A Motorola lançou o Backflip no Brasil em fevereiro, o irmão contorcionista do Motorola Dext. Por dentro, os dois são quase iguais; por fora, sobram diferenças. Se você está pensando em comprar um smartphone com Android a preço razoável (e faz questão de um teclado físico, excluindo o pobre Quench), os dois são boas opções a se considerar. Mas qual dos dois escolher? Nós testamos o Backflip e ajudamos você a decidir.

 

Formato e tela

Por fora, o Backflip é meio estranho. Ele tem duas partes, a tela e o restante: enquanto a tela é fina, o restante do aparelho é mais gordo, o que não ajuda na estética do aparelho. Quando fechado, dá pra ver que rola algo diferente na parte de trás — o teclado. Se você abrir o aparelho, a tela e o teclado ficam do mesmo lado.

Descobri algo interessante: abrir o aparelho é algo mais intuitivo do que deslizar o teclado, pelo menos com meus amigos menos experientes em tecnologia. (Isso pode ser porque gadgets com teclado na horizontal, como laptops, em geral abrem desse jeito.) Quando mostrei meu Dext, eles tentaram abrir o aparelho, em vez de deslizar o teclado. Com o Backflip, foi algo um pouco mais natural: mas, quando eles viram que o teclado e a tela ficavam do mesmo lado, estranharam um pouquinho. "Nossa, que irado. Mas que bizarro!"

O Backflip é ligeiramente menor e mais leve que o Dext: as dimensões do Backflip são 108 x 53 x 15,3 mm, enquanto o Dext tem dimensões 114 x 58 x 15,6 mm. O Backflip pesa 133g; o Dext pesa 163g, e dá pra perceber a diferença na mão; mas não é algo que mude muito a experiência de usar o aparelho.

A tela é basicamente igual à do Dext: touchscreen capacitiva, 3,1 polegadas, resolução 320×480, 65.000 cores. Definitivamente ela não é inferior à tela do Dext. Na verdade, às vezes ela responde melhor: por exemplo, sempre tenho problemas para destravar o Dext usando o bloqueio por desenho, traçando um padrão na tela para destravar o aparelho; no Backflip, não tive problemas com isso. (Apesar de que isto talvez possa estar relacionado a correção de bugs.)

 

Botões e entradas

O aparelho tem poucos botões físicos: o liga/desliga/trava, o controle de volume e a câmera — só faltou a chave do modo vibratório, presente no Dext. O botão de trava fica na parte de cima, em uma posição ótima para destros segurando-o com uma mão — ao contrário do Dext, que tem um botão de trava tão fino e mal-posicionado que, como disse o Jason Chen, "até o Demolidor da Marvel teria dificuldade de encontrá-lo pelo toque". O botão da câmera é ruim, assim como no Dext: ambos precisam ser pressionados com muita força para ativar a câmera, e o Android demora para ativar a câmera. O botão é melhor no Backflip por ser maior (no Dext, o botão é tão fino que você primeiro precisa achar, depois apertar com força). Nos dois aparelhos, prefiro deixar um atalho para a câmera na tela inicial, é mais rápido.

Ainda há os botões Home, Voltar e Menu, mas, ao contrário do Dext, eles são sensíveis a toque (como no Milestone): eu prefiro assim, sem fazer esforço consigo usá-los. Fora que não existe a sensação estranha do Milestone, que tem uma película em cima dos botões. Com isso, continua-se a experiência com a touchscreen, então achei isto uma boa ideia. O lado negativo é que, para destravar o aparelho, não dá para pressioná-los, como no Dext: você precisa sempre alcançar o botãozinho de trava na parte de cima do aparelho.

O Backflip também tem entrada para fone de ouvido de 3,5mm e uma entrada microUSB, assim como o Dext; mas no Backflip a entrada USB tem um LED ao redor. Quando a bateria está fraca, a entrada USB fica piscando na cor verde. Pena que não dá para usá-la para notificações, quando você recebe um e-mail ou tweet, por exemplo — o Backflip não tem um LED na frente, como o Dext e os Android mais recentes (Milestone e Nexus One).

 

Teclado

O teclado QWERTY do Backflip fica na parte de trás, e depois que você abre o aparelho, o teclado acende e fica ativo (fechado, o teclado não funciona). Você pode pensar: Como o teclado fica atrás, o desgaste não é maior que no Dext, onde o teclado fica guardado atrás da tela? Talvez, mas não se preocupe em riscar a tinta do teclado, já que as letras e símbolos são gravados (e não pintados) no plástico do teclado. Só recomendo que você não leve nem o Dext nem o Backflip com as chaves, dado que ele é touchscreen: é um crime encostar chaves em um celular com uma tela assim.

