Nos comentários de um post alguns dias atrás, o nosso fiel leitor thiagones elogiou o Motorola Milestone, que ele teve por alguns dias até ser roubado em um sequestro relâmpago. Muitos prestaram suas condolências. Como fãs de tecnologia que somos, a perda de um smartphone querido é algo trágico, especialmente naquelas circunstâncias. No mesmo dia, o Thiago me mandou um e-mail detalhando a terrível história. Achei que o relato de uma pessoa próxima (somos todos amigos aqui no Giz), com todos os seus questionamentos, poderia levar a algumas reflexões importantes. E pergunto a todos: vocês andam com seus gadgets normalmente na rua? O fato de estarmos no Brasil diminui sua vontade de comprar smartphones caros ou notebooks (ou usá-los)? 

A história do Thiago:



 

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Estava jantando com um amigo, que como nós é viciado em tecnologia. Torrei 3/4 da bateria do Milestone só para mostrar os recursos do aparelho entre uma picanha, uma fraldinha e uma maminha na churrascaria.

Voltei pra casa, e eu moro em uma CASA, coloco o carro dentro da garagem, desligo o motor. E ali ocorreu o que a gente jamais imagina que vai ocorrer. Fui abordado por dois bandidos que entraram na garagem, um de cada lado do carro. Mandaram fazer silêncio e ir para o banco de trás. O silêncio foi em vão, porque a minha valente e pequena cadela Chiquita que estava dentro da casa percebeu algo e estranho e latiu como nunca, atraindo meu pai para a janela que viu tudo – E isso acaba com a gente. Passar por isso é horrível, mas saber do sofrimento de alguém querido é pior ainda –

Já no carro, rodamos alguns minutos e fomos a um caixa eletrônico, me pediram as senhas e ai vem uma grande ironia. Pergunto-me quantas vezes eu xinguei um caixa eletrônico por não funcionar. Hoje fico feliz com essas falhas de tecnologia, porque elas me pouparam o meu suado dinheirinho. O caixa estava fora do ar.

Voltamos ao passeio infernal de carro. Ai começou o terror psicológico. Perguntaram quanto valia a minha vida para minha família. Falaram em ficar comigo por alguns dias para conseguir dinheiro. Isso caiu como uma pedra no meu estomago mas me mantive firme. Fui dando a idéia que a família não tinha dinheiro (o que não deixa de ser verdade). Perguntaram se tinha notebook em casa ….se tinha “uns plasmas” em minha casa..  Eles tentam saber o que você tem para saber o que podem tentar troca pela sua vida.

O Milestone tocou. Eles não sabiam girar a meia-lua para cancelar a ligação. Pediram para desligar. Desliguei pra não vê-lo mais.

Depois do terror, me deixaram sair, numa viela em um bairro bem afastado. Eu mal saio do carro e eles pediram para esperar. Um deles saiu do carro e não sei o que ele estava segurando na mão, mas tremi pela segunda vez. Ele queria meu tênis, um surrado Nike. De meias, corri em direção a uma avenida. Estava a salvo.

Dia seguinte, minha mãe no hospital em pânico. Carro encontrado: inteiro por fora, mas sem som, sem estepe, sem milestone. Levaram até meu cortador de unhas.

Mas estou vivo, são e salvo o que foi um grande motivo para comemorar o ano-novo.

Hoje quando estou em casa, olho para cada bem material que conquistei trabalhando muito e descansando pouco. Vejo a TV de LCD que entrou na categoria genérica de “uns plasmas” e fico imaginando que se pra mim ela representa um conforto para ver filmes, pro bandido é um símbolo de status e riqueza. Pura bobagem. Mas nunca pensei que minha vida valesse “uns plasmas”. Seria pedir muito para o bandido falar “uma Bravia” ao menos? Sentiria-me mais valorizado. 

O milestone não era símbolo de status. Mas fiquei com medo quando o bandido mexeu nele. Pelo simples fato dele ser estiloso o bandido pode achar que você é podre de rico. E não convém tentar explicar para o bandido o que significa subsidio de operadora.

Comprei um Nokia E63 a preço de pré-pago para me manter online. Milestone, só daqui pelo menos 6 meses, quando meu plano der bônus suficiente.  A minha vontade em usar esses aparelhos vai ser sempre a mesma. Mas a vontade de levá-los no bolso ou no porta treco do carro, diminuiu consideravelmente. Ter gadgets antenados com o mundo no Brasil é quase uma profissão de risco. 

Não sou especialista em segurança pública, não acredito que truculência resolva. Tem todo um aspecto de segurança, educação e social que precisa ser revolucionado. Só falta vontade de fazer. Mas fico com o que escrevi em um dos meus primeiros tweets pós trauma:

“graças as politicas de segurança virei estatistica em 28/12…sofri um Sequestro relampago. Obrigado pela incompetencia @joseserra_”

Para um país que pretende decolar, é bom lembrar que a violência pode deixar tudo off-line. Inclusive vidas. 

Por fim fica a dica que se o acaso obrigar alguém, leitor do Giz ou qualquer pessoa a viver essa situação, é importante não reagir, manter a calma e raciocinar muito antes de falar. O carro, o smartphone e tudo mais se recupera. A vida não. 

 

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Eu já quase fui assaltado em São Paulo algumas vezes. Em uma vez, fui salvo por um celular velho. Em outras duas, na lábia (mas apenas porque a pessoa não estava armada). Já tive medo, como o Thiago falou, que achassem que eu era podre de rico porque eu gasto bem mais que o saudável em brinquedos tecnológicos.

Mas apesar de todas as histórias, ainda acho que a violência nas grandes cidades é tão aleatória que mudei muito pouco meus hábitos. Abro e trabalho com o smartphone no ônibus, de vez em quando saio com meu Zune HD e digito coisas no netbook no táxi. Não ando pela rua com uma câmera de milhares de Reais em ruas quase vazias como fiz no Japão, onde o sentimento de segurança é total. Mas ainda assim, talvez ingenuamente, me recuso a mudar os hábitos e não usar coisas que paguei caro por causa de nosso ambiente. Mas isso sou eu, que por enquanto tive, talvez, sorte. E vocês?

Como cidadãos comuns e eventuais vítimas, temos duas coisas a fazer:
1) Votar em pessoas que no mínimo tenham ficha limpa, porque o exemplo de políticos corruptos irradia a noção de impunidade para os bandidos de gadgets; 
2) não alimentar o comércio de celulares roubados (compre na loja ou de alguém de muita confiança, sempre).

O que mais podemos fazer? O que vocês dizem?