Filipe Vilicic é jornalista e cobre a área de tecnologia. Por três anos, ele pesquisou a história de como Michel, aluno de uma escola internacional de São Paulo, virou Mike ao ingressar na Universidade de Stanford, e trouxe à luz os detalhes da mirabolante negociação de Kevin Systrom (principal acionista do Instagram) com Mark Zuckerberg, do Facebook, durante a Semana Santa de 2012. Dessa pesquisa nasceu seu novo livro, O clique de 1 bilhão de dólares, que descreve com riqueza de detalhes o ambiente competitivo, frenético e machista do Vale do Silício, região nas imediações de San Francisco que concentra as mais conhecidas empresas de tecnologia como o Google, o Facebook e o Twitter, e é habitada por personagens excêntricos e ambiciosos. O prólogo do livro foi reproduzido com autorização da Editora Intrínseca. Leia:

A semana da Páscoa de 2012 foi decisiva, cheia de reviravoltas, na vida do brasileiro Michel Krieger, mais conhecido como Mike. Na Sexta-Feira Santa, 6 de abril, o paulistano radicado no Vale do Silício desde 2004 aguardava, ansioso, um telefonema. Esperava notícias de seu sócio, o americano Kevin Systrom, com quem dois anos antes havia criado o Instagram, uma das redes sociais mais populares do mundo. É fácil imaginar Mike olhando constantemente para a tela de seu iPhone, à espera da notícia que poderia transformá-lo em um multimilionário. Ele passou aquele dia em sua casa, um cômodo de um sobrado próximo ao parque Alamo Square, cartão-postal de São Francisco, logo ao lado da sede de seu Instagram. Estava acompanhado por Stefanie, sua irmã mais nova, uma loira de estatura baixa, cabelos lisos e olhos claros amendoados, que viera de Nova York para uma visita.

Enquanto os irmãos paulistanos confraternizavam, a uns cinquenta quilômetros dali, o outro fundador do Instagram, Kevin, administrava uma conversa muito mais tensa. Falava com Mark Zuckerberg, o jovem bilionário que havia se transformado em celebridade por ter criado o Facebook oito anos antes. Kevin e Mark se conheciam havia tempos. Quando o primeiro ainda era um universitário em Stanford, ele recebeu um convite do segundo para se juntar ao Facebook. Para surpresa de Zuckerberg, conhecido por jamais ter visto a experiência universitária como algo de real valor (afinal, havia largado Harvard para se dedicar ao Facebook, logo no início da empresa), -Kevin recusou a oferta porque queria se dedicar aos estudos. Por um breve período, chegou a ter um emprego como atendente em um café, onde, por acaso, se reencontraria com o criador do Facebook. Zuckerberg deve ter se espantado ao dar de olho com aquele menino desengonçado, com mais de 1,90 metro, jeito de nerd e a mania de começar e terminar as frases com um sonoro “yeah”. Como poderia ele ter trocado uma oportunidade de ouro numa ascendente empresa do Vale do Silício pelo trabalho de servir cappuccinos?

Zuckerberg voltaria a olhar com curiosidade para Kevin em 2010, quando este, junto com Mike, criou o Instagram e tomou de assalto a indústria de aplicativos (os apps) para smartphones. A dupla não só construiu uma rede social bem-sucedida, como entrou no negócio dominado por Zuckerberg com pompas. Naquela primavera de 2012, já passavam dos 30 milhões os instagrammers, como ficaram conhecidos os usuários do Instagram. Depois do sucesso da rede em iPhones, Mike havia lançado naquela semana o app para Android, o sistema operacional do Google que rivalizava com o iOS, dos iPhones e iPads da Apple.

O brasileiro e sua equipe passaram meses de noites maldormidas para finalizar a versão para Android. Uma rotina normal para Mike, acostumado ao ritmo alucinante das startups (alcunha dada a uma categoria de recém-surgidas empresas de inovação, normalmente ligadas à tecnologia, que nascem com dinheiro de investidores e possuem a ambição de liderar o segmento de mercado em que atuam). Aliás, não só havia se acostumado, como também sentia prazer em suar muito a camisa e aquecer o cérebro com algoritmos e designs de interfaces de apps.

