A NewsGuard é uma startup que tem como objetivo avaliar a confiabilidade de organizações de notícias e dar aos usuários uma avaliação rápida do quanto eles deveriam confiar no que estão lendo. Agora, o plugin da empresa vem embutido no navegador Microsoft Edge para dispositivos móveis, um avanço a que todos nós deveríamos prestar atenção.

A atualização no Edge veio sem muito alarde por parte da Microsoft. A inclusão do NewsGuard ao navegador móvel foi observada primeiro pelo Guardian, que apontou que os usuários do Edge agora recebem um aviso ao visitar o site do tabloide britânico Daily Mail. “Continue com cuidado: este site geralmente não consegue manter padrões básicos de precisão e responsabilidade”, diz o aviso.



O uso de checadores de fatos para avaliar conteúdos noticiosos na web se tornou uma opção cada vez mais popular para as plataformas, à medida que notícias imprecisas, enganosas ou simplesmente falsas seguem assolando a rede e causando problemas políticos a empresas que só querem focar em ganhar dinheiro.

As tentativas do Facebook de avaliar sites noticiosos junto com links compartilhados têm sido, em geral, consideradas um grande fracasso, mas a NewsGuard acha que consegue fazer melhor. Ao promover seu serviço, ela enfatizou que usa seres humanos reais para realizar as avaliações, com base em um conjunto transparente de nove critérios. Em agosto, a companhia disse à Wired que emprega “quase 40 repórteres e dúzias de freelancers”, que estão “trabalhando em 4.500 sites que, segundo eles, representam 98% do conteúdo compartilhado online”.

Usando um navegador desktop, você precisa instalar o plugin do NewsGuard. Porém, se você faz parte do limitado grupo de pessoas que usam o navegador Edge para dispositivos móveis, ele já deve estar instalado no aplicativo atualizado.

Por ora, ele aparece como um recurso opcional que pode ser ativado indo em ConfiguraçõesClassificação de notícias e ligando a opção de “Exibir classificação na barra de endereços”.

A classificação não aparece automaticamente; o recurso simplesmente mostra um pequeno ícone de escudo na barra do navegador que é verde ou vermelho — verde sendo bom, e vermelho, ruim. Ao clicar no ícone, são apresentadas uma breve avaliação da confiabilidade do site e a opção de “Veja o Nutrition Label completo”. A opção já está disponível para usuários brasileiros, mas sites nacionais ainda não possuem a verificação – é possível solicitar a revisão, então talvez seja questão de tempo até que domínios brasileiros ganham algum selo de confiança.

Essa avaliação mais longa é mais detalhada do que o programa de verificação de fatos do Facebook, fornecendo breves resumos sobre o que o site cobre, quem é o dono, sua credibilidade geral e outras categorias. Por exemplo, o Gizmodo recebe uma classificação verde, e a breve descrição diz: “Este site geralmente mantém padrões básicos de precisão e responsabilidade”. Clicar no Nutritional Label do Gizmodo traz mais informações como esta:

O Gizmodo.com.br linka para as fontes citadas em seus artigos. O site não separa claramente notícias e opinião, e algumas manchetes e artigos exibem linguagem subjetiva e carregada. Por exemplo, artigos sobre a legislação britânica que tinha como objetivo impedir pessoas jovens a acessar pornografia na internet foi dada com a manchete “O plano idiota do governo britânico para manter menores longe da pornografia na internet está sendo atrasado” e “Bancas de jornais britânicas irão vender ‘passes pornô’ na atual cruzada sem sentido de bloquear o sexo de menores”

Mais à frente na classificação, nós somos vetados por postar um link para um artigo do nosso site-irmão Splinter em nossa página inicial que chamou Donald Trump de mentiroso de série. “Mentir envolve declarar falsidades intencionalmente, e isso normalmente não pode ser provado.” Podemos contestar quem você pode ou não pode chamar de mentiroso, mas não há nada de grave na avaliação.

