Lobos e cães estão separados por 15 mil anos de evolução, período no qual as duas espécies foram para caminhos radicalmente distintos. Os cães ainda retém muitos dos seus comportamentos ancestrais, mas pouco se conhece de tendências latentes de cães entre lobos modernos. Um novo estudo de filhotes de lobo criados por seres humanos sugere que os lobos podem criar laços com os seus donos de uma forma que lembra os cães, mas é aí que as semelhanças acabam.

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Uma nova pesquisa publicada na Royal Society Open Science mostra que filhotes de lobo, quando criados por humanos, mostram sinais de ligação e afeto em relação aos seus donos, e que esses sentimentos duram até a idade adulta. O estudo também mostra que lobos extensivamente socializados ficam relativamente confortáveis ao redor de estranhos humanos, apesar de às vezes mostrarem um pouco de medo. Essas descobertas nos indicam comportamentos que podem ter levado seus ancestrais de quatro patas a procurarem conforto entre os humanos, levando ao surgimento das adoráveis lambedores de bolas de pelo que chamamos de cães.

Antes continuarmos, é importante lembrar que os lobos, mesmo aqueles criados por humanos, não são cães. Nem de longe. Este novo estudo, liderado por Dorottya Ujfalussy da Universidade Eötvös Loránd na Hungria, nos diz algo novo sobre o comportamento do lobo, especificamente, que os lobos podem se unir aos cuidadores humanos. É uma descoberta que pode se revelar significativa ao considerar o bem-estar dos animais e as questões de segurança humana enfrentadas pelos jardins zoológicos e áreas de conservação. Mas o que este estudo não nos diz é que os humanos devem começar a criar filhotes de lobo. Os lobos ainda são animais selvagens, e os ambientes humanos estão muito distantes dos seus habitats naturais.

De fato, lobos e cães são duas espécies bem distintas. Eles podem parecer semelhantes (pelo menos algumas raças de cães ainda parecem um pouco com lobos), mas mostram comportamentos profundamente diferentes. Os cães desenvolveram uma afinidade intensa e natural com os seres humanos, com exames cerebrais sugerindo que eles são mais felizes ao nosso redor do que com os membros de sua própria espécie. Quando estressado, os cães encontram conforto na presença de seres humanos, uma característica que foi introduzida por meio da domesticação. Os lobos, por outro lado, são naturalmente cautelosos com os humanos, temendo a nossa presença e nossos ambientes. E, ao contrário dos cães, eles são ferozmente independentes. Os filhotes lobo, por exemplo, muitas vezes são deixados sozinhos quando a matilha sai para caçar, dando a esses animais uma auto-suficiência quase felina. Ao contrário dos cães, os lobos nunca tiveram que depender de outra espécie.

Mas os cientistas também documentaram algumas semelhanças comportamentais entre cães e lobos. Ao se cumprimentarem, por exemplo, os lobos gostam de lamber os rostos uns dos outros, uma característica muito familiar para os donos de cachorros. Os lobos também são capazes de seguir o olhar de uma pessoa no espaço, e eles entendem gestos como um dedo apontando (nem mesmo chimpanzés são capazes disso).

lobos-1Alguns dos filhotes de lobo usados no estudo. (Imagem: Enikő Kubinyi)

Dadas essas semelhanças, Ujfalussy procurou aprender mais sobre os tipos de relacionamento que os lobos, quando socializados com humanos, podem ter com seus cuidadores. Um objetivo principal do estudo era descobrir o que faz os cães tão únicos em seu relacionamento com os seres humanos, e onde seus traços podem ter se originado. Em última análise, Ujfalussy estava tentando aprender se comportamentos de cães já estavam presentes em lobos ancestrais, ou se eles são um produto de domesticação e seleção artificial. Esta nova pesquisa sugere que o primeiro pode ser verdade. O trabalho anterior sugeriu que os lobos criados por seres humanos, com a idade de 16 semanas, não mostram nenhum apego aos cuidadores como os cães. Isso implicava que apenas os cães são capazes de formar uma forte relação pessoal com as pessoas.

“Nós achamos mesmo naquela hora que o caso não é tão simples assim e queríamos descrever o relacionamento de lobos com humanos com mais detalhes”, explicou Ujfalussy ao Gizmodo. “O que aprendemos com nosso estudo é que, embora os cachorros estejam mais ligados ao seu cuidador humano no sentido da dependência e tenham em seus proprietários uma base de segurança, os lobos também conseguem formar relacionamentos duradouros com seus cuidadores, embora sem uma noção de dependência”.

