Nokia N97 foi lançado no Brasil oficialmente esta semana. Foi a maior superprodução: festa com drinks diferentões e subcelebridades, um andar inteiro de um hotel de luxo reservado aos testes de cada uma de suas funcionalidade. Coisa fina, que eu não me lembro de ter visto parecido por aqui. E, por isso mesmo, foi uma coisa meio estranha: o novo NSeries não era exatamente novidade, já que muitos que estavam na cerimônia já conheciam o aparelho; ele não é algo revolucionário, e nenhuma operadora deu apoio de primeira hora – a única opção será comprá-lo por R$ 2.400, direto da Nokia. O telefone é, no fim das contas, um hardware com altos e baixos, com uma interface que ainda precisa de muitos ajustes. Dependendo do uso, é o melhor smartphone no mercado hoje, mas talvez não seja o suficiente para segurar as vendas de fim do ano, por uma série de motivos. Vamos dar uma não tão rápida olhada.

Vamos tentar passar por todos os pontos. Este foi o meu terceiro encontro com o N97. Além de colocar as mãos no próprio, já li um bocado sobre (inclusive a resenha dos nossos amigos do Giz US, que detonou o aparelho), então podemos ter uma boa prévia do modelo mais avançado da Nokia à venda no Brasil. 

Hardware

O corpo é bem construído, o design é bacana. Ele não é fino, mas é 2mm menos gordo que o N96; também não é longo, como o Xperia X1. O teclado deslizante faz com que a tela fique num ângulo de cerca de 45°, pensebem-style. Não curti muito isso – limita o ângulo de visão. Achei que a abertura precisa de mais esforço que o devido, mas o teclado fica firme. 

O teclado Qwerty, grande diferencial dele em relação aos concorrentes da Apple (e o que faz automaticamente melhor que qualquer celular full-touchscreen pra digitar), poderia ser bastante melhor. O espaçamento é bom, mas o "control"/function fica meio distante e o espaço só pode ser digitado com a mão direita, o que me parece que diminui a velocidade de digitação (pode ser costume, já que a seta na mão esquerda alivie). Falta às teclas serem mais pontudas (como a do E71 ou alguns blackberry) ou altas, o que deixa a digitação menos firme, sem feedback. A direcional do lado esquerdo é uma boa sacada, e torna o celular bom pra jogos e canhotos.

A tela é touchscreen resistiva, menor e menos clicky que o Blackberry Storm ou o Nokia 5800 (você aperta e ela afunda um pouquinho). Reflete pouco. A resolução é bacana, mas novamente há coisas melhores, como a do iPhone, qualquer uma de amoLED da Samsung ou até o LG Arena. É mais sensível que o 5800 e o Samsung Omnia, mas ainda não é capacitivo. Isso significa que deslizar o dedo para passar uma tela para cima ou para baixo não é remotamente tão bom quanto no iPhone e algumas funções só rodam, literalmente, na unha. 

câmera tem 5 MP, flash relativamente bom, mas não tem coisas bacanas como segurar pouco o botão para ter foco, ou foco selecionado com o toque, no visor, nem detector de sorrisos, olho fechado ou algo do gênero. Além disso, as cores das imagens são meio amareladas. Em outras palavras: não é um upgrade muito grande em relação à já muito boa câmera do N95. Mas ainda é melhor que o iPhone e todos os concorrentes mais "business", como a própria linha E da Nokia.    

De resto: 32 GB de memória mais espaço para cartão microSD, o que é excelente. Wi-Fi, 3G, A-GPS, bluetooth estéreo, saída para headphone 3,5 mm. Não testei a bateria, mas ao que tudo indica e outras resenhas apontam, dura mais que o iPhone ou basicamente qualquer outros smartphones, como tradicionalmente acontece com telefones da Nokia. Ponto pra ele.

Interface

Não me levem a mal, adoro as funcionalidades do E71, com o Symbian S60 versão feia, mas rápida. Mas a primeira tentativa da Nokia no universo touch, com o 5800, foi ruim. Muitos submenus, desnecessários, 5 confirmações para escolher o ponto de acesso, tela inicial não muito populada, sobras de botões inúteis comendo um pedaço da tela e várias coisas irritantes.

No N97 o sistema parece um pouco mais redondo, mas pouco. A tela inicial tem widgets, o que ajuda o crônico problema de sempre ter que clicar ao menos duas vezes antes de chegar a qualquer coisa útil. No Brasil, há alguns widgets exclusivos. E, por ora, nada muito útil também. A não ser que você voe muito por uma mesma companhia, ou faça muitas buscas de preço pelo Buscapé. Há o Facebook também, mas sobra espaço para os ícones e pouco para informação. Espero que as coisas da Ovi, que está demorando para engrenar, ajudem na experiência. Mas hoje trocaria esses 2 ou 3 widgets por uma tela inicial com dezenas de atalhos, sem pensar duas vezes.

O navegador de fábrica leva mais de um minuto para carregar o Gizmodo em 3G, com navegação horrível. Ele funciona bem para alguns sites, especialmente os preparados para celular – e roda flash. Mas outros, mais elaborados, sem chance. A essa altura do campeonato não faz o menor sentido um celular com Symbian não vir sem o Opera Mini (que comprime as páginas, carrega bem mais rápido) embarcado.

Outro problema é que na hora de digitar você normalmente tem que selecionar um lugar, ele entra em uma tela escura, você dá enter, depois ok, depois clica no "buscar". Nada muito rápido.  

Ele é multitarefa. E isso é muito, muito bom, especialmente para quem trabalha com o telefone. Ler um feed numa tela, escrever e-mail, Twitter, ouvir música e usar algum negócio para mensagem instantânea ao mesmo tempo é bastante valioso. O 5800 engasgava bastante com algumas coisas abertas. O N97 evoluiu um pouco nesse sentido, mas me parece que falta processador para segurar melhor a barra.

O cliente de e-mail é bem esperto, dá pra configurar várias contas, e ele é bem integrado ao sistema. Não me pareceu melhor que o cliente para Gmail do Symbian, mas é interessante para quem tem mais de uma conta.

 

Primeiras impressões

Resumindo: o N97 é um telefone muito bom em alguns quesitos de seu hardware, mas tem uma interface que parece cada vez mais velha. Em termos de rapidez de acessar tarefas básicas é um retrocesso em relação ao E71, ao Blackberry e mesmo outros telefones da companhia. E não é uma troca justa: você ganha um telefone touch, mas um sistema que não é muito mais bonito ou agradável por causa disso.

O GSM Arena resumiu bem o dilema da Nokia com o N97. Quando o N95 apareceu, a empresa finlandesa tinha um telefone campeão em tudo. Uma câmera excelente, a melhor resolução, GPS, memória interna, multitarefa, customização, programas, bateria… Ele era o melhor smartphone em vários aspectos. Hoje há aparelhos com tela melhor, câmeras melhores, tocadores de música melhores, GPS com bússola…

O N97 não é mais o melhor em coisa alguma. Porque, na real, acabou a era dos supertelefones, melhores em tudo. Ele é muito bom em vários aspectos e hoje, 13 de setembro, é talvez o mais completo telefone do mercado brasileiro em termos de funcionalidades possíveis (não necessariamente agradáveis). Mas em menos de um mês aparecerão os equipamentos com Android, alguns com a interface atualizada do Windows Mobile 6.5. E o iPhone 3GS, que pode não ter câmera tão boa, teclado físico ou multitarefa, tem uma interface incrivelmente mais amigável. E ele já está no mercado.

Aliás, é bom lembrar, o N97 custa R$ 2.400. E ele não é R$ 1.400 melhor que o N95.