Uma câmera de 2MP, sem 3G, sem Wi-Fi, sem GPS ou touchscreen. Esse é o Motocubo, lançado com toda pompa mundialmente pela Motorola hoje, aqui em São Paulo. E é com esse celular bem limitado que a empresa que precisa se reinventar aposta muitas fichas. Vai dar certo? Por R$ 549, desbloqueado, com uma interface incrivelmente amigável para redes sociais, truques para usar o mínimo de banda possível e teclado QWERTY, há uma boa chance de isso ser um sucesso. Porque, amiguinhos, estamos no Brasil. E às vezes faz bem olhar o que o público quer e está consumindo.

A grande sacada do Motocubo (que é outro poliedro, mas não um cubo) é melhorar a interface do usuário. Ele roda no OS proprietário da Motorola e tem botões dedicados ao SMS ou ao browser (o Opera pré-instalado). Aparentemente tudo foi pensado para que a pessoa dê o mínimo de cliques possíveis para conseguir o que quer. Você costuma mandar fotos para o Twittpic? Com apenas um clique (mesmo), dá para enviá-la diretamente. O player de música, além dos botões dedicados para ir pra frente ou pra trás, permite que você dê nota e organiza playlists automáticas. O cliente para Orkut (desenvolvido em parceria com o Google, exclusivo) traz as principais funções, tipo escrever um scrap ou mudar o status no próprio menu do celular. Mesma coisa para os clientes proprietários do Facebook ou Last.fm: eles foram feitos para aquela tela e aquele teclado, o que é bem diferente de entrar por um navegador genérico não amigo do aparelho (Nokia 5800, estou olhando para você).

Com esses programas de interface simplificada e quase sem figuras (e outros, como os cliente de e-mail com os principais servidores pré-configurados), o Motocubo usa pouca banda. A Motorola conversou com operadoras para que disponibilizassem planos pré-pagos de dados ou mais econômicos. Pelo perfil dos programas, com 10 MB, a princípio, dá pra se virar muito bem. Até porque algumas funções tipo mandar uma foto para o Picasa, por exemplo, são configuradas como MMS – não usam a rede Edge. Mas e a velocidade? É obviamente mais lento, sim, para navegação. Mas como eu falei, os programas simplificados ajudam as coisas a serem carregadas mais rápido. O Motocubo demorou 4 segundos a mais para carregar a página principal do Orkut em comparação ao meu E71 com 3G.

Outros detalhes bacanas que pude ver nesse pouco tempo que tive com o aparelho (teremos ele pra testes em breve) é que o Motocubo agrupa as mensagens em SMS como se fossem um histórico de conversas do messenger, por contato. Como player de música, além de bem bonito e funcional, o Motocubo tem uma entrada padrão para headphone (3.5 mm), suporte a bluetooth estéreo e integração com o Last.fm. O rádio FM com RDS permite ver textos das emissoras de rádio (como o nome ou programa). Além do MotoID (que reconhece a música tocada no ambiente, marromêno), há um novo aplicativo (Midomi) que reconhece a música que você cantarola. Seerá? Cantar pro celular descobrir a música me parece meio embaraçoso. Mas hey, tá lá se alguém quiser usar.

Senti falta de um cliente para o Twitter ou MSN Messenger. Mas pelo que foi falado, a inclusão do MSN depende de um acordo de cada operadora com a Microsoft. De qualquer forma dá para acessar a loja de cada operadora e da Motorola, e o celular tem suporte completo para aplicativos em Java. No Brasil, o cubo será vendido com um cartão de microSD de 2 GB (suporta até 32 GB) com bastante conteúdo embarcado. Além dos clientes para redes sociais, ele vem com joguinhos: Spore, The Sims 2 e Sudoku em versões completas, além do Google Maps. Não há GPS, mas a localização por triangulação de antenas funciona decentemente. O cliente de e-mail parece ok e há até o suporte ao Exchange, no caso de os pais dos adolescentes espinhentos (público-alvo primordial) quererem confiscar o celular.

Outra coisa que pode ajudar a vender o aparelho é o apelo ecológico (o nome de batismo do cubo é A45 Eco). Ele não tem componentes de PVC, é feito 25% de garrafas plásticas recicladas (mas não tem cheiro de tubaína) e 70% do aparelho é reciclável, além do certificado de neutralização de carbono.

Os contras: a tela de 320×240 px não me pareceu tão boa; pra um celular com foco em redes sociais a câmera deveria ser mais caprichada; o teclado poderia ter teclas mais prominentes. E não deram especificações sobre o tempo de vida da bateria, mas é uma bateria Motorola, o que normalmente não é bom. 

Ah, sim. Não tem 3G. Essa, aliás, é a grande questão. No Twitter e em comentários alhures (adoro usar alhures), as pessoas já começaram a disparar "#motofail" basicamente porque a bolachinha não se conecta à rede em alta velocidade.

Mas vamos colocar as coisas em perspectiva: a cobertura 3G no Brasil não é lá essas coisas – aqui em São Paulo, eu fico na Edge boa parte do tempo. Há, no Brasil, somando modems, aparelhos WCDMA e tudo, cerca de 4,2 milhões de dispositivos com 3G. Num universo de 161 milhões de celulares. Por mais que a gente faça barulho com o lançamento do iPhone 3GS e o povo babe no N97, num país como o nosso eles não serão campeões de vendas. Veja o caso do LG Cookie, sucesso absoluto recente. Nosso post curtinho sobre o aparelho, que é basicamente um touchscreen barato, teve 57 mil leituras. Mais que os últimos 20 sobre o iPhone somados.

O usuário médio do Brasil não tem dinheiro para comprar um celular caro, nem para um plano caro – mais de 80% dos telefones no Brasil são pré. As pessoas mal fazem ligação, mas adoram torpedos e redes sociais. O Samsung Scrapy e o LG Messenger já sacaram o potencial desse mercado. A Motorola chegou depois, mas possivelmente com o melhor dispositivo para a tarefa. O mais irônico pra mim é que o último sucesso retumbante da Motorola foi o Z3. E ele foi (é) popular justamente por ser um aparelho para tirar onda: caro, fino, visual diferente, mas que não fazia nada demais. O Motocubo é justamente o oposto. É é com ele e os dispositivos Android que estão para aparecer que a Motorola tenta se reerguer (já que não está muito bem financeiramente). Começo a achar que ela tem alguma chance.