O teclado tem botões grandes, maiores que no Dext, o que ajuda na digitação. Mas o teclado tem botões demais reunidos sem muita organização, é muito excessivo e sobrecarregado. Todos os botões têm o mesmo tamanho, e não há diferença ou separação entre os caracteres e os botões de função (pesquisar, Home, Voltar etc.). Além disso, o teclado é liso, então a elasticidade das teclas não é muito grande, e com o uso pode ficar ainda menor. Claro, isso é uma decisão que leva em conta o design, já que o teclado fica exposto quando o Backflip está fechado: se as teclas fossem mais levantadas, como no Dext, o aparelho ia parecer uma espiga de milho de um lado.

Mas isso prejudica a digitação de algumas formas: por exemplo, as teclas direcionais ficam no lado direito, são lisas e juntas às outras teclas (no Dext o d-pad tem seu lugar no lado esquerdo), e isso pode atrapalhar na hora de jogar. E, mesmo depois de alguns dias, não me acostumei a digitar em certas teclas com elasticidade menor, o que aparentemente é o caso das teclas mais próximas à câmera ("A", Shift, Alt etc.). Sim, porque a câmera de 5 megapixels e o flash ficam no teclado, o que não é tão bizarro quanto parece. Não vejo nenhum risco de arranhar a lente nem o flash enquanto você digita, e tem uma vantagem: você pode usá-la como câmera frontal, quando o celular está aberto.

Por fim, a retroiluminação do teclado é boa, e quando apagado, não dá pra ver os caracteres nas teclas — então é uma decisão estúpida desligar a retroiluminação quando o aparelho detecta que você está em ambiente iluminado. 

Backtrack, câmera, bateria e mais

Mas se a tela e o teclado ficam na parte de fora, o que há na parte de dentro? A tampa da bateria, atrás do teclado; e atrás da tela, o Backtrack. Ele é um retângulo sensível ao toque, pelo qual você controla o celular. Mas, se o Backflip já tem a touchscreen e o teclado, e ambos estão disponíveis quando o aparelho está aberto, pra que ter mais uma forma de controlar o Backflip? Bem, o Backtrack está em uma posição natural: a ponta dos dedos já fica atrás da tela, então não é preciso muito esforço para usá-lo. Além disso, alguns programas têm botões muito pequenos, e com o Backtrack fica mais fácil navegar por eles. Mas você vai usá-lo pouco, já que em geral a navegação pela touchscreen é mais adequada (afinal, o Android foi pensado para touchscreens) e ele só fica disponível quando o aparelho está aberto.

A câmera dos dois aparelhos é basicamente a mesma: 5 megapixels, foco automático, zoom digital de 4x, geotagging e também grava vídeo. Só que a câmera do Backflip tem flash LED, enquanto o Dext não tem flash; e você pode usar a câmera do Backflip como câmera frontal. Não há diferença perceptível na qualidade das fotos dos dois aparelhos.

A bateria dos dois aparelhos também é semelhante, o que significa que eles aguentam um período igual longe da tomada – algo extremamente variável dependendo do uso. A tampa da bateria lembra a tampa daqueles estojos de metal do colégio, com a tampa mais fina e o estojo em si mais grosso. Eu não gostei muito: a tampa encaixa com algumas reentrâncias, seis "ganchinhos", e deve ser um problema se algum deles entortar. O cartão de memória fica atrás dessa tampa, e você pode tirá-lo com o aparelho ligado (assim como no Dext)..

E, finalmente, o formato dobrável do Backflip permite que você assista a vídeos apoiando-o na mesa e inclinando a tela. Ele também tem o modo relógio do Milestone (o Dext não tem), e nem precisa do "bercinho": basta abri-lo inclinando a tela em 90 graus. Se estiver conectado na tomada, o Backflip fica com a tela sempre ligada e serve como relógio de cabeceira.

 

O software

Por dentro, ele é extremamente parecido com o Dext: ambos rodam o velho Android 1.5 com a interface MotoBlur, que agrega serviços sociais como Twitter, Orkut e Facebook em widgets na tela principal e nos contatos.

