar a Bonaverde. A introdução das etiquetas RFID, porém, levou alguns apoiadores a acreditarem que Stier estava bolando uma forma de reintroduzir seu conceito original, da antiga Kaffee Toro. Em vez de transformar a máquina em um negócio próprio, eles alegam, Stier fez engenharia reversa no modelo de negócios da sua primeira startup, mudando o apelo de vendas para a máquina, mas dissimulando a venda de grãos como uma ideia posterior. Diferentemente do pano original para a máquina, o modelo máquina-mais-grãos é um muito mais rentável à Bonaverde, já que ele transforma a venda única de hardware em um compromisso pela compra de cafés através da empresa.

Stier nega que a mudança do RFID no projeto tenha sido pré-planejada. “É muito importante para mim dizer novamente que não planejávamos implementar o RFID antes ou durante a campanha no Kickstarter. Isso só veio depois,” afirmou ele.

A Bonaverde acabou cedendo aos injuriados apoiadores ao anunciar que ofereceria etiquetas RFID especiais, reutilizáveis, para que eles pudessem usar quaisquer grãos. Mas muitos continuaram irritados; eles não acreditam mais que o projeto esteja sendo conduzido com boa fé e exigem o reembolso. E não conseguem obtê-lo.

As coisas esquentaram ainda mais quando a Bonaverde adiou novamente o prazo este mês, agora com data de lançamento para meados de 2015 – outro atraso para uma máquina que muitos apoiadores nem querem mais.

Quando falei com Stier, ele admitiu que a Bonaverde “ferrou” o cronograma e o design do projeto, mas disse firmemente que a visão essencial está intacta e que a Bonaverde começaram a produzir as máquinas em massa independentemente da vontade dos apoiadores. Ele também parece acreditar no que diz quando fala que a ideia da RFID veio quando a Bonaverde diz que veio.

Irritando os apoiadores

É uma história difícil de engolir para muitos apoiadores do projeto:

Reclamação contra a Bonaverde (1)

Reclamação contra a Bonaverde (2)

Reclamação contra a Bonaverde (3)

No Indiegogo, as pessoas também estão bravas:

Reclamação contra a Bonaverde (4)

“Não tem como pagarmos às pessoas que já nos financiaram e não acho que seja razoável colocar em risco um projeto que está operando tão suavemente, tão bem, que está quase no prazo se comparado às centenas de milhares de projetos do Kickstarter,” Stier me disse quando perguntei sobre os reembolsos.

Apoiadores descontentes iniciaram um fórum para facilitar a coordenação das suas ações legais. “Estamos recebendo diferentes ideias sobre como usar as leis de proteção ao consumidor em nossas várias jurisdições para termos certeza de que estamos protegidos e de que teremos nossos reembolsos. O problema é que a Bonaverde é sediada na Alemanha,” disse o infeliz estudante de Direito e financiador Tony Godfrey.

Esta é uma briga que os apoiadores planejam levar até à Suprema Corte. E ela é toda sobre um desentendimento fundamental em dois pontos: o que a Bonaverde deve aos apoiadores e se a decisão de usar um sistema fechado viola a visão da missão de crowdfunding original.

Por mais que haja argumentos acerca do segundo ponto, a decisão de implementar RFID parece muito algo que muda radicalmente a natureza do projeto. Se eles conseguirem provar suas alegações de que a Bonaverde os enganou de propósito, terão uma ótima chance nos meios legais… embora ainda tenham um grande problema pela frente.

Como Stier nota, os apoiadores do Kickstarter não estão pagando por um produto, eles estão embasando uma visão. Não importa o quão justamente eles estejam se sentindo enganados; de acordo com as regras do Kickstarter, a Bonaverde não lhes deve a máquina de café pela qual eles originalmente investiram dinheiro desde que a empresa tenha uma explicação.

Aliás, onde está o Kickstarter no meio disso tudo? Convenientemente, fora da confusão, como indica sua política de prestação de contas.

