Ötzi, o Homem do Gelo — nosso cadáver da Idade do Cobre favorito — é um presente que continua rendendo frutos. Uma análise recente do metal encontrado no machado de cobre do caçador neolítico sugere um ponto de origem no Sul da Toscana, o que é longe de onde o corpo congelado de Ötzi foi encontrado. Isso sugere que uma rota de comércio de longa distância existiu entre a Itália Central e os Alpes, há uns 5.300 anos.

• Ötzi, o presunto de 5 mil anos, já fazia presunto
• Como era a voz de Ötzi, o homem de gelo pré-histórico, achado há 25 anos na Itália

Os restos congelados de Ötzi foram encontrados saindo de uma geleira no alto dos Alpes Italianos, em 1991. Analisando seu corpo mumificado, cientistas aprenderam muito sobre o europeu antigo e, por inferência, seus contemporâneos neolíticos.

Nós sabemos, por exemplo, que Ötzi tinha entre 40 e 50 anos de idade quando morreu e que foi morto por uma flecha que acertou seu ombro esquerdo. Ele sofria de dor articular crônica, doença de Lyme, doença periodontal e úlceras. Seu corpo, além de ser coberto por tatuagens, está salpicado por inúmeras feridas não letais, incluindo cortes por faca e um sério golpe em seu rosto infligido durante seus dias ou horas finais antes de morrer. Por um lado mais positivo, Ötzi teve acesso a uma forma antiga de presunto prosciutto. A vida obviamente era dura para esses europeus antigos — pelo menos para Ötzi.

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Os restos de Ötzi (Imagem: Universidade de Padova)

Mas não é só o corpo do Homem do Gelo que nos conta uma história sobre os europeus neolíticos. Conforme um novo estudo publicado na PLoS One revela, o machado de Ötzi continha um cobre que vinha do Sul da Toscana, uma região localizada a 555 quilômetros de onde o Homem do Gelo conheceu seu destino nos Alpes Italianos.

O que é particularmente estranho sobre essa descoberta é que o cobre vinha sendo minado nos Alpes durante a época, então é um mistério que sua lâmina tenha vindo de tão longe. De acordo com os cientistas da Universidade de Padova que conduziram o estudo, o metal era provavelmente entregue à área por meio de uma rota de comércio de longa distância, o que, se for verdade, mostra o quão sofisticada a cultura do europeu da Idade do Cobre era há 5.000 anos.

Para determinar a origem do metal de Ötzi, o arqueólogo Gilberto Artioli e seus colegas mediram as taxas de isótopos de chumbo da lâmina de cobre. “Os resultados indicam, sem ambiguidade, que a fonte do metal é a área rica em minério do Sul da Toscana, apesar das amplas evidências de que as fontes de minério do cobre alpino eram conhecidas e exploradas na época”, escreveram os pesquisadores em seu estudo.

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A lâmina do machado de Ötzi (Imagem: G. Artioli et al., 2017)

O que os pesquisadores não sabem, entretanto, é se o cobre foi entregue ou trocado como um lingote cru (que foi então forjado para uma lâmina de machado) ou se o machado foi entregue como um produto finalizado. Além disso, pelo fato de os cientistas estarem trabalhando com a amostra de uma só pessoa, isto é, Ötzi, o Homem do Gelo, é difícil saber como ele adquiriu o machado. É bem possível que ele o tenha comprado de comerciantes ao longo de uma rota comercial, segundo os pesquisadores. Mas também é possível que ele o tenha descoberto no chão ou o herdado de alguém. Talvez Ötzi fosse um homem de viagem, alguém capaz de atravessar vastas distâncias por si só, ou talvez tenha sido um ladrão e tenha conseguido o machado roubando-o.

As possibilidades são imensas, mas a presença de uma rota comercial na Idade do Cobre está longe de ser estranha. A descoberta de metalurgia de cobre ativa na Itália Central durante esse período combina bem com o que os arqueólogos sabem sobre as variadas culturas que habitaram a Itália durante esse tempo. Uma rota comercial ativa, se estendendo da Toscana por centenas de quilômetros, pode explicar a disseminação de metais pela região durante essa era.

[PLoS One]