Toda vez que escrevemos sobre netbooks aqui, o primeiro comentário é "por esse preço, eu compro um notebook". E faz bastante sentido no Brasil, onde as coisas não fazem sentido às vezes. Mas no resto do mundo, o computador de formato ultracompacto, com muita bateria e tela pequena tem feito bastante sucesso. Além da óbvia portabilidade, o preço é um enorme chamariz, com vários bons modelos abaixo dos US$ 350 nas lojas americanas, por exemplo. Mas a verdade é que o netbook não pegou no Brasil, se pensarmos no imenso potencial que tinha. O motivo é óbvio: preço. Ainda mais quando comparamos, por exemplo, com o México.

No evento da Dell em Miami, os executivos faziam questão de falar da importância do Brasil, que representa mais da metade do mercado latino-americano para a empresa em vendas de PCs. Mas na hora de falar do desempenho dos "mini", um certo choque: o México lidera o ranking de vendas em unidades de netbooks com 46% do mercado abaixo de Tijuana, enquanto o Brasil só tem 13%. A colega mexicana me falava do sucesso por lá: "é o primeiro computador de muita gente! E é bom porque não chama atenção. Porque se você andar com uma mochila grande, os ladrões vão saber." O México é muito parecido com o Brasil em muitas coisas. Só que no caso dos netbooks, o preço lá fica por volta de 530 dólares. Caro ainda, mas bem melhor que aqui.

O que me faz pensar que no Brasil, inverteu-se a lógica. Se no resto do mundo o netbook é algo claramente cheap (não só no sentido de barato, mas de meio vagabundo), por aqui ele é um lance meio cool, justamente porque é caro. Para atrair comentários do tipo "Olha só aquela mulher, tem um computador que cabe na bolsa". E, de fato, as empresas orientam o consumidor e o time de vendas para que fiquem cientes das limitações dos minis, deixando claro que ele não deve ser um computador, e sim um segundo ou terceiro PC da pessoa.

É um estranho símbolo de status. Aliás, me parece que no Brasil, coisas baratas e vagabundas no resto do mundo viram símbolo de status por serem caras. Nos EUA, com preços baixíssimos, as lanchonetes do McDonald’s servem mendigos e uma galera sem muito dinheiro. Aqui, paga-se menos para comer uma refeição completa (com arroz, feijão e tal) do que um hamburguer semi-industrializado. Onde mais no mundo?

Onde eu estava? Ah sim, eu acho que os netbooks vieram para ficar. No Mundo. Tenho o meu, acho o máximo. Mas nesse preço (oficial – até 40% maior que o praticado no Mercado Livre), dificilmente eles terão o mesmo sucesso aqui do que lá fora. O governo até tentou dar uma forcinha fazendo uma licitação para a compra de milhares de netbooks no programa Um Computador por Aluno (apelidado por alguns de URUCA), mas o preço final foi caro, o projeto era defasado, a licitação foi suspensa duas vezes e ainda não há solução aparente. Tanto que o presidente Lula, durante a entrega de alguns computadores em uma escola de Piraí (RJ), deu um gela na indústria nacional.

“Nós, na verdade, estamos querendo combinar uma redução de preços e, embora eu seja o maior defensor da indústria nacional, se ela não conseguir fazer um preço acessível, nós vamos ter que importar alguns para poder fazer com que a inserção digital chegue à população mais pobre desse país”,

Ei, fabricantes: o Brasil é um excelente mercado em potencial. Agora, por favor, baixem os preços. Veja o quanto vocês estão vendendo notebooks "mid-range"! Não tem por quê não dar certo com os netbooks. Grato.