Ser viciado em tecnologia no Brasil não é tarefa fácil: ótimos gadgets demoram para chegar aqui oficialmente e, quando chegam, custam caro demais. Mas comparar nossa situação com EUA e Europa pode não ser adequado: em geral, novidades tecnológicas surgem mesmo em países desenvolvidos, e como têm mais demanda por lá, têm maior disponibilidade e custam menos. Mas e se compararmos nossa situação com o México, país semelhante ao Brasil em vários aspectos? Ah, aí… quem é gadgeteiro fica ainda mais decepcionado com o Brasil.

Por que comparar o Brasil ao México? As economias dos dois países têm tamanho semelhante: o Brasil tem o 10° maior PIB do mundo, enquanto o México está em 12°, segundo o CIA World Factbook. A economia dos dois é parecida, exportando produtos primários e importando maquinarias e produtos industrializados. Uma medida de renda, o PIB per capita (riqueza do país dividida pela população), também é semelhante entre os dois países: US$10.200 no Brasil, e US$13.200 no México. Sim, um pouco maior no México, mas nada próximo dos US$46.400 nos EUA. Portanto, comparar os dois países faz bastante sentido.

Claro, algumas diferenças são marcantes: o México fica bem perto dos EUA, e importar produtos dos States é bem mais fácil lá do que aqui. Além disso, os mexicanos pagam tarifas reduzidas de importação dos EUA devido ao Nafta, acordo de livre-comércio entre os dois países e o Canadá. E, de forma geral, os impostos ao consumidor são mais baixos no México que no Brasil.

Dito isto, vamos às comparações. Contamos com a ajuda do leitor Jean, brasileiro que mora no México, para buscar vários dos preços listados abaixo, e lojas grandes que vendam estes produtos. E as diferenças de preço são marcantes.

Nos produtos que selecionamos, todos são mais caros no Brasil que no México, o que foi uma surpresa: escolhemos gadgets de diversos tipos, diversas marcas, e imaginávamos que alguns deles fossem mais caros por aqui — não todos eles. A situação dos videogames é crítica: o Xbox 360 daqui custa o dobro do mexicano e o PlayStation 3, que custa 4,6 vezes a mais no Brasil que nos EUA, também é mais caro em relação ao preço no México. 

Também não temos sorte com computadores: dois modelos semelhantes de computador de mesa da Dell saem 29% mais caro no Brasil que para os mexicanos. E o mesmo Dell Mini 10, que custa R$700 lá, sai por R$1.189 aqui — netbooks estão mesmo em um universo paralelo aqui no Brasil.

E, não bastando os smartphones serem mais caros aqui, os serviços de celular também não ajudam. Quando adquirido na Telcel (maior operadora de celular do México) com 200 minutos de voz mais dados ilimitados, um iPhone custa cerca de R$790 reais; aqui, ele custa R$1.099 na Vivo, mais caro e com plano de dados limitado a 500MB.

Ah, o celular é mais barato lá, mas eles devem compensar na conta do celular, certo? Que nada: até o plano de voz e dados equivalente é mais barato por lá. Para smartphones em geral, um plano de 200 minutos mais dados ilimitados é 77% mais caro no Brasil, onde só a TIM vende plano de dados sem limite de dados — e a Telcel tem cobertura 3G no México bem maior que a TIM no Brasil. (Para o plano voz + dados para iPhone, a diferença de preço é de 92%.)

Em uma área o Brasil consegue ser mais barato, às vezes… mais ou menos: música online. Os mexicanos têm a loja iTunes, da Apple, onde músicas custam entre R$1,25 e R$2,10 (9 e 15 pesos). No Brasil, a maior loja online de música é a UOL Megastore, onde os preços variam, em geral, de R$0,99 a R$2,49. No México, a maioria das músicas sai a R$1,70 (12 pesos); no Brasil, o preço mais comum é de R$1,99.

Então as músicas no México também são mais baratas que aqui? Mais ou menos! Para comparar os preços das duas lojas, escolhemos três músicas "internacionais" que fazem sucesso agora (não necessariamente boas): "Just Dance" da Lady GaGa, "I Gotta Feeling" do Black Eyed Peas e "Use Somebody" do Kings of Leon. As três músicas saem a R$2,11 na iTunes mexicana; no Brasil, as duas primeiras custam R$1,99; "Use Somebody" sai a R$2,49. No fim, os preços da loja iTunes são considerados altos no México também, então vamos considerar isto um empate.

Claro, nossa tabela é reconhecidamente limitada, mas é triste e até mesmo vergonhoso não termos conseguido encontrar um só gadget ou conteúdo multimídia claramente mais caro lá do que aqui. Sim, o México sofreu com a crise econômica bem mais que o Brasil, o que afeta o preço relativo dos gadgets — mas nada que explique uma diferença de até 158% nos preços.

Então o que pode explicar a diferença? Como sempre, os impostos parecem ser os culpados.  A tarifa zero de importação entre México e EUA com certeza ajuda a manter os preços mais baixos por lá, enquanto isso, o Brasil cobra 60% de imposto de importação. No México, até onde sabemos, cobram-se 16% de imposto sobre o valor do produto, mas zero de importação. No Brasil ainda temos as margens de lucro muito altas, impostas por grandes varejistas, que empurram os preços para cima (apesar de não sabermos como é a situação no México).

Enfim, não é fácil amar gadgets no Brasil. A diferença de preço não faz valer a pena importar produtos do México, mas deixa mais patente a distorção de preços que acontece por aqui. 

[Agradecimentos especiais ao Jean, que nos ajudou a caçar preços de gadgets no México e, confesso, nos deixou com um pouco de inveja. Valeu, Jean!]