Para chegar a essas conclusões, o time de Ujfalussy conduziu experimentos usando filhotes de lobos criados por humanos. (Os experimentos foram feitos no começo dos anos 2000, mas por causa das situações pessoais do autor, os resultados acabam de ser publicados). Esses lobos vieram do Family Dog Project, uma iniciativa fundada em 1994 por József Topál e seus colegas para estudar os aspectos da relação entre os cães e os humanos. Ao longo dos anos, este projeto foi responsável por mais de 100 publicações em revistas científicas. Mas para os propósitos deste estudo, os participantes do Projeto Family Dog foram convidados a criar filhotes de lobo, da mesma forma que cuidavam dos cães (por exemplo, passeios diários com coleira, abraços, escovação, etc). Os filhotes de lobo utilizados neste estudo foram socializados intensamente com os seres humanos, tornando-os objetos ideais para experiências que mostrariam quaisquer diferenças “inatas”.

lobos-2Crédito: Ujfalussy Dorottya Júlia

Nos dois experimentos realizados, os filhotes de lobo foram submetidos a um teste nos quais foram expostos a quatro tipos de visitantes: seus cuidadores imediatos (ou “pais adotivos” como são chamados), conhecidos próximos, pessoas que só tinham visto uma vez antes e completos estranhos. No primeiro experimento, oito lobos foram expostos aos visitantes quando em companhia de outros lobos, mas para o segundo experimento, nove filhotes de lobo tiveram que ir sozinhos.

“Em nosso primeiro experimento, optamos por uma condição grupal, na medida em que pretendemos manter as visitas tão livres de estímulo quanto possível”, disse Ujfalussy. “A presença de seus companheiros de matilha oferece apoio social. Isso foi importante especialmente em casos de visitas de estranhos. No entanto, nessa situação o comportamento de filhotes individuais não era independente dos outros, o que fez os comportamentos serem mais difíceis de interpretar. Por esse motivo nós planejamos o segundo experimento individual, com uma idade mais avançada, quando os lobos estavam mais confiantes”.

No primeiro experimento, os filhotes de lobo tinham seis meses de idade, no segundo experimento, foram testados com 12 e 24 meses. Para manter as interações tão consistentes quanto possível, os visitantes foram informados a usar a mesma roupa, não usar nenhum perfume ou colônia, e não ter nada no bolso, além de uma série de outras medidas de controle.

Em ambos os testes, os lobos se aproximaram de visitantes de todos os tipos prontamente e por vontade própria. Os filhotes de seis meses pularam em cima de seus cuidadores de uma maneira “intensa e amigável”, e eles ficaram confortáveis na companhia de todos os tipos de visitantes. Os lobos de 12 meses de idade e de 24 meses também se aproximaram de seus pais adotivos e conhecidos próximos com carinho, mas ficaram um pouco apreensivos ao se aproximarem dos outros dois tipos de visitantes. Não foram documentados comportamentos agressivos, mas alguns filhotes de lobo exibiram comportamentos de baixar e cauda com a aproximação de estranhos, o que sugere que eles estavam um pouco assustados. Ainda assim, dado que alguns dos lobos tinham 24 meses durante os experimentos, os resultados sugerem que os lobos criados por seres humanos continuam a procurar contato com seres humanos no início da idade adulta.

“Até onde sabemos, esse estudo foi o primeiro a examinar a relação de lobos intensamente socializados e criados por humanos variando na familiaridade de um teste de encontro”, disse Ujfalussy.

“Esse resultado é empolgante, não apenas por lobos serem mais sociáveis do que pensávamos, mas porque é um passo na direção de entender as complexidades das diferenças entre cães e lobos e como interagem com humanos”, disse a bióloga evolucionista Kathyrn Lord, uma associada de pós-doutorado na Universidade de Massachusetts Medical School (que não estava envolvida no estudo), em um email para o Gizmodo. “Inicialmente, supunha-se que os lobos não formavam laços sociais com humanos e os cães sim, então descobrimos que precisávamos olhar mais de perto o que se referia aos laços e descobrimos que, pelo menos, filhotes de lobo parecem ter ligações com as pessoas que os socializaram. Este artigo reforça as descobertas anteriores de que os filhotes de lobo parecem formar ligações que, embora não dependam de seus cuidadores, seus vínculos sociais persistem até a idade adulta”.

