Uma médica que foi uma das primeiras vítimas da pandemia Covid-19 no Reino Unido relatou sua experiência angustiante na revista Anesthesia Reports. No texto, ela descreve sua doença e tratamento, que incluiu semanas de uma intervenção de último recurso chamada oxigenação por membrana extracorporal (ou ECMO ), que assumiu completamente seus pulmões e coração. O ator Paulo Gustavo, que faleceu no início de maio, também havia passado por ECMO, mas sem sucesso.

Anushua Gupta, de 40 anos, foi infectada no final de março de 2020. Após uma semana lidando com uma tosse persistente e outros sintomas, ela foi internada no hospital em 1º de abril. Sua condição piorou rapidamente, e em poucos dias de admissão, ela ficou com tanta falta de oxigênio que começou a ter alucinações. Seus médicos decidiram, então que ela precisava de cuidados intensivos, o que exigiria intubação e ventilação mecânica. Como resultado, Gupta concordou em ser colocada em coma induzido. Antes de ser sedada, ela conseguiu ver o marido e a filha de 18 meses em uma videochamada.

“Eu temia nunca conseguir realizar o sonho que meu marido e eu tínhamos de vivermos juntos até a velhice. No entanto, eu tive que parecer bem por ele, que também teve que ser forte pela nossa filha ”, escreveu Gupta. Mas ela não sairia do coma pelos próximos dois meses.

Durante esse tempo, ela se tornaria uma das primeiras pacientes no Reino Unido a ser tratada com ECMO. Este é um dispositivo especializado que consiste em uma bomba para fazer circular o sangue por um pulmão artificial fora do corpo, regressando depois à corrente sanguínea. Ao substituir essas funções pela ECMO, espera-se que os órgãos danificados possam cicatrizar o suficiente para salvar a pessoa em estado crítico.

Embora esse procedimento tenha se mostrado valioso na redução do risco de mortalidade por Covid-19 grave, poucos hospitais têm a tecnologia disponível e muitos pacientes ainda morrem apesar do tratamento — como foi o caso de Paulo Gustavo. Felizmente, Gupta não era um deles. Ela permaneceu em ECMO por 34 dias, e quatro dias depois de ser retirada da máquina, ela começou a mostrar sinais de melhora.

Depois de acordar, ela ainda precisou de meses de reabilitação para recuperar sua capacidade de falar, de se alimenta e de andar com suas próprias forças, bem como terapia para processar o trauma de sua experiência. Foram 150 dias no hospital, ou seja cinco meses. “Sete meses após minha alta do hospital, minha recuperação não está completa. Tenho mudanças significativas em meus pulmões. Ainda não se sabe se isso é reversível”, escreveu ela. “Eu sofri muito com dores em várias articulações por muitos meses. Acho que isso pode muito bem ser o que outros descreveram como ‘Covid longo’.”

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Ainda assim, alguns aspectos de sua saúde, como a capacidade de respirar e tolerar exercícios, estão melhorando com o tempo. Sua saúde mental também melhorou significativamente, e ela pôde retornar ao trabalho (remotamente) em novembro do ano passado. Apesar de sua provação, ela se sente feliz por agora ter a oportunidade de contar o que passou.

“Me deu imensa alegria, satisfação e uma sensação de realização ser capaz de contar a história de minha batalha contra a Covid-19 e ter minha história lida por outras pessoas”, disse Gupta. “Escrever isto marca o aniversário de um ano em que fiquei gravemente indisposta. Espero que este relatório aumente a conscientização e dê esperança a outras pessoas de que se pode ter um bom resultado, apesar dessa doença crítica.”