Ainda assim, a ideia de embutir um programa de checagem de fatos no navegador é preocupante. A NewsGuard tem uma equipe incrivelmente bem conectada de líderes que inclui pessoas como o antigo editor do Wall Street Journal Louis Gordon Crovitz. O conselho consultivo inclui o ex-diretor da CIA Michael Hayden e o Secretário de Segurança Nacional de George W. Bush, Tom Ridge.

Neste mês, a MintNews deu um longo mergulho nas relações inconfortáveis da liderança da NewsGuard com think tanks neoconservadoras, assim como seu próprio histórico de espalhar notícias falsas. Crovitz, por exemplo, escreveu um artigo de opinião no Wall Street Journal que falsamente afirmava que os laboratórios da Xerox PARC mereciam “crédito total” por inventar a internet. Isso é uma alegação absurda projetada para empurrar o argumento de que são os negócios privados que impulsionam a inovação de verdade. É tão absurda que Vint Cerf, um dos pais da internet, se sentiu compelido a desmascarar essa besteira.

Todos os líderes e conselheiros da NewsGuard têm o poder de fazer as coisas acontecerem, como evidenciado por este plugin que você provavelmente nunca ouviu falar estar de repente dentro do Edge. O fato de ser opcional, tendo que ser ativado nas configurações, não é grande coisa, mas não tem como dizer com certeza que ele não vai se tornar um modo padrão ao longo do tempo. E, mesmo que os usuários simplesmente vejam o ícone verde ou vermelho, a NewsGuard pode ter um impacto.

Um estudo da Gallup e da Knight Foundation conversou com dois mil adultos nos Estados Unidos, mostrando a essas pessoas artigos com e sem as classificações da NewsGuard. O estudo concluiu que os leitores tinham maior probabilidade de confiar em artigos que incluíam o ícone verde na barra de endereços.

Essa percepção intuitiva da precisão estava sendo influenciada por um ajuste de design muito simples. E a possibilidade disso se tornar parte de cada navegador faria da NewsGuard uma organização extremamente poderosa. Mesmo que a empresa seja atualmente a fonte de verificação de fatos mais aberta, transparente e precisa do planeta, tudo isso pode mudar.

Em conversa com o Gizmodo, um porta-voz da NewsGuard disse ao Gizmodo que a startup está discutindo com grandes empresas e plataformas maneiras de implementar o plugin em seus resultados de busca, feeds de notícia e navegadores. “Esperamos ter mais a anunciar em breve”, disseram.

Sobre o modelo de negócio da empresa, a NewsGuard diz que vende uma licença para o uso de suas avaliações a empresas de tecnologias que queiram “exibir nossas avaliações a seus usuários em suas plataformas, como resultados de busca, feeds de notícia ou como parte de um navegador”.

O site da companhia diz que eles pretendem também licenciar a lista de avaliações para anunciantes, ajudando-os a criar uma lista de sites seguros nos quais colocar anúncios — o que me parece uma quantidade enorme de poder.

Também não está claro o que exatamente a NewsGuard irá fazer com os dados que coleta. A página de privacidade da startup se esforça bastante para garantir aos usuários que nenhuma informação pessoalmente identificável está sendo coletada automaticamente. Mas o plugin também coleta uma série de informações de dispositivo que podem ser valiosas, enquanto apenas estipula que não compartilha “nem mesmo as informações anônimas com qualquer terceiro para fins publicitários”. E para fins não-publicitários? A resposta ao Gizmodo é curta: “Não”.

Claro, existem várias razões para acreditar que o pior cenário possível talvez nunca aconteça. Imagine a tempestade que a Microsoft teria que enfrentar de conservadores quando seus telefones começassem a mostrar uma mensagem dizendo que a CNN é um site confiável. Imagine a tempestade que a Microsoft teria que enfrentar de progressistas quando seus telefones começassem a mostrar uma mensagem dizendo que a Fox News é um site confiável. Por melhor que seja uma ferramenta para avisar qual notícia é confiável e qual não é, muita gente simplesmente não vai querer nem saber.

[The Guardian]