No início do ano, a LG mostrou suas novas TVs 3D com tecnologia “passiva”, usando basicamente os mesmos óculos de cinema. Uma nova película colocada sobre a tela prometia as mesmas imagens saltando da tela, só que mais brilhantes, com menos dor de cabeça e acessórios mais baratos. Batizada “Cinema 3D”, a alternativa às atuais TVs 3D com “óculos ativos” (todas as que estão no mercado hoje) deu início a uma nova guerra de formatos. Uma guerra essencialmente coreana, já que LG e Samsung dominam nosso mercado de televisores. O presidente da Samsung disse que a LG estava enganando os consumidores, que a diferença de qualidade – em favor da atual tecnologia dominante – era “noite para o dia”. A LG firmou-se em suas convicções e promete um enorme barulho no Brasil quando as TVs chegarem no próximo mês. Nós testamos.

E aprovamos, com algumas pequenas ressalvas de gente chata que somos. Há alguns bons motivos para acreditar que o formato passivo será o dominante pelo menos no Brasil, quando o 3D decolar de fato. Mas para entender por quê, vamos olhar a evolução recente das três dimensões na diversão doméstica.

 

Como é a TV 3D hoje

As primeiras TVs 3D começaram a ser lançadas no Japão em 2009 e contavam com a atual dominante tecnologia dos óculos ativos, que explicamos (entre outras) aqui. Como fator positivo, elas tinha incrível detalhe (Full-HD) e noção de profundidade e de coisas saltando da tela bem definidas. Como problema, imagens muito escuras e o chamado “cross-talk”, quando a imagem de um olho invade a outra, além do mal estar pela piscada constante dos óculos.

No Brasil, as TVs com capacidade para reproduzir conteúdo 3D chegaram em pequena quantidade no fim de abril de 2010, custando algo na faixa de R$ 8 mil em diante. LG e Samsung correram para chegar ao mercado com alguns modelos antes de todo mundo. Modelos não muito bons em relação ao preço, diga-se. Sony, Panasonic e Philips esperaram mais alguns meses, mas também entraram na onda, com TVs um pouquinho melhores. O fato é que, para o consumidor, o recurso a mais não pareceu atrativo – ou não valia toda a grana adicional, especialmente pela falta de conteúdo. As TVs que tocavam coisas em 3D foram responsáveis por menos de 1% do aquecido mercado brasileiro. Já explicamos aqui que normalmente as “TVs 3D” são as melhores TVs no geral – melhor painel, contraste, recursos e etc. Mas o problema maior é que elas tinham um preço inflacionado demais para um recurso que é basicamente uma função nova do chip de processamento de imagens. O resultado é que muitas dessas TVs ficaram encalhadas, e vemos hoje, menos de um ano depois, modelos saindo por menos da metade do preço original. Será que todo mundo não se apressou demais?

Sim. Enquanto hoje, nos EUA, já há 20 canais transmitindo algum tipo de conteúdo em 3D e uma quantidade bem razoável de títulos em blu-ray e jogos, aqui as TVs 3D simplesmente não têm o que passar. Faltam filmes, jogos e programas de TV. As TVs são caras, e poucas pessoas podem assistir o pouco conteúdo que existe. É hora de reiniciar o mercado e fingir que nada aconteceu até agora.

 

Como é a TV 3D “passiva”

http://www.youtube.com/watch?v=W4uvwHt_5Cs

Dar um completo reboot é mais ou menos o que fez a LG. Depois de correr para chegar na frente e até mostrar algumas TVs com tecnologia de óculos ativos no início do ano, a coreana decidiu mudar de estratégia. Fingiu que suas TVs de LCD e LED com os óculos ativos não existiam e decidiu colocar todas as fichas no que poderia ser seu diferencial, esquecendo que ano passado ela era uma das maiores propagandeadoras do 3D “velho” (e que ainda vende plasmas com a tecnologia). Depois de alguns anos de pesquisa e uma quantidade não revelada de dinheiro, a LG Displays (que fabrica telas para várias empresas, como Philips e Apple) inventou o Film Patterned Retarded (FPR), um filtro colocado sobre a tela. Como funciona:

