Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas, com cerca de 12.500 anos, ganhou uma nova reconstrução facial. A nova cara se deve a uma descoberta científica sobre a migração humana para o continente americano: ao contrário do que se acreditava, ela se deu em uma só leva, ocorrida há cerca de 16 mil anos pelo estreito de Bering.

• Infelizmente, o incêndio do Museu Nacional era uma tragédia anunciada
• Fragmentos de Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas, foram encontrados no Museu Nacional

O fóssil foi descoberto em 1975 em Minas Gerais e tinha ganhado sua primeira reconstrução facial em 1990. O trabalho foi feito pelo britânico Richard Neave. Ele se baseou na teoria do professor Walter Neves, da Universidade de São Paulo (USP).

Essa teoria afirmava que o povo a que Luzia pertencia, com fósseis descobertos no século 19, teria chegado ao continente antes dos ancestrais dos povos indígenas atuais. Acreditava-se que o continente americano tinha sido povoado em duas levas de migração do nordeste da Ásia, com população de características africanas e dos aborígenes australianos, e mais uma leva migratória de ameríndios, semelhantes aos indígenas atuais.

Essa teoria, porém, foi desmontada por uma nova pesquisa. O estudo, publicado hoje na revista Cell, foi feito a partir de DNA fóssil e envolveu 72 pesquisadores de oito países, envolvendo instituições como a USP, a Universidade Harvard, dos EUA, e o Instituto Max Planck, da Alemanha. Este trabalho, segundo a Agência Brasil, “revelou a existência de um único grupo populacional ancestral de todas as etnias da América”.

“Essa conexão com essa população anterior da África não existiu. A diferença entre Lagoa Santa e os nativos atuais tem origem dentro da própria América”, diz o arqueólogo André Menezes Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, à Agência Brasil.

Nova teoria de povoamento

O estudo cria uma nova teoria de povoamento da América. Segundo a nova proposta, um único grupo vindo da Sibéria cruzou o estreito de Bering há cerca de 17 mil anos, chegando ao Alasca. “O DNA fóssil indica que os integrantes daquela corrente migratória tinham afinidade com os povos da Sibéria e do norte da China, ou seja, não possuíam DNA africano ou da Australásia, como indicava a teoria tradicional”, diz o texto da Agência Fapesp sobre a pesquisa.

Infográfico mostra as levas migratórias que povoaram o continente americano. Imagem: André Menezes Strauss.

Os descendentes desse grupo, já na América do Norte, se dividiram em duas linhagens há cerca de 16 mil anos. Membros de uma delas povoaram a América do Sul, passando pelo istmo do Panamá, em três levas distintas: a primeira entre 15 mil e 11 mil anos atrás e a segundo há 9 mil anos, essas duas se espalhando por todo o continente sul-americano; e uma terceira ocorreu há 4,2 mil anos e se concentrou na região central dos Andes.

A nova face de Luzia

Como há uma nova teoria de povoamento do continente americano, a primeira reconstrução facial de Luzia, que considerava que seus ancestrais tinham características africanas e aborígenes australianas, estava incorreta. Portanto, um novo rosto foi feito para a humana mais antiga da América, sem os traços marcadamente africanos da primeira versão.

Segundo a Agência Brasil, os “dados genéticos mostram que o povo de Luzia tem forte conexão com a cultura Clóvis”. Clóvis é o nome de uma cidade no estado americano do Novo México. Lá, na década de 1930, foram descobertas as primeiras pontas de flecha de pedra lascada. Essa tecnologia se tornou “um identificador da cultura” Clóvis, diz o texto da Agência Fapesp.

O processo da nova reconstrução facial de Luzia. Imagem: Caroline Wilkinson

A responsável pela nova cara de Luzia foi a professora Caroline Wilkinson, da Liverpool John Moores University, especialista em reconstrução forense e aluna de Neave, o responsável pelo primeiro rosto desse fóssil humano.

O crânio de Luzia estava no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, quando a instituição pegou fogo, há alguns meses. Felizmente, 80% dos fragmentos foram reencontrados nos escombros pelas equipes de resgate. Segundo a Agência Brasil, o Museu também abrigava grande parte dos crânios escavados por Neves e Strauss nos últimos quinze anos — alguns conjuntos menores estavam na USP e na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG).

Os estudos foram feitos usando 12 outros esqueletos do mesmo povo de Luzia. O DNA também deve ser extraído nos fragmentos do crânio dela, assim que a curadoria do Museu Nacional liberar, mas Strauss ainda não sabe se será possível realizar os testes. “O material foi exposto a temperaturas altíssimas e se tem uma coisa que o DNA não gosta é de calor, porque ele fragmenta o material. Temos que manter as expectativas em níveis comedidos”, disse o arqueólogo André Menezes Strauss.

[Agência Brasil, Agência Fapesp]