Enquanto o Kimura escrevia o post sobre o caso Techcrunch, eu respondia a um e-mail de um leitor exigindo mais "respeito" a quem pensa diferente. O que eu respondi:

O tratamento meio desrespeitoso, como você falou, sobre os conspiratórios em relação ao pouso lunar é uma posição editorial do Gizmodo americano que nós decidimos seguir. Eu – e imagino que você e tantos outros – acho que quem gasta tempo defendendo a tese de que a Terra é plana é idiota. Ou que quem sustenta que os negros são menos capazes intelectualmente que os brancos também sejam. Ou quem acha que o desenvolvimento humano não tem qualquer impacto negativo sobre o meio ambiente. Todos são, pra mim, "idiotas" porque defendem uma tese que já foi há muito tempo desmontada, para o bem da humanidade. Essas pessoas atrasam o desenvolvimento científico. Se a Veja ou a Time já chamou de idiota (e já o fez) quem acredita em supremacia racial, por que não o Gizmodo, um site muito mais informal que esses dois outros veículos, não pode chamar quem acredita que o pouso do homem na Lua foi uma farsa de idiota?

Mas por que ofender? Pessoalmente, acho essa teoria conspiratoria perigosa. Pessoas ignorantes que começam a acreditar nessa coisa absurda começam a desenvolver (mais ainda) o antiamericanismo, põem em descrédito uma instituição como a Nasa e váriaos cientistas ao redor do mundo. Quem defende essa teoria está chamando o Buzz Aldrin de idiota, as dezenas de milhares de pessoas que estudaram rochas lunares (que têm uma composição absolutamente única) de idiotas, os mais de 400 mil funcionários da Nasa de idiotas. Por que não podemos fazer o mesmo com quem levanta contos de fadas absurdos? Perceba que não fazemos isso sobre futebol, religião ou consumidores de tecnologia. Nunca chamaremos de idiota quem diz que um Master System é melhor que o PlayStation 3. Há algum argumento que pode ser levado em consideração (hey, eu gosto de Alex Kidd), então quem defende algo meio absurdo assim merece ser respeitado. Mas no caso da teoria conspiratória em questão, pelos motivos que citei acima, acredito que não.

Lá no Giz americano eles simplesmente baniram os leitores que disseram que todos os homens que estiveram na Lua mentiram. Porque o Jesus Diaz acha, como eu, que espalhar uma bobagem dessas pode ser perigoso e é um simples desserviço para a ciência e a boa-fé das pessoas. Posts mais agressivos são só uma maneira gizmodiana de dizer "hey, vamos parar com essa bobagem sem qualquer fundamento."

Quando traduzimos posts do Giz US sobre o assunto pegamos um pouco mais leve, e deixamos de traduzir tantas outras coisas. Porque eu sempre tenho medo da reação das pessoas aqui no Brasil, um pouco mais afeita a trolagem, ao que parece. Como eu falei em outro post: o Gizmodo US sacaneia Apple e Microsoft, qualquer empresa, e faz posts irônicos, que alguns aqui interpretam como "por lenha na fogueira do fanboyismo". É uma brincadeira! No mundo ideal as pessoas entenderiam a ironia, como os vários donos de Mac que entraram no concurso de photoshopagem para zoar o gatinho do Snow Leopard.

No mundo ideal, como o Kimura falou, as pessoas não defenderiam suas marcas e times como se estivessem defendendo a própria honra. São caixas com DVDs, amigos. Ou bits na sua máquina. Pra que ofender sobre isso? Em tempo: em comparação com fóruns e outros blogs, o Gizmodo Brasil é quase um oásis em termos de respeito às opiniões alheias. Há muito a se fazer, mas na média tenho orgulho dos leitores aqui.

Sei que estamos saindo duplamente do escopo do blog, mas de quando em vez acho legal (eu, como leitor) ver alguns posts de opinião. Então, sendo um pouco mais específico:

O brasileiro tem de parar de ser antiamericano. Criticar os EUA por tudo de errado que fez e faz com o mundo é superválido. E isso é, de fato, necessário. Mas a coisa tá saindo dos limites, e está na fronteira do ódio infundado, do racismo.

Um caso recente me chocou profundamente. De verdade. A DM9 fez, sem aprovação da WWF Internacional, um anúncio fantasma para chamar a atenção das pessoas sobre a "força da natureza". Cometeram isto:

(A Tsunami matou 100 vezes mais que os atentados de 11 de setembro. A natureza é poderosa)

E daí? Qual o propósito? É desrespeitoso, de mau gosto, além de ter uma falha de lógica incrível (Tsunamis não são causadas pelos homens, ok?). Achei que era óbvio para o mundo. Mas lá no Brainstorm#9, o maior blog de publicidade do País, contei 90% dos 185 comentários favoráveis ao anúncio. O argumento principal era, basicamente, que os americanos têm de se f* por tudo que eles fizeram ao mundo (nessas horas só se conta Vietnã e Iraque, não a internet, o computador e o sistema operacional que as pessoas que comentam no blog estão usando). E que "a verdade dói". Isso é triste, mostra uma falta de empatia que ultrapassa o racismo. Estamos juntando um povo todo, unido por uma fronteira geográfica e dizendo absurdos.

E isso têm de acabar porque, ainda mais que os crentes na teoria da conspiração, é perigoso. A Sarah do Techcrunch têm de respeitar os brasileiros (coisa que ela fez), mas nós não temos de achar que um povo inteiro têm de sofrer, ou que todos são arrogantes e burros – mesmo tendo todas as 20 melhores universidades do mundo. Se queremos respeito, precisamos respeitar. Aqui a palavra "reciprocidade" faz mais sentido do que nunca.

Para não me alongar mais na discussão, eu prometo que não vamos mais chamar os leitores que acreditam em bobagens de idiotas, de qualquer maneira. A Sarah foi arrogante e falou bobagem, o que não faz dela uma total idiota, assim como é o caso de milhares que acreditam em coisas absurdas. Fatos ou opiniões isoladas não refletem necessariamente uma pessoa ou um povo. Então peço minhas sinceras desculpas aos que se sentiram ofendidos. 

Voltamos à programação normal.