Enquanto a TV de óculos ativos manda a imagem inteira para cada olho, alternadamente (com os óculos fazendo o trabalho de “piscar”), a tecnologia passiva coloca as imagens para os dois olhos na tela ao mesmo tempo. Cada linha vertical da tela corresponde a um pedaço de imagem para cada olho: os frames são divididos alternadamente – sem óculos a imagem parece estar bizarramente duplicada. Então a primeira linha é a primeira linha da imagem do olho esquerdo, a segunda linha é a primeira linha do olho direito e assim por diante. Na prática, como você deve ter percebido, isso faz com que a resolução não seja, nominalmente, “Full-HD”. Sã0 540 colunas de resolução multiplicado por 2. O que é diferente de 1080 da mesma imagem. Mas, no cérebro, o efeito é parecido (mais sobre isso depois).

Uma espécie de “película” é colocada sobre a tela, o que a LG chamou de FPR. A película consiste em “separadores” que se alinham perfeitamente com as linhas verticais da tela e mudam a frequência de onda para as imagens do olho direito e esquerdo. O óculos polarizador nada mais é que um “intérprete”: a lente do olho esquerdo é diferente da do olho direito, e só vê as imagens daquela frequência, conforme o FPR. Aí o seu cérebro junta as imagens “diferentes” e cria a sensação de profundidade.

(Nota: infelizmente a Bar Refaeli da foto só esteve no lançamento da Cinema 3D em Barcelona, mas era melhor que qualquer registro nosso de imagens embaralhadas)

 

Por que ela vai fazer sucesso?

Em uma palavra: óculos. Não tenho dúvida que o 3D sem óculos em telas grandes a um preço factível chegará o mercado em 5 anos. Mas hoje, precisamos de óculos. E os óculos passivos são inquestionavelmente mais confortáveis e mais baratos (custarão cerca de R$ 40, contra R$ 250 dos “ativos”, que precisam de bateria). Como a tecnologia é simples, é possível até usar um “clip-on” sobre os óculos normais de grau. Com tudo isso, as TVs Cinema 3D chegarão ao mercado com pelo menos 4 óculos em cada kit, contra 2 (ou zero) atualmente dos ativos, pelo mesmo preço. O que vai atrair bem mais gente que quer demonstrar a tecnologia para outros e, especialmente, em eventos esportivos. A final da Champions League foi transmitida em 3D para algumas cidades. Ver em evento assim com o pessoal só é possível se os óculos estiverem baratos. A tecnologia atual de óculos ativos nas telas de LCD-LED precisa que você esteja bem “em pé” em relação à tela para perceber o efeito. Já com os óculos polarizadores, é possível ver o 3D mesmo que você esteja meio de lado (inclusive deitado), permitindo que mais gente veja na sala.

Outro fator interessante é que a tela parece ser mais clara. Um dos problemas dos óculos ativos é que o piscar constante e as lentes espessas dão a impressão de que a imagem é mais escura. Nos nossos breves testes, a Cinema 3D pareceu efetivamente mais brilhante. E por último mas não menos importante, há a questão de saúde. Para muita gente, 3D faz mal. O impacto das imagens em três dimensões é variável para cada pessoa, de náuseas a dor de cabeça a basicamente nada. A LG diz que a tecnologia FPR dá menos mal-estar no geral, mas isso é difícil de verificar antes de testes mais prolongados. O problema pode ser inerente ao 3D, a como as imagens “enganam” o cérebro. A FPR é uma tecnologia semelhante à do cinema, e no cinema muita gente também não se sente bem ao ver filmes em 3D (especialmente depois do péssimo último Piratas do Caribe). O que é realmente diferente aqui é o “pós-sessão”. Em todas as atuais TVs 3D que testei, logo depois que você tira os óculos depois de uma sessão prolongada sente um certo desconforto visual – provavelmente pelo excesso de piscadelas automáticas. Tanto é verdade que nos manuais dessas TVs, aconselha-se não dirigir depois de ver algo em 3D. Com a Cinema 3D não sentimos isso.