Ainda assim, é importante aceitarmos esses resultados com cautela. É difícil discernir o comportamento em experimentos restritas como esse. Os pesquisadores fizeram o melhor para minimizar fatores de confusão, mas isso é quase impossível. Cheiros, linguagem corporal e outras variáveis podem interferir nos resultados.

Também, existem limites para o estudo dos lobos como precursores do comportamento canino. Cães não são descendentes dos lobos (ao menos não dos lobos modernos); tanto os lobos quanto os cães se dividiram de um ancestral comum cerca de 15 mil anos atrás, um animal antigo cujo comportamento não podemos estudar.

Por fim, o tamanho das amostras não foram ótimos; um total de dez filhotes de lobo foram usados no estudo.

“Sim, de fato, nossos tamanhos de amostra não são enormes”, admitiu Ujfalussy ao Gizmodo. “Isto é obviamente porque na Hungria (felizmente) os lobos raramente nascem em cativeiro. Além disso, a criação manual e a socialização individual são um trabalho difícil e trabalhoso. E esses animais devem ser cuidados pelo resto de suas vidas, o que é um desafio e uma responsabilidade ao mesmo tempo. Por estas razões, trabalhamos com o menor tamanho de amostra possível, que seja suficiente para a análise estatística “.

“Cães tem um forte vínculo com humanos, e pelo visto, os lobos são capazes disso também”.

Jessica Hekman, candidata a doutorado na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign e uma veterinária que faz pesquisas sobre a genética do comportamento canino, não se surpreende com essas descobertas e diz que esta pesquisa está bem próxima da sua experiência pessoal com lobos.

“Tive a sorte de poder passar algum tempo no Wolf Park, Indiana, onde vi lobos encontrando pessoas familiares”, disse Hekman, que não estava envolvida no novo estudo, ao Gizmodo. “Eu vi uma loba cumprimentando o homem que a criou, que não tinha visto em meses (um ano, talvez). Ela estava muito feliz ao vê-lo. Eu também vi lobos encontrando seus humanos favoritos, que eles viam provavelmente uma vez por dia, de novo claramente os tradanto diferente dos outros. Eu consegui interagir com eles como um estranho, e eles me trataram de forma muito diferente, muito mais fria”.

Hekman diz que o novo estudo reflete bem suas próprias observações de campo, mostrando que os lobos respondem de maneira diferente aos cuidadores em relação a outras pessoas. Essa descoberta é importante, diz ela, porque os cientistas ainda estão tentando separar as diferenças reais entre o comportamento do cão e do lobo. “Os cães têm um forte vínculo com humanos, e pelo visto, os lobos são capazes disso também”.

lobos-3Imagem: Tanja Askani

Uma das descobertas mais interessantes, diz Hekman, é que os lobos cumprimentam estranhos, mas ainda mostram comportamentos relacionados ao medo.

“Este estudo não compara esses comportamentos com a forma como os cães saúdam estranhos”, diz Hekman. “O meu palpite seria que há variação entre cães individuais e lobos individuais, mas, em geral, que os cães mostram menos medo de estranhos do que os lobos. A redução do medo é considerada uma parte crítica da domesticação”.

Obviamente, isso não significa que devemos abordar temerariamente os lobos na natureza. Ainda assim, Ujfalussy diz que não temos motivos para ser cautelosos demais ou ter medo de lobos selvagens, especialmente se eles tem habitats suficientes, onde podem viver uma vida natural. Os lobos selvagens sob condições naturais evitam o contato com os seres humanos, ela diz, e eles tem uma boa razão para fazê-lo.

“O problema começa quando as pessoas ignoram o conselho de profissionais e tomam os lobos por cães, os tendo como animais de estimação”, diz ela. “Este é um problema sério de bem-estar para os lobos, já que 99% desses animais eventualmente serão abandonados e muitas vezes sacrificados. Basicamente, os lobos são animais selvagens, mais independentes, difíceis de controlar, e os cuidados de saúde que eles precisam são impossíveis de fornecer em uma casa humana, assim, lobos mansos que são tratados como animais de estimação são um perigo real para o seu ambiente e para eles mesmos”.

[Royal Society Open Science]

Imagem do topo: Greg Toope/Shutterstock