No livro Perdido em Marte de Andy Weir, que depois se transformou em filme estrelado por Matt Damon, o protagonista enfrenta o terreno inóspito de Marte ao usar o seu próprio cocô para cultivar batatas. A ideia não é tão bizarra assim – durante os últimos anos, um projeto financiado pela NASA tem tentado simular a plantação de batatas marcianas ao testar a técnica no deserto peruano. Embora os primeiros resultados tenham sido promissores, uma nova pesquisa sugere que a sobrevivência de qualquer tipo de vida em Marte talvez seja mais difícil do que imaginávamos – ainda mais batatas plantadas por humanos. Eu culpo Matt Damon.

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Cientistas da Universidade de Edimburgo testaram como a bactéria Bacillus subtilis reagiria a percloratos, que foram descobertos em solo marciano pela primeira vez em 2008. Percloratos são químicos naturais (e, por vezes, artificiais) tóxico aos humanos, mas nem sempre são ruins para os micróbios. De fato, no Deserto do Atacama no Chile, alguns micróbios usam percloratos do solo como uma fonte de energia. Em Marte, percloratos permitem que a água exista em forma líquida salgada apesar da baixa pressão atmosférica do planeta.

No entanto, quando pesquisadores colocam B. subtilis em uma bacia de solução de perclorato de magnésio similar às concentrações encontradas em Marte, e expõem os micróbios a níveis semelhantes de radiação UV, a bactéria morre em 30 segundos. Mesmo quando os pesquisadores repetiram o experimento em um ambiente rochoso como o de Marte que eles fizeram de sílica, a maioria das bactérias também morriam. Essa pesquisa deprimente foi publicada no Scientific Reports.

“Embora os efeitos tóxicos dos oxidantes da superfície marciana ter sido considerada por algum tempo, nossas observações mostram que a atual superfície de Marte é altamente prejudicial a células, causada por um coquetel tóxico de oxidantes, óxidos de ferro, percloratos e irradiação UV”, escreveram os pesquisadores. “Apesar disso, mostramos que efeitos bactericidas de percloratos que sofreram radiação UV nos dão ainda mais evidência de que a superfície de Marte é letal para células vegetais e torna muitas regiões superficiais e próximas à superfície inabitáveis”.

Nem toda a esperança está perdida. Por um lado, o estudo testou apenas uma espécie de bactéria – não está claro como outras se comportariam sob as mesmas circunstâncias. Lynn Rothschild do NASA Ames Research Center disse ao Gizmodo que ela e seu time recentemente conduziu uma pesquisa que sugere que “bactérias poderiam resistir aos percloratos e sais em Marte”. Sempre é possível que as formas de vida em Marte sejam biologicamente muito diferentes e que tenham encontrado uma maneira de se adaptar aos percloratos no solo e até prosperar.

Mais pesquisa precisa ser feita antes de desistirmos da nossa utopia de batatas em Marte.

Imagem do topo: 20th Century Fox