Os detalhes sobre o MotoBlur são os mesmos descritos no review do MotoDext. Widgets de novidades, que mostram as últimas atualizações de quem você segue no Twitter, Facebook, Orkut e outros; widgets de notícias, que você pode usar para assinar o feed RSS do Gizmodo (talvez caiba de outros sites, nunca tentei); caixa de entrada universal, integrando e-mail, mensagens diretas do Twitter, Facebook e torpedos; e integração dos contatos do Google, Orkut, Twitter e outras redes na sua agenda de contatos. Este último requer um pouco de trabalho para separar os contatos com quem você realmente se comunica por celular, mas uma vez feito, as alterações são salvas online na sua conta MotoBlur — se você resetar o aparelho, os contatos são sincronizados automaticamente, como da última vez que você os deixou.

No Dext e no Backflip, a Motorola personalizou o Android em vários pequenos detalhes, e eu gostei do trabalho. Para ligar ou desligar o GPS, Wi-Fi, Bluetooth ou modo avião, basta segurar o botão liga/desliga, e surge um menu com as opções. Você também pode desligar o 3G/EDGE nas opções, sem precisar instalar um app para isto. Na verdade, vários apps que recomendamos na nossa lista de apps essenciais podem ser desnecessários no Dext e no Backflip: eles já vêm com leitor de arquivos Office e PDF, cliente de Twitter, widget de previsão do tempo, leitor RSS e identificador de músicas. Claro, sempre é bom ter opções — por exemplo, eu não gosto do widget para Twitter que vem no Dext — mas é um passo rumo a deixar o Android mais humano: um usuário menos experiente pode começar a usar o aparelho sem ter que ir no Android Market caçar apps.

Mas o MotoBlur acabou enchendo o saco: ele gasta plano de dados e bateria sem me acrescentar muito, e isso é um problema tanto no Dext quanto no Backflip (já que o serviço é igual nos dois aparelhos). O MotoBlur atualiza os widgets de redes sociais, RSS e clima. O problema é que não dá para desligar as atualizações das redes sociais, mas continuar atualizando o widget de previsão do tempo: ou você atualiza todos os serviços do MotoBlur, ou não atualiza nada. Então resolvi não atualizar nada, e substituir os widgets do MotoBlur por outros encontrados no Android Market. Bom que existe a opção de parar de atualizar o MotoBlur sem afetar os outros programas: assim o MotoBlur para de consumir do seu plano de dados, mas os outros programas podem continuar usando o 3G.

Outro problema, comum aos dois aparelhos, é a versão do Android. O Cupcake (1.5) é uma versão velha do sistema operacional do Google: por enquanto não há muitos apps que são incompatíveis (alguns mais recentes só funcionam a partir da versão Donut (1.6)). A Motorola prometeu que vai atualizar todos os aparelhos para a versão 2.0, mas isso pode demorar muito. Até lá, você não poderá usar vários apps legais, como o Google Navigator e o Goggles.

Há duas pequenas diferenças entre o software no Backflip e no Dext: o Backflip tem Google Talk, que por algum motivo inexplicado não está presente no Dext, e Motonav, sistema de navegação GPS gratuito por 60 dias. Nenhum dos dois é essencial: para mensagens instantâneas há vários bons programas gratuitos no Market; e o Pedro experimentou o Motonav no Milestone e não gostou.

 

Backflip ou Dext?

Se você leu tudo até aqui, deu pra preceber que as grandes diferenças entre o Backflip e o Dext estão por fora — na verdade, por dentro eles têm até as mesmas configurações (processador de 528MHz, 256MB de memória, 512MB de memória ROM). É claro que eles não são as duas únicas opções de Androids com teclado. Próximo dos dois com hardware bem parecido, há o LG GW620, que ainda não testamos, mas parece estar no mesmo nível à exceção da tela resistiva. Por um pouco mais de dinheiro temos o Milestone. 

Mas estamos comparando esses dois irmãos da Motorola. O preço dos dois aparelhos também é semelhante nas operadoras, logo escolher entre eles é uma questão de gosto. Vale a pena levar o Backflip se você curte o formato dobrável dele, não vai usar muito o teclado e quer uma câmera com flash. Se, por outro lado, você prefere celulares em formato slider, com um bom teclado, e não se importa com a ausência de flash na câmera, o Dext é para você. 

Se você ficou preocupado com o software dos dois aparelhos mas ainda quer um smartphone com Android, por enquanto o Milestone é a única opção para você no Brasil — ele custa mais caro, mas tem diversas outras vantagens que fazem o aparelho valer a pena. E se a questão for o preço, o Quench é imbatível. A vida é dura para os irmãos com teclado da Motorola, mas eles cumprem bem suas funções.