Desde a infância, Mike alimentava o gosto por permanecer horas em frente ao computador, programando. Na adolescência, nos anos de ensino médio, madrugava no colégio bilíngue em que estudava em São Paulo, fazendo trabalhos de cursos extracurriculares que normalmente tinham um pezinho em tecnologia. Alternava o computador com o papo com os amigos, o violão e a pizza. Antigos colegas e professores se lembram de sua dedicação e facilidade em lidar com hardwares e softwares. Mas ele estava longe de se portar como um típico nerd. Pelo contrário, com frequência era visto sentado nos corredores, ensaiando alguma música indie em seu violão (ele também cantava, mas não tão bem). Mike era visto por alguns como um dos garotos mais interessantes da escola.

O resultado do trabalho árduo sempre lhe trouxera compensações. Naquela semana, não seria diferente. Dedicou manhãs, tardes, noites, feriados e fins de semana para desenvolver o app para Android. Com apenas mais dois engenheiros na equipe, ele havia feito o que seria considerado tarefa hercúlea até para uma equipe de dezenas de programadores e designers formados pelas melhores universidades dos Estados Unidos e contratados pelas mais importantes empresas do Vale do Silício. O resultado veio com festa. Em um dia, conquistaram mais de 1 milhão de novos instagrammers, o que foi comemorado com coquetéis e uísque, numa celebração que se tornara habitual. Até hoje há no escritório uma cristaleira — a mesma desde os primórdios da empresa — cheia de bebidas, pronta para esse tipo de evento, tão frequente na história de sucesso do Instagram.

A semana estava frenética para o brasileiro. Com o sucesso alcançado no Android, sua rede social se consolidou como a bola da vez em smartphones e tablets. O feito amedrontava o todo-poderoso Facebook, rede que passava do bilhão de usuários, mas que era constantemente questionada sobre sua fraca atuação nos dispositivos móveis. Nas revistas especializadas, tornou-se recorrente uma análise que certamente incomodava Mark Zuckerberg: o Instagram estava roubando jovens usuários do Facebook e, assim, poderia até mesmo substituí-lo em um futuro próximo. Na batalha entre os reis do Vale do Silício, o maior medo é a perda de súditos — os usuários —, o que indica o início do caminho para a irrelevância.

Em um pequeno universo povoado por engenheiros e programadores milionários, o dinheiro talvez só importe menos do que o gosto doce da fama e do poder. Mais que uma conta bancária de respeito, todos querem o sucesso e o status decorrente. Se o empreendimento rui, tudo vai por água abaixo. Aos olhos do mundo, principalmente da mídia, que se deleita ao narrar a ascensão e queda dos impérios digitais, o nascente Instagram representava um possível primeiro capítulo da derrocada do Facebook. Uma história que soava como um final apetitoso para uma típica novela americana e abalava os investidores por trás do império de Zuckerberg.

Desde que Kevin deixara de ser o garoto que servia café e se tornara um célebre visionário do Vale do Silício, ele e Zuckerberg se encontravam frequentemente na mansão do bilionário em Palo Alto para “filosofar”, segundo diziam. Os encontros também poderiam ser vistos como uma tática à la Sun Tzu, uma estratégia inteligente de batalha. Falavam do rumo de suas empresas, de startups que surgiam, mas também de assuntos banais. Deviam pintar, por exemplo, conversas sobre a mais recente temporada de Game of Thrones, a série de TV baseada nos livros de George R.R. Martin que mostra as artimanhas de nobres poderosos disputando o poder no reino fictício de Westeros. Era um dos programas favoritos de Zuckerberg, condizente com a imagem de nerd que detinha, junto à fama de frio, calculista, vingativo e machista que acabou por ganhar.

Entre um assunto e outro, Zuckerberg deixava claro seu imenso interesse pelo Instagram. O chefão do Facebook não só sentia a ameaça, como crescia os olhos em cima do app. Naquela mesma semana, Zuckerberg havia consolidado uma oferta de 500 milhões de dólares pelo aplicativo de Mike e Kevin. Era o equivalente a uma oferta vinda do Twitter, maior antagonista do Facebook. Dois dias antes, Kevin telefonara para Zuckerberg e Dick Costolo, CEO do Twitter, para educadamente recusar ambas. “Não está na hora de vender”, dizia o brasileiro Mike a quem fazia perguntas sobre o assunto. “Estamos longe disso”, reiterava.

