Desde que conhecemos esta dupla, videogames foram videogames e jogos de tabuleiro foram jogos de tabuleiro. Mas com o avanço da tecnologia, será que os dois podem vir a se tornar uma coisa só?

Sempre houve uma divisão bem simples entre os dois: um meio envolve jogar em um equipamento de computação, enquanto o outro envolve jogar em sobre uma mesa, com um tabuleiro, cartas ou peças, usando um conjunto de regras. Um é virtual, o outro é físico; e apesar de similaridades temáticas, os dois sempre foram entidades bem distintas.



Enquanto avançamos no século 21, porém, esta divisão está ficando menos clara. Os videogames têm recebido conversões de jogos de tabuleiro há muito tempo, mas com a popularização das plataformas de comunicação online como a Xbox Live, velhos favoritos das mesas, como Uno e Settlers of Catan, estão ressurgindo e ganhando toda uma nova geração de fãs… nos videogames.

Uma tendência nova e ainda maior tem aparecido recentemente no mundo dos jogos de tabuleiro, onde as coisas se movem na direção oposta. Graças à natureza e interatividade do Microsoft Surface, que é basicamente uma enorme tela de toque que serve como mesa, os jogos que antes precisavam apenas de lápis, papéis e dados agora são decididamente digitais. 

O SurfaceScapes, um projeto atualmente desenvolvido no Centro de Tecnologia para Entretenimento da Carnegie Mellon University, está na vanguarda deste movimento. Os estudantes da equipe trabalham em uma prova de conceito para um programa de jogo para Dungeons & Dragons (quarta edição) que rode e utilize as capacidades do Surface. Eles já conseguiram resultados impressionantes.

A versão digital que eles construíram para um venerado jogo de mesa mantém o uso de objetos físicos como miniaturas e os famosos dados de RPG, mas introduzem vários recursos que somente são possíveis graças ao Surface, como sequências de animação no "tabuleiro" e feedback constante sobre sobre as condições e progresso dos personagens no jogo. 

Esta sinergia é alcançada modificando os elementos de "mundo real" do jogo para que o Surface os possa reconhecer. Com a colocação de sensores nas peças dos personagens e nos dados, a mesa é capaz de reconhecer os seus movimentos e atualizar o tabuleiro de acordo.

Outro projeto semelhante está em desenvolvimento interno na própria Microsoft, a criadora do Surface. A equipe está trabalhando em outro famoso jogo de tabuleiro, Settlers of Catan, o clássico jogo alemão de colonização e conquista.

Ambos os projetos são notáveis não apenas pela forma como eles conseguem fazer jogos de mesa ficarem muito mais impressionantes visualmente, mas também por causa das melhorias que trazem aos jogos por baixo dos panos. Sendo computadores, plataformas como o Surface não estão lá apenas para dar uma embelezada nos gráficos e proporcionar sons; o seu poder de processamento pode ser usado para tornar o ato de jogar estes jogos ainda mais fácil, tirando das mãos (e dos cérebros suscetíveis a erros) dos jogadores coisas chatas como cálculo de pontuação, estatísticas e mesmo o ato de embaralhar e distribuir peças, cartas etc.

Apesar dos gráficos bonitinhos, dos controles via tela de toque e do poder de processamento serem o que mais chama atenção num primeiro momento, eles não são as maiores melhorias feitas aos jogos originais pelas versões digitais. Essas são um pouco menos tangíveis, um pouco menos imediatas.

"Hoje, se você quiser jogar um jogo de tabuleiro digital, geralmente será uma partida solo ou experiência multiplayer desconectada (jogadores em aparelhos diferentes, em locais diferentes)", diz ao Kotaku Joe Engalan, da Vectorform Game Studio – a equipe responsável por Surface Catan. Dyala Kattan-Wright, da equipe do SurfaceScapes, continua: "a mesa é um ótimo lugar para reuniões de família e entre amigos, e jogos são uma interação maravilhosa".

É o fato de que, apesar de todos os avanços tecnológicos e melhorias na apresentação que traz um aparelho como o Surface, o ponto-chave é que estes avanços estão sendo feitos ainda com o conceito de um grupo de pessoas em volta de uma única mesa. Sem a necessidade de conexões online ou telas divididas.

Parece incrível quando você olha para os pontos positivos como este, mas existe, obviamente, um grande obstáculo para que isso se torne "mainstream": a disponibilidade e preço da tecnologia necessária. O Surface fica ótimo em vídeos e é ótimo para jogar em pessoa, mas é grande e muito caro – unidades comerciais são vendidas por cerca de US$ 12.500 cada. 

"O custo do Surface é definitivamente uma enorme barreira de entrada para que as pessoas possam curtir o SurfaceScapes", diz Kattan-Wright. "Consumidores médios podem ser capazes de comprar um deles (ou um sistema similar) logo, mas provavelmente demorará alguns anos para que a tecnologia se torne barata o suficiente e com grande disponibilidade".

E mesmo quando isso acontecer, não é o tipo de coisa que vai começar a aparecer pelas salas de estar do mundo inteiro. As pessoas já têm mesas, e a maioria delas não vai querer gastar mais dinheiro, ou liberar espaço em casa, para uma dessas. 

Uma solução em potencial para isso (e algo até bem empolgante) é a intenção da Microsoft em explorar coisas como o SurfaceScapes e o Catan Surface em estabelecimentos comerciais. Você talvez não vá poder curtir estes jogos em casa, mas se houvesse uma arena dedicada a isso – como uma casa de jogos ou um café –, você poderia ir lá para jogar. 

Se estes dois projetos – certamente os primeiros de muitos que aparecerão com o passar dos anos – são um exemplo de jogos de mesa e tabuleiro se tornando mais como videogames, enquanto os videogames em si se tornam cada vez mais simples, com uma ênfase cada vez maior em acessibilidade e formas mais diretas de controle, será que em algum momento do futuro nós chegaremos a um ponto em que estes dois meios completamente diferentes juntem-se como uma coisa só? 

"Espero que sempre exista um segmento de pessoas que goste de sentar ao redor de uma mesa para jogar algo", diz Todd Breienstein, o criador de Zombies!, um dos mais populares jogos de mesa de todos os tempos. "Para nós, o aspecto social de jogar é tão importante quanto o jogo em si. Há um valor na interação social associada aos jogos de mesa. Seria mesmo muito triste se as pessoas perdessem a necessidade de ter contato humano".

É um sentimento compartilhado por Kattan-Wright. "É provável que vejamos os jogos de tabuleiro tomando emprestado mais elementos dos videogames, mas é muito importante manter certos aspectos, como a narrativa social compartilhada, nas mãos dos jogadores e não relegada a um computador."