A Apple lançou um produto que nós do Giz achamos que é o início de uma revolução na computação pessoal. Vendeu 450 mil unidades logo de cara. Dias depois, a mesma empresa lançou uma atualização importante para o smartphone que mudou a indústria, o iPhone. É natural que falemos um bocado sobre essas duas coisas. Não natural é ver as pessoas agredirem quem ousa falar bem da marca e fazer generalizações absurdas para tentar provar um ponto de vista errado. Isso tem de parar.

Defendo os usuários de Apple com a autoridade de quem sempre montou os próprios PCs, preferiu o Zune HD ao iPod e o Milestone ao iPhone. Que autoridade é essa? A de uma pessoa que tenta ser razoável: não é porque possuo algo de uma marca que a acho necessariamente melhor que outra e não é porque acho a outra cara que não vejo seus méritos. 

Minha função como editor de um site de tecnologia que quer ser o melhor é tentar ser o mais objetivo possível. É nossa obrigação. Os comentaristas, se não tem essa mesma necessidade, tem de ao menos buscar algo assim. Podem dizer que uma empresa lançou algo idiota, que o produto é pior que uma pedra, tudo isso. Mas tem de respeitar quem pensa diferente. 

Quando o assunto é Apple, a coisa esquenta e o Intense Debate faz jus ao nome. Aliás, na hora de escrever este post, pensei em fazer um tratado sobre qual o motivo de muita gente especialmente aqui no Brasil que se diz entendida de tecnologia odiar a Apple. Honestamente, não me sinto capaz – é um trabalho para um sociólogo. Como disse uma vez,  será que tem a ver, lá no fundo, com inveja? Inconscientemente as pessoas desdenham porque não podem comprar? Raiva das "elites", que comprariam um iPhone só para se mostrar? 

O Cardoso, num artigo bem interessante no MeioBit, levantou outra bola: o problema dos geeks com a Apple é o medo da obsolescência. Alguns figuras arrogantes que se acham melhores porque sabem o que é um config.sys fazem a seguinte associação: se um cara gosta de um produto simples, que qualquer criança pode usar, é porque ele é burro demais para usar algo mais completo. O que é uma bobagem sem tamanho. Diz o Cardoso:

A origem dessa implicância toda era um mistério, mas começo a ver a origem. Os Escolhidos não são mais necessários. Não mais ouvimos o “nossa, que legal, dá pra fazer isso tudo com um telefone?”. Puxar um Palm e acessar web no meio de uma reunião já me valeu um emprego. Hoje qualquer mané faz isso.

A briga não é com a Apple. Vai além, é o Medo da Mudança, é o medo do CONCEITO de um produto fácil de usar.

Somos Nós vs Eles, Eles sendo os Usuários Comuns, nós os Geeks. Só que isso não vai durar muito tempo. Nossos maiores aliados, o exército de clones montado com nosso dinheiro, nossa dedicação está prestes a nos trair. De todos os lados virão tiros de usabilidade, ataques de design simples e funcional e hordas de praticidade, com nossos queridos brinquedos tecnológicos se transformando em ferramentas simples e eficientes nas mãos de gente que não MERECE utilizá-las, pois não sofreram todo o longo treinamento.

Merecimento não tem nada a ver com isso.

É uma teoria interessante a do Cardoso – que não envolve só Apple – veja lá. Seja qual for o motivo desse ódio que muita gente nutre, o que me doi e joga fogo na picuínha é a generalização. "Os americanos gostam disso porque são XXX", "quem gosta de Mac é XXXX", "já sei, você é um anti-Windows porque XXXX", "mas quem entende de tecnologia sabe que XXXX", "isso não daria certo no Rio porque os cariocas XXXX". 

Qualquer, qualquer generalização é errada – algumas mais que outras. Especialmente quando envolve a atribuição de comportamentos comuns a pessoas que só compartilham um gosto em comum. Não dá para você deduzir nada sobre alguém por ela gostar de determinado hardware. É como tentar conhecer uma pessoa por jogo de videogame favorito. É pior que horóscopo. "Não namoro ninguém com ascendente em Kratos".

Mas as pessoas curtem generalizações. E montam grandes teorias sobre isso. Todas teorias erradas. Quando você chama um cara que comprou um Macbook Pro caro de idiota você chama alguns dos meus amigos mais geniais, artistas gráficos e fotógrafos talentosíssimos, de idiotas. E isso não pode estar certo. Eles não são exceção. Porque não existe regra.

Mas por que as pessoas curtem tanto isso? Porque é legal montar historinhas, rixas, narrativas. O Denis Russo, grande figura que foi meu editor na Superinteressante, escreveu esses dias que quando ele conversa sobre futebol a lógica é outra: é normal você dizer que seu time foi garfado, que o seu atacante é melhor, que o gol foi mais bonito… 

Denis não espera que qualquer pessoa leve a sério quando ele fala de futebol, mas isso está claro desde o princípio da conversa. O problema é quando essa paixão futebolística é transportada para outras discussões. No seu artigo na Veja:

Ou seja, no futebol, para mim, não se perde nunca. Ou somos os vencedores ou os mártires, ou somos merecedores ou injustiçados – somos sempre heróis.

Isso é divertido. É uma brincadeira. Mas o que eu acho menos engraçado é que esse estilo de debate – polarizado, desonesto e que não chega a lugar nenhum – parece ter dominado outros assuntos muito mais sérios do que a crônica esportiva.

Ninguém parece disposto a discutir com sinceridade – ouvir opiniões conflitantes, pesá-las, levá-las a sério, juntar dados, observar, aprender. Todo mundo parece já ter escolhido o seu time e estar disposto a inventar histórias para continuar acreditando naquilo em que já acredita. Ninguém reconhece que haja méritos em outros jeitos de pensar – ou se está 100% certo ou 100% errado.

É super válido discutir se as intenções da Apple são malignas, se não comprar um iPad é um ato político, ou se o Google é heroi ou vilão ao sair da China. Damos espaço para todas as opiniões aqui. Queremos que discordem e apresentem alternativas, com respeito.

Aliás, estamos em um ano eleitoral. É meio que fundamental respeitar as pessoas que preferem este ou aquele candidato. E isso é bem mais importante que gostar ou não de maçãs.