Mike e sua equipe eram conhecidos por serem avessos a trabalhar em grandes empresas. Recatado, sem pendor para os holofotes, o brasileiro havia dito no passado que preferia o clima intimista das startups. E era essa atmosfera que implantava na sua: sentava-se lado a lado com os demais funcionários, promovia a informalidade típica das empresas do Vale do Silício, um mundo habitado por hippies, surfistas, aventureiros e nerds, onde tudo ocorre a uma velocidade inigualável se comparada a outras indústrias. Aqueles profissionais parecem movidos a energético — ou Adderall, um perigoso, mas eficiente, psicoestimulante comumente usado pelos trabalhadores do Vale, ao lado de tantas outras drogas, legais e ilegais, para aguentar rotinas puxadas. Ações na bolsa sobem e caem, startups ganham milhões para perder tudo no mês seguinte. O lugar é dominado pelo espírito aventureiro de seus habitantes, pessoas impetuosas, acostumadas a mudar de vontade, e opinião, na mesma velocidade com que trocam seus MacBooks.

Enquanto esperava pela ligação do sócio, junto com a irmã, Mike devia estar se recuperando de uma tremenda ressaca de trabalho. Além da maratona para desenvolver o app para Android — cujo lançamento já causava sobrecarga nos servidores —, e das recusas de compra, Mike tinha passado o dia anterior em Palo Alto junto com Kevin, procurando levantar mais 50 milhões de dólares em investimentos para sua startup (com isso, já haviam capitalizado, no total, 57,5 milhões).

Mike parecia cada vez mais acostumado com esses números fora de órbita para um cidadão comum. No Vale, é taxada de fracassada qualquer empreitada sem algumas dezenas de milhões de usuários e que não valha ao menos algumas centenas de milhões de dólares. Já era um fato incontornável: depois de pouco menos de dois anos de trabalho no Instagram, ele inevitavelmente se tornaria milionário, garantindo oficialmente seu lugar no Olimpo de silício. Com a startup avaliada em 500 milhões de dólares, o brasileiro era um homem de ao menos 50 milhões, equivalentes a seus 10% da empresa. Mal sabia Mike que ele seria pivô de um movimento que elevaria ainda mais esse padrão. O Instagram logo se tornaria símbolo de uma era em que o sucesso de startups californianas passaria a ser medido em bilhões.

O telefonema de Kevin só aconteceu depois de horas de conversas na mansão de Zuckerberg. Já se esperava que o papo com o CEO do Facebook acabaria, inevitavelmente, em alguma proposta tentadora de aquisição. Mesmo assim, Mike até então expressava apenas sua convicção de que ainda tinha tempo pela frente antes de engordar sua conta bancária. A venda lhe soava tão improvável quanto a aquisição de um carro. Ou seja, para um ciclista convicto como Mike, beirava a zero. Em pouquíssimo tempo, porém, ele teria de rever seus conceitos, tanto em relação ao carro quanto ao Instagram.

Kevin finalmente revelou o quanto a conversa havia sido promissora. Melhor, não se tratava mais de uma conversa, mas de uma negociação. Quando Mike saísse de casa para pegar o trem para Palo Alto, buscaria não aqueles 50 milhões, mas sim 100 milhões de dólares. Kevin havia batido o martelo com seu amigo (e agora patrão) Zuckerberg: 1 bilhão de dólares. O Instagram mudaria a sede para Menlo Park, localização do campus do Facebook. E Mike nunca mais conseguiria ir para o trabalho de bicicleta.


 

capa_OCliqueDeUmBilhaoDeDolares_g  O texto acima é o prólogo do livro O clique de 1 bilhão de dólares, do jornalista Filipe Vilicic, publicado pela Editora   Intrínseca e reproduzido com autorização. Clique aqui para saber mais informações sobre o livro.