“É da nossa política não comentar sobre projetos individuais,” disse um porta-voz do Kickstarter quando o questionei sobre o caso. As declarações do Kickstarter sobre o que os criadores de projetos devem aos apoiadores é bastante clara ao dizer que o site não se envolverá:

Quando um projeto é financiado com sucesso, o criador é responsável por completar o projeto e entrega cada recompensa. A obrigação fundamental dos apoiadores é finalizar todo o trabalho que foi prometido. Uma vez que o criador faça isso, ele cumpriu suas obrigações para com os apoiadores.

Ao mesmo tempo, os apoiadores precisam entender que o Kickstarter não é uma loja. Quando você financia um projeto, está ajudando a criar algo novo – não pedindo alguma coisa que já existe. Há a chance de que algo aconteça que impeça o criador de conseguir finalizar o projeto conforme o prometido.

Embora os apoiadores tenham uma situação diferente caso consigam provar que a Bonaverde estrategicamente escondeu um plano para tirar-lhes mais dinheiro, eles não têm essa prova ainda e suas opções para forçar a Bonaverde a devolver o dinheiro são limitadas.

Financiar uma visão vs. Comprar um produto

Ok, o Kickstarter não é um lugar para comprar coisas. Nem é uma oportunidade de investimento. É um lugar para apostar, para ajudar criadores a trazer suas visões para projetos futuristas à realidade. Às vezes, essas visões podem mudar dramaticamente. Isso é algo que todos que querem entrar no mundo do crowdfunding deveriam ter em mente.

Mas a completa falta de formas de recorrer aos apoiadores pode causar danos enormes à credibilidade do Kickstarter se projetos como esse continuarem pipocando. A política da empresa diz que ela permanece com a porcentagem das doações mesmo que um projeto não dê em nada aos apoiadores. Isso é bom para o Kickstarter, uma droga para os usuários.

Não é certo e provavelmente também não é sustentável. E um motivo pelo qual o Kickstarter deveria oferecer uma política de seguro para proteger os usuários de situações como a da Bonaverde. O Indiegogo está testando um plano de seguro para apoiadores quando projetos falharem sem cumprir suas promessas. Isso é uma coisa boa.

Por outro lado, é ilegal enganar pessoas intencionalmente em troca do dinheiro delas – mesmo no mundo do crowdfunding. Se os apoiadores conseguirem provar que a Bonaverde deliberadamente os enganou sobre o projeto desde o início, eles talvez consigam a intervenção do Kickstarter e/ou levarem o caso à justiça. Já houve um caso onde o governo do estado de Washington ingressou com uma ação representando pessoas enganadas por uma campanha do Kickstarter. Ou seja, há precedente.

Por ora, essa situação é um lembrete de que você está basicamente doando seu dinheiro quando financia alguma coisa no Kickstarter. É um lembrete de que você não tem garantias e opções limitadas para recorrer se der o azar de cair em uma campanha irreal ou um projeto que fracasse, e que a comunidade de crowdfunding deve pressionar por garantias adicionais se quiser manter a credibilidade e popularidade do seu serviço mais conhecido. Originalmente, o Kickstarter tinha uma política rígida de veto para os projetos que abrigava, mas em junho a empresa relaxou o processo colocando-o mais próximo do que rola no Indiegogo, que não bane nada que não seja ilegal, regulado ou perigoso.

Diferentemente do desastroso Kreyos Meteor ou incontáveis outros muito adiados ou apenas fracassados projetos, a Bonaverde está com a fabricação em curso do seu ambicioso projeto. A empresa planeja lançar uma máquina que torra, mói e passa café. É inegável que o cronograma está bem atrasado, mas no Mundo do Kickstarter, não é um atraso obsceno. (Existe uma máquina de espresso financiada em janeiro de 2012, com mais de US$ 300 mil até agora, que ainda não se materializou.)  Pelo menos a Bonaverde está progredindo e mantém seus apoiadores atualizados… mas o fato de o esboço geral do projeto parecer relativamente bom comparado a outros completamente fracassados e scams puros e simples é uma evidência das fraquezas do crowdfunding.

Quando mais projetos continuarem a desmoronar na confiança do público, mais a reputação dos sites de crowdfunding sofrerá. O Kickstarter deveria demonstrar um interesse maior em casos como esse ou arrisca colocar em perigo a fundação do seu apelo.