A LG chamou jornalistas brasileiros para um festival de cinema que patrocinava em Hollywood para mostrar seus modelos e para que pudéssemos conversar com especialistas em 3D. Em um momento raríssimo de guerra pública, os executivos da LG colocaram o último modelo da TV 3D da Samsung de óculos ativos ao lado da Cinema 3D e rodaram os mesmos clipes para que comparássemos a qualidade. O que percebemos foi mais ou menos o que foi alardeado: mais brilho, menos desconforto na TV da LG. O efeito 3D tinha a mesma profundidade e coisas saltando da tela. Isso garante que é uma tecnologia superior? Difícil dizer sem maiores testes. Especialmente porque não acho que a TV 3D da Samsung seja o melhor exemplo da tecnologia “velha”. Precisaríamos, por exemplo, colocar a VT20 da Panasonic, que tem uma imagem mais bem definida e quase sem cross-talk, para fazer uma comparação mais justa.

A grande crítica sobre o novo sistema é em relação ao “não Full-HD”. De fato, em uma imagem estática, olhando com cuidado, a LG parece ter uma resolução inferior. Mas, de novo, acontece mais se você se concentrar em achar as falhas – o cérebro normalmente é bem enganado. Um problema claro é que movimentos rápidos não são exatamente suaves (um problema comum a várias TVs 3D) – tanto que o vídeo de demonstração abusava da câmera lenta. Os executivos da LG insistiam na “ilusão de Full-HD”, que era igual. Mas a Consumer Reports, talvez a mais importante instituição de avaliação de produtos, disse o seguinte:

Nós concluímos que, apesar do que é alegado, a LG LW5600 não foi capaz de produzir imagens reais em 1080p no modo 3D. A perda de resolução foi aparente nas nossas telas de teste, bem como na programação normal, onde nós vimos arestas serrilhadas em objetos que deveriam ser suaves, e em linhas quebradas que deveriam parecer continuas. O problema foi especialmente visível em gráficos e texto, onde podíamos ver linhas de scan. Mas em vídeo natural (pessoas, cenas naturais), a falta de resolução e artefatos relacionados foram menos aparentes e nunca tiraram a atenção.

A minha opinião, compartilhada entre a maioria dos jornalistas, é que a troca de qualidade por comodidade, preço e brilho, valha a pena – especialmente porque a “menor qualidade” não é percebida por todo mundo. Ainda acreditamos que o que deve pesar não é só a qualidade do efeito 3D, mas a TV como um todo: o contraste, ausência de vazamento de luz, entre outros recursos. Mas a LG, que ultimamente fazia TVs apenas boas (e muito bonitas) volta a entrar na briga no segmento mais high-end. O mais importante aqui é que a tecnologia, como falamos, é da LG Displays, que vende paineis para outras empresas (Philips, na Europa, e Vizio nos EUA já estão vendendo modelos com a tecnologia). Se ela for bem nas vendas, não duvide que outras empresas adotem o 3D “passivo” – é o que apostamos.

A LG promete que as Tvs com 3D passivo cheguem ao mercado em julho, “ao mesmo preço do 3D atual”, ou seja, algo perto de 20% mais caro que os modelos “normais”. O de 47 polegadas, por exemplo, tem preço sugerido de R$ 5.299. O 3D virá em 3 linhas de produtos com modelos de 32”(pela primeira vez na televisão) a 55”. Todas elas, independente do preço, serão Smart TVs, com conectividade à internet (incluindo um browser completo), DLNA e acesso a alguns apps e locadoras como Netmovies, Saraiva e Terra. Ainda este ano, as TVs terão acesso ao Netflix brasileiro com uma atualização de firmware – algo que estamos bem ansiosos. Se você estiver em busca de uma TV 3D para ver as Olimpíadas de 2012 – ou os 4 blu-rays em 3D lançados até hoje – considere estes modelos coreanos.

 

* O Gizmodo Brasil viajou a Los Angeles a convite da LG e pisou no Tom Cruise.