Amanhã estreia no Brasil o filme “Gravidade”, do diretor Alfonso Cuarón. Se você estava no espaço e não sabe do que se trata, o longa retrata um caótico momento no espaço em que os personagens interpretados por Sandra Bullock e George Clooney precisam se safar de um dos mais aflitivos dramas: sobreviver no vácuo espacial enquanto tudo rui ao seu lado. A convite do Gizmodo Brasil, Marcos Pontes, o primeiro e único brasileiro a visitar o espaço, assistiu ao filme e deu seus pitacos mais técnicos sobre como Cuarón e sua equipe retrataram a vida no espaço. Confira:

Achei gostoso de assistir como diversão, mas não se pode ver com olhar muito técnico em termos operacionais.

Geralmente os filmes se obrigam a colocar mais ação ou mais drama em uma forma condensada, para manter a atenção da audiência durante o tempo de duração do filme (1h30 a 2h). Na vida real, os eventos são mais “espalhados” na linha do tempo e seria impossível um filme que mostrasse tudo de forma fidedigna nessa mesma escala de tempo. Assim, geralmente os filmes “condensam” os eventos, comprometendo muitas vezes a sequência dos fatos e frequentemente “exageram a verdade”, comprometendo a realidade e algumas vezes as próprias leis da física, etc.

No espaço, o ambiente é muito hostil. Algumas pessoas não sabem, por exemplo, dos riscos de expor o corpo diretamente ao ambiente espacial (sem traje). Se o astronauta estiver dentro do traje EMU (para atividades extra-veiculares) e o traje estiver funcionando corretamente, ele terá de 6 a 9 horas de vida. Depois disso, ou faltará energia elétrica ou oxigênio. Isso acarretará morte por congelamento ou aquecimento, ou por falta de oxigênio. Se fora do traje, em questão de segundos ele terá “o sangue fervendo” (ebulição dos líquidos com o corpo exposto a muito baixa pressão – temperatura de ebulição reduz com a pressão, lembra?) e uma série de outros problemas que o levará à morte rapidamente. Outro detalhe importante é que o traje Sokol (da Soyuz ou da Shenzhou) ) não é projetado para atividades extra-veiculares. Não tem oxigênio, exceto uma pequena garrafa de emergência, não tem sistema de controle de temperatura independente da espaçonave e não tem “umbilicais” de oxigênio e refrigeração “longos” para sair da espaçonave com eles.

No filme “Gravidade”, o diretor tenta manter a audiência ligada o tempo todo, colocando uma longa sequência de panes e eventos catastróficos iniciados pela colisão com “debris” dos satélites destruídos. A colisão com “debris” é uma possibilidade real. Contudo, a atividade extra-veicular (EVA) ficou estranha em termos de procedimento. Nós nunca soltamos da estrutura sem uma razão muito grande e, se for o caso, apenas sob coordenação com o MCC (Mission Control Center). No filme, os personagens não usavam os dois cabos previstos de ancoragem. O traje autopropulsado com o SAFER tinha muito mais material propulsante que o real (na realidade, são utilizados jatos de nitrogênio que têm autonomia apenas para alguns segundos de propulsão).

Quando a personagem de Sandra Bullock tira o traje, falta uma peça essencial que é o traje de controle de temperatura. Ela estava de shorts e camiseta apenas. Já a movimentação em “zero g” dentro da espaçonave foi perfeita. Mas a dinâmica de “voo livre” no espaço, agarrando-se a estrutura ao chegar perto delas, vindo de muito longe em “traslados EVA” seria praticamente impossíveis de se fazer devido à dificuldade que temos de se agarrar rapidamente com as luvas EVA pressurizadas e também devido à própria dinâmica dos corpos seguindo com velocidades próximas a 28 mil km/h. Isto é, qualquer ângulo de divergência causa enormes velocidades de divergência (lembre-se de cálculo vetorial) o que significa, na prática, tentar agarrar uma estrutura com um diferencial de centenas de km/h em velocidade com uma luva que não “fecha” a mão rápida e completamente e você com uma massa de mais de 100 kg (lembre-se que embora não haja “peso” em microgravidade a massa continua a existir, assim como o momento linear e angular).

De forma geral todos os procedimentos das espaçonaves, como acoplamento e desacoplamento, abertura de hatches, acendimento de motores, separação de módulos, etc., foram muito simplificados.